Sem toque e depois de muita conversa: como planejar reencontros sem vacina contra covid-19

Como fazer escolhas pessoais e conscientes a partir do "novo normal"? (Foto: Getty Images)

Por Cristiane Capuchinho

Após mais de três meses sob a ameaça do coronavírus e sem um confinamento organizado para que o Brasil superasse o pico de casos de covid-19, mesmo quem pode ficar em casa sofre com a manutenção do isolamento prolongado e sem previsão de fim.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 minuto e receba todos os seus e-mails em um só lugar

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Google News

Siga o Yahoo Vida e Estilo no InstagramFacebook e Twitter, e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentários

Os médicos e a OMS (Organização Mundial da Saúde) são categóricos, enquanto não houver uma vacina para prevenir o contágio ou um tratamento eficaz, teremos de manter a distância social e evitar o contato com múltiplas pessoas. As regras devem durar ainda muitos meses.

Leia também

Um almoço no quintal com um casal de amigos foi o excesso cometido por Maurício*. Cardíaco e com mais de 60 anos, ele sabe do risco a que está exposto, mas já não suportava a solidão: “Não visito a família, não saio, tenho evitado até ir ao médico sem necessidade, não faço nada desde março. Mas não dá para me isolar completamente do mundo até o fim da vida.”, afirma, em um misto de justificativa e de confissão da angústia.

“O problema é que não podemos correr o risco de contaminação todos de uma vez só porque não temos hospital para cuidar de todo mundo. Mas é preciso que isso seja conversado, que a pessoa diga o que está sentindo. Alguma flexibilização [de confinamento] é necessária em um cenário de ameaça prolongada”, comenta a psicóloga Valmari Cristina Aranha, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. 

“Se a pessoa está se sentindo mal, precisa encontrar alguém, dá para fazer isso, mas há cuidados necessários: vai usar máscara, vai manter distância de um metro, não vai ter beijo, não vai reunir gente para fazer uma festa”, exemplifica. 

Aranha lembra que de nada adianta ter passado três meses em confinamento completo e abrir mão de tudo de uma vez, mesmo que seja por um dia. 

Confiança para negociar e para seguir regras

Os relacionamentos afetivos costumam ser os primeiros desencadeadores da quebra do confinamento, relata Elder Cerqueira, professor da UFS (Universidade Federal de Sergipe) que coordena duas pesquisas sobre a saúde mental do brasileiro durante o confinamento. “Este é o primeiro momento de negociação com a família e, muitas vezes, leva a brigas. Algumas famílias acham que o namoro não é um motivo forte o suficiente para quebrar o isolamento”, conta.

A conversa franca mais uma vez se mostra necessária para a negociação eficiente de regras que garantam ainda proteção contra o coronavírus. 

Cerqueira evoca a criação de bolhas sociais. Em países como a Bélgica ou a Nova Zelândia, os governos usaram a estratégia como forma de saída progressiva do isolamento total. A ideia era que cada casa poderia nomear um grupo limitado de pessoas de outra casa com quem os moradores poderiam se encontrar. O objetivo é ampliar o contato social de forma controlada, facilitando o rastreamento de casos se alguém descobrir estar contaminado. 

“Temos visto que a estratégia de criar subgrupos e sub-redes tem sido mais aceita entre as famílias”, diz Cerqueira.

No entanto, para que isso funcione, é preciso confiança nas pessoas da mesma bolha social de que elas estão se precavendo ao sair na rua ou ir ao mercado, por exemplo, e também sinceridade em compartilhar qualquer sinal de que uma das pessoas da casa possa estar doente ou de que alguém se expôs a uma situação de risco.

“As pessoas precisam ter decisões compartilhadas, colocar as opiniões na mesa e se comprometer com as outras”, concorda a psicóloga da SBGG. 

Distância social x isolamento social

Um dos riscos do confinamento prolongado para os quais os psicólogos estão prestando atenção especial são indicadores de ansiedade e de depressão. 

O pesquisador da UFS conta que, em uma primeira fase da pesquisa com mais de dois mil respondentes feita no início da pandemia, os jovens até 24 anos mostraram maior quantidade de indicadores de ansiedade que os entrevistados com mais de 60 anos. 

“Pela vulnerabilidade [ao coronavírus], achávamos que os idosos estariam mais ansiosos. Mas não, os jovens estão mais ansiosos, e isso acreditamos que tenha a ver com a parada de suas atividades:  não ir trabalhar, não sair para estudar, não se relacionar”, descreve Cerqueira. 

Segundo o pesquisador, é esperado que uma onda maior de indicadores de depressão seja percebida em uma nova coleta de informações, com as pessoas vivenciando a experiência da doença e das mortes. 

O professor de psicologia da UFPB Valdiney Gouveia destaca a importância de ficar atento às pessoas que apresentam sinais de descrença e desespero. 

“O isolamento potencializa a ansiedade e a depressão, por exemplo. Algumas pessoas são menos resilientes, vivenciando a crise com visão mais negativa, tendo medo acentuado da covid-19 e a sensação de que não há saída”, explica o pesquisador que está estudando a reação à crise de pessoas com diferentes personalidades.

Para a psicóloga da SBGG, é importante manter o contato para que a distância social não seja isolamento. “Manter distanciamento social não significa se distanciar afetivamente. Dá para ficar perto sem se tocar, sem ser impositivo. Dá para enviar uma carta, uma comida, falar por telefone. Dá para fazer muita coisa, mas não dá para voltar a tudo como era antes”, enfatiza Aranha. 

*O sobrenome foi preservado a pedido do entrevistado.

Nove cuidados para evitar o coronavírus 

- Lave as mãos regularmente: se não tiver uma torneira fácil, use álcool em gel

- Evite tocar o rosto: olhos, nariz e boca são portas de entrada para o vírus

- Não cumprimente com aperto de mãos, abraços ou beijos

- Não compartilhe objetos pessoais, como talheres ou copos: o objetivo é tocar o menor número possível de coisas que alguém tocou

- Mantenha distância de ao menos um metro em relação a outras pessoas: vale também para encontros com amigos

- Prefira lugares abertos ou abra as janelas em locais fechados

- Use máscara em lugares públicos ou com várias pessoas

- Cubra a boca e o nariz em caso de tosse ou espirro

- Use lenços de papel e jogue direto no lixo

Fontes: OMS e Fiocruz