Como os homens amam uns aos outros e desprezam as mulheres

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Por que homens não conseguem enxergar as mulheres como parceiras (Foto: Getty Images)
Por que homens não conseguem enxergar as mulheres como parceiras (Foto: Getty Images)

Há um ponto delicado dentro da construção da masculinidade hegemônica, que é o pacto narcísico entre os homens, ou seja para quem os afetos são direcionados, nas amizades, na admiração, na consideração e na validação são de homens para outros homens. Vou me fazer entender: esse ponto é delicado porque vai de encontro com um pilar da masculinidade, que é a suposta virilidade do macho alfa, que não pode tomar um drink doce sem ter receio de que lhe achem "frouxo", no entanto, é um fato que homens consideram uns aos outros.

Vou lhes contar um exemplo: No meu Instagram, recebi a mensagem de um seguidor, cujo nome fictício será Danilo. Ele relatou uma situação que é extraordinariamente comum, e por isso alarmante. Ele me dizia que já era um homem de 32 anos, independente e que nos últimos meses vinha conversando, e se relacionando com uma mulher chamada Manuela, a quem ele adorava estar junto, amava o sexo que eles tinham, e que ele até gostaria de assumir ela, mas tinha uma questão: ela é gorda, e isso lhe agradava muito, mas trazia outro receio.

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Ele temia ser julgado pelos amigos, porque no grupo dele a mulher ideal "tinha que ter no máximo 60 quilos", e Manuela, segundo ele, deveria ter entre 85, 90 quilos. Após esse relato tenebroso, ele perguntou o que podia fazer, já que queria muito estar com ela, mas não queria virar piada. 

Esse caso nos revela várias coisas, a primeira é que nós homens temos muitos problemas de personalidade. A fragilidade é tanta que sustentar o desejo de estar com a mulher que ele gosta, era um contraponto ao desejo de ser aceito como homem.

Porque a masculinidade tóxica é garantida por esse pacto, onde inconscientemente a masculinidade é garantida pela performance do outro, seja no grupo de amigos, seja onde for. Ou seja, maior do que o nosso afeto, está o desejo de sustentar o afeto dos homens ao nosso redor. Estamos nessa dinâmica a todo momento, ser o macho alfa, forte, bem sucedido, não é apenas para impressionar as mulheres, mas também para encontrarmos a validação de que somos machos. Afundados no nosso narcisismo, estamos pouco ligando para as mulheres.

A mulher não é reconhecida como um sujeito ao qual o homem possa ter uma troca mínima

A pessoa perfeita

Sabe a história do príncipe encantado? Muitas mulheres se questionam, quando será o dia que encontrarão o seu, e eu lhes digo, príncipes tem aos montes nas ruas, homens de peito estufado, que entram em relacionamentos, tão convictos dos seus supostos brilhos, que realmente pensam que para se relacionar, é suficiente que ele esteja ali. Afinal, ele já está dando a mulher a sua incrível presença, o que ela pode querer mais? Por isso que qualquer sinal de conversa, conflito, para o homem é uma grande ofensa. "Eu sou suficiente!"

Quando mulheres serão parceiras?

As mulheres, na estrutura machista, são colocadas para o sexo e o cuidado nas relações e o amigo, sim, será o confidente, a boa conversa, aquele que a opinião importa acima de todas as outras. Os amigos serão o tempo de qualidade dele, a folga da "dona encrenca". Assim, fica mais claro quando digo que homens amam outros homens, é porque a mulher não é reconhecida como um sujeito ao qual o homem possa ter uma troca mínima. Até porque, querer tratar a mulher de igual para igual, é ser menos homem.

Ao não considerar a humanidade e a afetividade da mulher, demonstra que somos nós [homens] que estamos longe da humanidade

Amizade com mulher? Jamais! Muitos homens argumentam que ter amizade com mulher é impossível, porque em algum momento ele vai querer transar com ela. Essa é uma frase extraordinariamente machista e que revela essa visão utilitária e objetificada da mulher. Danilo, ao se questionar sobre Manuela, revela a gordofobia de seus amigos, sua incapacidade e imaturidade, e ao não se posicionar foi conivente com o pensamento dos amigos, é cúmplice do preconceito com ela. Existe uma linha tênue entre o encanto e o fetiche.

E muitas mulheres acabam enquadradas na segunda opção, quanto mais longe ela estiver do padrão socialmente aceito para os homens, menos chances ela terá de ser assumida, e serão deslocadas ao desejo "proibido". 

No fim, aquela mais próxima do padrão, é tratada como troféu, exibida para os amigos. A preocupação de Danilo é também que seus amigos queiram e desejem a mulher dele, e muitos homens pensam assim, se relacionam tratando as mulheres pensando em como todos os homens vão olhar para ela, e ele poder se gabar disso.

A cumplicidade masculina poderia ser algo positivo, de acolhimento e apoio entre homens, e em alguns casos o é. Mas na maioria das vezes faz a manutenção da masculinidade hegemônica: alimenta conceitos absurdos do que é ser homem e de formas de oprimir as mulheres em sua totalidade. O que Danilo, e todos os outros homens que se identificam com a história precisam, é procurar tratamento, porque ao não considerar a humanidade e a afetividade da mulher, demonstra que somos nós [homens] que estamos longe da humanidade.

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