Como meninas de maiô na TV reforçam crimes contra as mulheres

Silvio Santos (Foto: Reprodução / SBT)

Silvio Santos voltou a ser destaque nos trending topics na última semana. Dessa vez, no entanto, não foi porque o apresentador do SBT espiou indevidamente o decote de uma mulher, mas porque promoveu um concurso de beleza infantil no seu programa.

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Nas imagens que rodaram a internet, é possível ver meninas na faixa de dez anos de idade usando maiô e andando pelo palco, mandando beijos, sorrindo e fazendo pose para as câmeras.

Silvio Santos promove concurso de crianças de maiô (Reprodução/SBT)

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A verdade é que concursos de beleza infantil não são nenhuma novidade. Nos Estados Unidos, essa é uma cultura fortíssima, e os beauty peagents são eventos concorridíssimos que acontecem anualmente, com meninas fazendo todo o tipo de procedimento de beleza para receber o prêmio no final.

Por um lado, vemos bizarrices como a história de Honey Boo Boo, que virou estrela de reality show junto com a família por conta desses desfiles. Por outro, os concursos são tão grandes por lá que ajudam adolescentes a ganharem bolsas integrais para irem para a faculdade.

Acredite, no Brasil, Silvio não é o primeiro a fazer um evento desse tipo com meninas menores de idade, mas talvez tenha sua parcela de equívocos ao colocá-las dessa forma na televisão, em rede nacional, sendo caracterizadas pelos "colo, pernas ou conjunto mais bonito".

Não à toa, ele foi amplamente criticado nas redes sociais, e muitos usuários não acreditaram que, em 2019, alguém poderia expor meninas dessa forma, objetificando o seu corpo desde tão cedo - e não ter a certeza que, de alguma forma, isso afeta a sua auto-estima e a relação com os seus próprios corpos, a longo prazo.

"Isso influencia diretamente na auto-estima dessas meninas, porque elas estão sendo diretamente expostas para avaliação externa a respeito dos seus corpos", explica Isabela Del Monde, da Rede Feminista de Juristas. "Se fosse uma avaliação externa a respeito da sua atividade intelectual, já poderia ser algo difícil se feito com essa falta de tato. Quando estamos falando de corpo, esse é o aspecto de maior insegurança para as mulheres. Porque nós temos uma construção social que diz que nós devemos ser belas, magras, sem celulite, sem estria, sempre muito arrumadas, e que é isso que nos define".

Segundo a advogada, é possível que essas meninas tenham, inclusive, traumas relacionados à essa experiência, não só porque ainda não passaram completamente a fase de crescimento e desenvolvimento físico, como também não estão totalmente desenvolvidas emocionalmente.

"Afinal, de contas, uma criança que está em uma competição e perde, gera uma frustração. Agora, você imagina uma situação em que você perde, no quesito de beleza, em rede nacional. É extremamente grave para elas, e seria bastante prudente que o programa interrompesse esse tipo de atividade", continua.

Em 2006, o filme Pequena Miss Sunshine já problematizou essa questão. Ali, a personagem Olive sonha em vencer um concurso do tipo, mas não segue o que é considerado o padrão de beleza vigente. Ela e a família, então, saem em uma aventura até o local do concurso, em uma narrativa que questiona todo esse processo.

A Olive de Pequena Miss Sunshine (Foto: Giphy)

O caso, claro, envolve não só programa, mas a relação dos pais com os filhos e até que ponto é saudável para a criança ser colocada nessa posição. Porém, acima de tudo, produzir um quadro como esse na televisão aberta reforça uma série de valores que, até hoje, causam inseguranças e uma visão distorcida das mulheres para com elas mesmas e da sociedade sobre elas.

"Isso reforça uma percepção machista da sociedade, na medida em que se reafirma que a única coisa que uma mulher tem de valor é o seu corpo e não a sua intelectualidade, a sua sensibilidade, a sua produção cultural, acadêmica, científica, sua vida profissional, suas relações amorosas e familiares. Ela é definida única e exclusivamente por um corpo. E, portanto, nós somos extremamente objetificadas", diz Isabel.

A advogada ainda explica que o que uma atração como essa faz é plantar e replantar uma mesma semente de objetificação feminina, e que acaba culminando em casos de feminicídio, estupro, cantadas de rua e outros tipos de violência severa que as mulheres sofrem tanto física quando moralmente.

Não tem nada de ingênuo ou só uma brincadeira. Porque isso é a base de uma estrutura extremamente violenta contra as mulheres, diz.

"E aqui a gente tem um elemento muito grave que é a sexualização do corpo dessas meninas. São crianças expostas de maiô num palco, em um país em que mais de 70% das violências sexuais acontecem com pessoas menores de 13 anos. Tem uma exposição dessas meninas a riscos de crime de pornografia infantil, por exemplo".

Isabel ainda explica que o público no geral deve ficar atento para que essas iniciativas sejam sumariamente interrompidas, e espera que o Ministério Público de São Paulo tome as devidas providências para que o quadro seja suspenso.