Como saber se seu filho está enfrentando um problema de saúde mental

Os transtornos psíquicos estão se tornando cada vez mais comuns entre as crianças – mas como podemos identificar os sinais iniciais? [Foto: Getty]

Por Marie Claire Dorking

Pais e mães estão sempre tentando proteger seus filhos. Se eles cortam o joelho, passam remédio. Se eles têm febre, dão um antitérmico.

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Embora necessidades físicas sejam fáceis de identificar, não podemos dizer o mesmo sobre os transtornos de saúde mental.

Novas estatísticas, compiladas pela Fundação Born This Way, de Lady Gaga, revelaram que 9 em cada 10 jovens estão preocupados com a sua saúde psíquica. Além disso, 60% afirmam estar enfrentando dificuldades nesse sentido.

Infelizmente, aqueles que estão combatendo suas dificuldades nesse campo, tendem a esconder o que estão sentindo. Pesquisas anteriores da campanha Time to Change descobriram que quase 90% dos jovens diria a amigos e familiares que estão “bem” mesmo se estivessem lidando com um problema emocional, como a depressão ou a ansiedade.

Então, como os pais podem identificar se seu filho está sofrendo com um transtorno psíquico?

“A maioria dos adultos pensa em suas infâncias como a época mais feliz de suas vidas. No entanto, nós esquecemos muito rapidamente que ser criança – mesmo uma muito pequena – pode ser estressante,” diz Kelly Feehan, da instituição de caridade CABA, voltada para o bem-estar.

“Da pressão dos amigos às expectativas acadêmicas, há muitos aspectos da vida moderna que acabam levando uma criança ou um adolescente ao estresse, ansiedade e preocupações diversas. Se esse quadro for ignorado, pode levar à depressão”.

“Não é surpresa alguma que as provas, a escola e a lição de casa costumam ser os gatilhos mais comuns. No entanto, há outras causas às quais devemos estar atentos. A pressão dos amigos, acontecimentos mundiais, mudanças na família e até a falta de autoestima podem fazer com que uma criança se sinta estressada ou deprimida”.

Sinais e sintomas que podem indicar um problema de saúde mental

Mais tempo sozinho

“Fique atento se a criança se isolar dos amigos e da família, demonstrar uma queda no humor e uma falta de motivação, que se manifestam por meio de dificuldades para fazer qualquer coisa além do mínimo necessário que deve ser feito todos os dias,” explica a Dra. Hayley van Zwanenberg, psiquiatra especialista em crianças e adolescentes do Priory’s Wellbeing Centre em Oxford.

Falta de motivação

A Dra. van Zwanenberg também recomenda que os pais fiquem atentos a uma possível redução da motivação dos filhos, incluindo o abandono de atividades extracurriculares e hobbies. “Pensamentos negativos como ‘Eu sou uma pessoa chata e faço tudo errado’ também são importantes”.

Mudanças no comportamento e nos hábitos alimentares

De acordo com a Dra. van Zwanenberg, algumas crianças deprimidas também podem mostrar sinais de automutilação, mudanças no apetite (falta de fome ou compulsão alimentar) e dificuldade de concentração, levando a uma queda no desempenho escolar.

“Pensar coisas como ‘Eu sou péssimo, eu mereço sofrer, eu não aguento mais’ ou ‘Vou decepcionar a todos’ é comum,” ela continua.

Dormir mais – ou menos

“Mudanças no padrão de sono também podem indicar que seu filho está enfrentando dificuldades psíquicas,” explica a Dra. van Zwanenberg.

Intuição

Lynn Crilly, conselheira de saúde mental, aconselha que os pais ouçam sua intuição, se acreditarem que há algo errado com seus filhos. “Não há substituto para a intuição dos pais,” ela explica. “Se você sente que há algo estranho com seu filho, provavelmente há uma boa razão para ter esta impressão”.

Perder o interesse em suas coisas preferidas

“Geralmente o principal sinal de um problema é quando as crianças perdem o interesse em atividades que costumavam amar,” explica Lynn Crilly.

“Pode ser um esporte, um programa de TV do qual elas sempre gostaram, um instrumento musical ou até passar um tempo com os amigos. Este sinal, extremamente comum, costuma ser o primeiro a aparecer e deve ser abordado com a criança de forma calma, atenciosa, e o mais brevemente possível”.

Outros sinais e sintomas que merecem atenção incluem:

  • Fazer as coisas mais lentamente ou até falar mais lentamente.
  • Ter pensamentos irracionais e até delirantes.
  • Romper em lágrimas sem um motivo aparente ou em situações inesperadas.
  • Duvidar de si mesmo constantemente e não ter autoconfiança.
[Foto: Getty]

A seguir, confira como conversar com o seu filho sobre a sua saúde mental

Incentive-os a se abrir

“Se você suspeita de que seu filho está sob pressão ou sofrendo com o estresse, é importante ouvi-lo com calma e passar mais tempo do que o habitual com ele,” diz Kelly Feehan.

“Mostre-se disponível para atividades divertidas ou simplesmente fique no mesmo cômodo que ele. Pergunte sobre o seu dia e mostre interesse em coisas que são importantes para ele. No entanto, evite forçá-lo a falar sobre suas preocupações – ele vai se abrir quando se sentir confortável para falar sobre o assunto”.

Também é importante pedir que ele se abra de uma forma confortável para ele. “Pode ser por mensagens de texto, escrevendo uma carta, ou falando quando se sentir calmo,” diz a Dra. van Zwanenberg.

Pergunte novamente

O simples ato de perguntar novamente como eles estão se sentindo demonstra uma vontade sincera de conversar e ouvir. “Nossa pesquisa mostra que perguntar ‘Você está bem?’ não é o suficiente,” explica Jo Loughran, diretora do Time to Change. “Perguntar duas vezes é uma maneira simples e eficaz de mostrar que você realmente quer saber a resposta e está pronto para conversar e ouvir”.

Converse lado a lado – e não cara a cara

“Conversar enquanto vocês estão fazendo compras, cozinhando ou dirigindo pode diminuir a pressão – você não precisa ter uma conversa formal, sentados um diante do outro,” sugere Jo Loughran.

Fale sobre a sua própria saúde mental

Fale abertamente sobre as suas próprias questões e dificuldades relacionadas à saúde mental. “Conversar de forma sincera sobre a sua saúde mental mostra ao seu filho que não há problema em se abrir,” diz Jo Loughran.

Ouça o que eles têm a dizer

Se o seu filho começar a falar sobre o que está sentindo, faça um esforço para ouvir verdadeiramente, sem ser autoritário com as suas preocupações. “Se um pai está preocupado com um filho, é melhor se sentar calmamente com ele e explicar que está preocupado porque notou uma mudança no seu comportamento,” diz a Dra. van Zwanenberg.

Pergunte como você pode ajudar

De acordo com a Dra. van Zwanenberg, muitas vezes a melhor coisa que você pode fazer é perguntar ao seu filho o que pode ajudá-lo a se sentir melhor. “Pergunte o que ele gostaria que você fizesse para apoiá-lo,” sugere ela. “Pode ser que ele queira um abraço, que queira se distrair vendo um filme com você, ou que não seja deixado sozinho durante a noite. Talvez seja útil ter à mão aplicativos de mindfulness, como o Headspace (headspace.com) ou o Calm Harm.”

Coloque as coisas no contexto

Segundo a Dra. van Zwanenberg, é importante contextualizar a questão para a criança, já que ela pode não entender seus sentimentos, ou sentir que está ficando “louca” por não ter qualquer tipo de conhecimento sobre a depressão.

“Se o seu filho está enfrentando dificuldades, explique calmamente que ele pode estar deprimido, que este problema tem tratamento, que você entende que é uma situação terrível e algo difícil de lidar,” disse ela.

“Reforce seu ponto de vista com estatísticas, como o fato de que um em cada 10 jovens tem um diagnóstico de problemas emocionais em algum momento, e que a depressão é muito comum,” continua a médica.

É fundamental incentivar o seu filho a falar abertamente sobre seu problema de saúde mental [Foto: Getty]

Tente manter a calma

A Dra. van Zwanenberg diz que a coisa mais importante que você pode fazer como pai é manter a calma. “Se você precisar conversar com outras pessoas da família ou amigos sobre o que seu filhos lhe revelou, para obter apoio, assegure-se de que a criança ou adolescente não sinta que sua confiança está sendo violada,” alerta ela.

Experimente distrair e desviar

Se seu filho está sofrendo com um estresse intenso, pode ser interessante distrair a sua atenção. “Há coisas que você, como pai, pode fazer para ajudar a mudar as emoções do seu filho,” explica a Dra. van Zwanenberg.

Ela sugere assistir um filme de terror juntos, ler um livro divertido, ver vídeos engraçados na Internet ou olhar fotos antigas suas ou de seus filhos quando eram bebês.

Incentive seu filho a “cortar a sua linha de pensamento”

A Dra. van Zwanenberg sugere que os pais incentivem seus filhos a construir uma parede de tijolos metafórica entre eles e seus pensamentos estressantes. “Peça que eles não pensem nas suas preocupações com as provas, exceto em períodos determinados, como por 10 minutos pela manhã e à noite. (Isso não quer dizer que eles não devem estudar, mas que devem bloquear a preocupação)”, explica ela.

“Faça com que seu filho pense em uma lembrança relaxante que possa funcionar como um porto seguro dentro da sua cabeça,” ela continua. “Peça que eles descrevam a lembrança com riqueza de detalhes, incluindo os sons, aromas, luzes, texturas, as conversas, as emoções das quais se lembram. Isso pode ajudá-los a relaxar e distraí-los de suas preocupações. Com a prática, eles podem acessar esta mesma lembrança em momentos de estresse”.

Busque ajuda

“O mais importante é buscar ajuda profissional para o seu filho,” aconselha a Dra. van Zwanenberg. “A depressão é uma doença muito difícil que traz riscos para as crianças e os adolescentes, mas é tratável, e quanto antes o tratamento for iniciado, melhor”.