Da roupa de operários aos desfiles da moda: como o mundo passou a amar o jeans?

Cristiane Capuchinho
·6 minuto de leitura
Peça de jeans 501 Calico da Levi's, dos anos 1900. Em mais de um século, o desenho do jeans pouco mudou. Crédito: Levis Divulgação
Peça de jeans 501 Calico da Levi's, dos anos 1900. Em mais de um século, o desenho do jeans pouco mudou. Crédito: Levis Divulgação

Quantos jeans você tem no armário? A pergunta é sinal do sucesso dessa peça criada há 150 anos nos Estados Unidos. A calça nasceu para servir de uniforme de trabalho, mas ao longo dos anos ganhou detalhes, mudou de textura, de corte e passou a vestir o mundo. Enquanto você lia isso, mais de 800 calças foram vendidas em algum lugar do planeta.

O jeans que veste diferentes culturas é resultado de um encontro fortuito de materiais e tecnologias, e hoje passa por uma transformação para reduzir seu impacto sobre o ambiente.

Trabalhando nas ferrovias americanas durante a Primeira Guerra Mundial, as mulheres usam o macarrão de jeans - Arquivos Nacionais dos EUA
Trabalhando nas ferrovias americanas durante a Primeira Guerra Mundial, as mulheres usam o macarrão de jeans - Arquivos Nacionais dos EUA

O tecido de algodão já era usado no século 16 para fazer velas de navios e vestir marinheiros em Gênova, na Itália. Originalmente, era bege. O azul vem do corante natural índigo, que começou a ser usado na cidade francesa de Nîmes. Mas as calças jeans como conhecemos hoje foram criadas nos Estados Unidos, quando o tecido usado para cobrir barracas passou a servir como matéria-prima de calças resistentes para os homens que iam trabalhar nas minas da Califórnia.

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Foi Jacob Davis quem teve a ideia de reforçar os bolsos com uma tachinha de cobre no canto, para que eles não descosturassem com o peso das ferramentas levadas pelos trabalhadores. A ideia foi patenteada em 1873, junto de seu sócio Levi Strauss. Ali nascia a tradicional roupa de mineiros e operários, feita para resistir ao trabalho pesado.

Em 1934, a Levi's lança sua primeira coleção para mulheres. Lady Levi's em propaganda dos anos 1940. Foto: Divulgação Levi's
Em 1934, a Levi's lança sua primeira coleção para mulheres. Lady Levi's em propaganda dos anos 1940. Foto: Divulgação Levi's

O que faz com que todos saibamos o que é um jeans à primeira vista é um conjunto de características que pouco mudou ao longo do tempo: o material, a cor azul do corante, o formato geral da peça, os cinco bolsos fechados por tachinha lateral e as costuras reforçadas aparentes.

Em 1922, foram incorporados os passantes de cinto no cós. Os botões foram trocados pelo zíper em 1926, conta Sophie Lécuyer, curadora de uma exposição sobre a história do jeans em Paris.

Em 1934, Levi’s lança o primeiro modelo feminino das calças de trabalho.

A atriz Marilyn Monroe aparece de jeans em diversos filmes de faroeste, como O Rio das Almas Perdidas, de 1954. Foto: Divulgação Cortesia Levi's
A atriz Marilyn Monroe aparece de jeans em diversos filmes de faroeste, como O Rio das Almas Perdidas, de 1954. Foto: Divulgação Cortesia Levi's

Dos trabalhadores de minas e ferrovias, a calça jeans torna-se parte do uniforme cowboy nos Estados Unidos. Dali, a peça vai ganhar popularidade com a propaganda ao vestir ícones americanos do cinema, como as atrizes Ginger Rogers e Marilyn Monroe, ou os galãs rebeldes James Dean e Marlon Brandon.

Ao longo do tempo, o jeans torna-se símbolo de rebelião e anticonformismo, sendo marca do vestuário jovem.

Propaganda dos anos 1970 da Buffalo 70 da Fiorucci, a empresa italiana inventou o modelo skinny. Foto: Divulgação Editora Phaidon
Propaganda dos anos 1970 da Buffalo 70 da Fiorucci, a empresa italiana inventou o modelo skinny. Foto: Divulgação Editora Phaidon

Nos anos 1970, a marca italiana Fiorucci inovou com o primeiro jeans skinny. A lenda conta que Elio Fiorucci teria tido a ideia depois de voltar de férias em Ibiza, onde observou a beleza das calças agarradas ao corpo dos banhistas que entravam no mar de jeans. O primeiro modelo skinny foi o Buffalo 70.

“Como roupa de trabalho, o jeans era uma peça rígida de cortes retos. Ele evolui ao chegar nas mãos de estilistas e vai ser a primeira vez que uma roupa valoriza o bumbum”, explica Lécuyer.

A marca francesa Marithé + Francois Girbaud desenvolveu a lavagem do jeans com pedra para dar um visual de peça usada. Na imagem, propaganda de 1986. Foto: Divulgação Girbaud
A marca francesa Marithé + Francois Girbaud desenvolveu a lavagem do jeans com pedra para dar um visual de peça usada. Na imagem, propaganda de 1986. Foto: Divulgação Girbaud

A coloração do tecido feita com o índigo tinge a parte de fora do algodão e deixa as fibras internas brancas. Assim, o uso e as lavagens vão tirando a cor azul e deixam aparecer as marcas mais claras. O que era sinal do tempo de uso passou a ser algo desejado esteticamente.

Ainda nos anos 1970, os estilistas franceses Marithé Bachellerie et François Girbaud desenvolvem uma técnica para dar esse visual sem precisar de anos, a lavagem com pedra (stone washed).

Além da estética, o processo amolece as fibras do tecido, deixando a peça mais confortável –e menos durável, claro.

Ellus foi a marca brasileira de jeans a trazer a lavagem com pedra para o país. Na foto, uma campanha de 1981 com o jeans lavado
Ellus foi a marca brasileira de jeans a trazer a lavagem com pedra para o país. Na foto, uma campanha de 1981 com o jeans lavado

Nos anos 1980, o jeans invadiu os desfiles de moda de alta-costura e nunca mais saiu de lá. Com o desenvolvimento do fast-fashion, a moda de uma temporada, e o aumento do poder de consumo da classe média em diferentes partes do mundo, sua produção explodiu. As estimativas de vendas anuais de jeans variam entre 2 bilhões e 4 bilhões de calças.

Em quarenta anos, o jeans tornou-se um peça obrigatória em todas as semanas de moda. Na imagem, exposição Jean, na Cité des Sciences et de l'Industrie, em Paris. Foto: Divulgação
Em quarenta anos, o jeans tornou-se um peça obrigatória em todas as semanas de moda. Na imagem, exposição Jean, na Cité des Sciences et de l'Industrie, em Paris. Foto: Divulgação

“O jeans virou representante de uma sociedade do consumo exagerado. O consumo de roupas, em 15 anos, aumentou em 60%. Nós compramos roupas que vamos usar uma vez, duas vezes ou às vezes nem mesmo isso”, comenta Lécuyer. Em países europeus e nos Estados Unidos, as pessoas têm em média entre 8 e 10 jeans, de acordo com uma pesquisa de 2020.

Com isso, o jeans virou um dos vilões da ecologia no mercado têxtil. Além do consumo excessivo e da grande quantidade de peças jogadas no lixo, sua produção implica um grande gasto de água, ao menos 9 mil litros de água para cada peça, e frequentemente usa trabalhadores mal-remunerados para garantir preços mais baixos.

Para piorar, o uso de poliéster no tecido — com peças stretch que aderem mais ao corpo — tem alto impacto na emissão de carbono, torna a calça menos duradoura e deixa resíduos plásticos na água ao longo de suas lavagens.

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Mas dá para reduzir o impacto no planeta sem deixar de usar jeans. Marcas que usam algodão de origem controlada (sem trabalho escravo ou desmatamento em sua produção), trabalham com tecidos naturais de plantas que consomem menos água que o algodão (como o cânhamo) e tem técnicas de produção com menos desperdício dão passos nesse sentido.

Diversas pequenas marcas locais têm trabalhado com o conceito de upcycling, que consiste em fabricar novas roupas a partir de resíduos têxteis de produção ou de peças nunca usadas. O objetivo é reutilizar o que já foi produzido em lugar de produzir mais lixo –a Fundação Ellen MacArthur estima que 3/5 de toda a roupa do mundo é incinerada ou termina em lixões menos de um ano após sua fabricação.

O lema agora, como prega a estilista britânica Vivienne Westwood, é “faça melhores escolhas, compre menos e faça com que elas durem”. O jeans, nascido para ser resistente, muda para continuar sua história de sucesso.