Como o presidente do Airbnb sucumbiu a um IPO que não queria

Por Joshua Franklin e Anirban Sen
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Presidente da Airbnb, Brian Chesky, conversa com Linda Pona em Cape Town em 2017
Presidente da Airbnb, Brian Chesky, conversa com Linda Pona em Cape Town em 2017

Por Joshua Franklin e Anirban Sen

NOVA YORK/BANGALORE (Reuters) - O presidente-executivo da Airbnb, Brian Chesky, resistiu por anos a pedidos de investidores de acompanhar a corrente de outros unicórnios do Vale do Silício com uma oferta pública inicial de ações antes de ver a empresa ser pressionada pelos impactos da pandemia de Covid-19.

A Airbnb pretende realizar o IPO na Nasdaq no próximo mês, 12 anos depois que Chesky fundou a empresa com os ex-colegas de quarto Joseph Gebbia e Nathan Blecharczyk. A longa estrada até o IPO frustrou muitos investidores e funcionários que esperavam por uma oportunidade de vender suas ações no mercado acionário.

Entrevistas da Reuters com mais de uma dezena de executivos, assessores, investidores e funcionários da Airbnb mostram que Chesky colocou os planos de IPO em segundo plano enquanto tentava transformar a companhia em uma agência de viagens completa, adicionando "experiências" para que os clientes pudessem participar de atividades de férias como visitas guiadas a atrações turísticas. Ao ampliar o investimento nessas iniciativas, ele sacrificou a lucratividade do Airbnb, segundo mostram dados do prospecto do IPO.

Levou anos de pressão de investidores e funcionários, bem como a deterioração das finanças da empresa durante a pandemia, para que Chesky desistisse de seus planos de expansão e se comprometesse com o IPO. A Airbnb está buscando uma avaliação de cerca de 30 bilhões de dólares, menos que os 50 bilhões de dólares que executivos de bancos de investimentos disseram a Chesky que a empresa valia se o IPO fosse feito dois anos atrás.

"Chesky não tinha com sonho tornar a Airbnb uma empresa de capital aberto. Isso era parte de um processo de satisfazer todos os envolvidos com a empresa e recompensá-los", disse Ron Conway, fundador da SV Angel, um dos primeiros investidores da Airbnb e apoiador de Chesky.

Representantes da Airbnb não comentaram o assunto.

A Airbnb atingiu oficialmente a condição de "unicórnio" em 2011, quando superou a avaliação de mercado de 1 bilhão de dólares. Como a empresa levantava mais dinheiro com investidores, Chesky resistia à ideia de levar a companhia ao mercado de ações. Ele dividia seu tempo entre administrar a Airbnb, visitar imóveis e desenvolver experiências para os usuários do site.

"Ele tem uma casa agora, mas por anos ele experimentava um novo Airbnb toda a noite. Ele ficava algumas noites em cada um. No porta-malas do carro dele ficavam todos os seus pertences, disse Conway.

DISPUTA PELO IPO

Investidores começaram a ficar frustrados com a falta de comprometimento de Chesky sobre um IPO da Airbnb. Em 2017, Lawrence Tosi, que tinha ingressado na empresa como vice-presidente financeiro dois anos antes, egresso do grupo de investimentos Blackstone, guiou investidores em uma rodada de captação de 1 bilhão de dólares. Ele citou a expectativa de que uma oferta pública de ações provavelmente ocorreria nos próximos 12 meses, disseram fontes com conhecimento das discussões.

Tosi também iniciou negociações com bancos de investimentos sobre um IPO que avaliaria a Airbnb entre 45 bilhões e 50 bilhões de dólares, disse uma das fontes. Ele estava promovendo estes encontros em nome de Chesky, que tinha pedido a ele para preparar a companhia para um IPO no primeiro trimestre de 2018, acrescentou a fonte.

Mas aí Chesky desistiu da ideia. Ele publicou uma mensagem descrevendo a Airbnb como empresa focada em um "horizonte infinito de tempo", um claro sinal de que tinha decidido evitar a divulgação de resultados financeiros típica de uma companhia de capital aberto.

Tosi acabou brigando com Chesky, argumentando que o futuro da Airbnb está sobre seus negócios principais de aluguel de imóveis para temporadas e viagens de negócios e que desistir do IPO para expandir a atividade de experiências significaria desperdício de dinheiro. Em 2018, Tosi saiu da Airbnb.

CORONAVÍRUS

Chesky manteve a perspectiva viva de IPO para os investidores, mas nunca cravou prazos até setembro de 2019, quando a Airbnb anunciou que faria um IPO em algum momento de 2020. Ele respondeu à frustração de muitos dos funcionários da empresa, que tinham recebido opções de ações que vencem no início de 2021, disseram as fontes.

Quando o coronavírus atingiu a empresa em cheio, Chesky decidiu levantar capital de novo, mas as rodadas de aporte anteriores tinham sido realizadas sobre perspectivas de rápido crescimento, não sob uma crise. Se a Airbnb já fosse uma empresa de capital aberto, poderia ter levantado recursos por meio de uma venda de ações no mercado.

Em vez disso, a única opção foi dívida, e uma dívida cara. A Airbnb assegurou 2 bilhões de dólares em empréstimos de várias companhias de investimentos, incluindo de Silver Lake e Sixth Street Partners, a uma taxa de juros anual combinada de mais de 9%. Em comparação, a Uber conseguiu financiamento de 1,5 bilhão de dólares em 2018 a uma taxa de 6,2%.

Alguns dos planos grandiosos de Chesky, incluindo programas de televisão e filmes da Airbnb, foram pelos ares assim que a empresa se viu forçada a demitir 20% dos funcionários e a cortar o orçamento de marketing com a chegada da pandemia.

Ele acabou se concentrando em revitalizar o negócio principal da Airbnb de aluguel de apartamentos em cidades para casas que as pessoas podem alugar para terem um lugar para ficarem durante a quarentena. A estratégia funcionou e a Airbnb teve lucro de 219 milhões de dólares no terceiro trimestre.

Mas a empresa nunca teve lucro anual, acumulando resultado negativo de quase 700 milhões de dólares nos primeiros nove meses do ano, bem diferente da performance de dois anos atrás, quando ficou a apenas 17 milhões de dólares de ter resultado positivo.

Em uma reunião de conselho da empresa no final de julho, Chesky concordou com um IPO da empresa até o final do ano, disseram as fontes.

"Quando a Covid-19 chegou, Chesky teve que reverter uma série de iniciativas que estavam sendo preparadas há três anos", disse Michael Ovitz, co-fundador da Creative Artists Agency e conselheiro informal de Chesky. "Ele ficou muito impactado com tudo isso."