Como Maria Firmina dos Reis inspira uma Flip que quer celebrar os invisíveis

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira; de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados", diz Maria Firmina dos Reis na apresentação do livro com o qual entrou para a história.

Na edição inaugural de "Úrsula", o primeiro romance de autoria feminina de que se tem notícia no Brasil, ela nem assinava seu nome. Era apenas "uma maranhense".

Firmina tinha consciência de que seu gênero seria determinante na maneira como sua obra seria lida. Mesmo assim, jogou sua literatura no mundo fazendo um pedido singelo aos leitores daquele ano de 1859. "Deixai, pois, que a minha Úrsula, tímida e acanhada, sem dotes da natureza, nem enfeites e louçanias de arte, caminhe entre vós."

"Úrsula" trilhou seu caminho, entre a luz e a escuridão dependendo do momento histórico, até chegar a este momento de brilho inaudito. A autora e seu romance saem das margens para ocupar o centro da Festa Literária Internacional de Paraty, o mais prestigioso evento editorial do país.

Para entender o porquê da escolha e a dimensão do simbolismo da escritora, é preciso ressaltar outro ponto de sua biografia. Professora de carreira, Firmina era negra e filha de uma mulher alforriada -ou, para usar as palavras com que a própria autora descreve uma personagem, alguém que "obteve por dinheiro aquilo que Deus lhe dera como a todos os viventes".

A vivência e o ponto de vista particular de Firmina alimentam sua literatura com mais força não na narrativa da personagem que dá nome a sua obra-prima -uma mulher branca que enlouquece por um amor perdido-, mas nas personagens negras que protagonizam alguns capítulos fundamentais.

"E logo dois homens apareceram e amarraram-me com cordas. Era uma prisioneira -era uma escrava!", lembra a preta Susana a certa altura do romance. É a primeira cena da história da literatura em português na qual uma personagem escravizada narra sua experiência em primeira pessoa.

"Quando me arrancaram daqueles lugares, onde tudo me ficava -pátria, esposo, mãe e filha, e liberdade! Meu Deus! O que se passou no fundo de minha alma, só vós o pudestes avaliar!", continua a mulher, lembrando suas raízes africanas, de onde saiu metida com "mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio".

O relato de Mãe Susana, feito ao alforriado Túlio, evidencia tanto a relevância histórica quanto a vivacidade narrativa que tornam o livro ainda atraente.

"Firmina antecede Castro Alves em dez anos", afirma Fernanda Miranda, pesquisadora que abre a programação da Flip nesta quarta, sobre o autor baiano de "O Navio Negreiro". "Quando os romances daquela época apontavam a urgência de eliminar a escravidão, era mais porque ela atrapalhava os ganhos da elite. O discurso abolicionista não trazia o sujeito negro ao centro da discussão."

O interesse manifestado pelos curadores da Flip, ao anunciar a homenageada, foi usar o festival literário como alto-falante para pautar sua relevância, ampliar seu público e repensar o que é a literatura canônica do Brasil.

"A ideia é que a homenagem não seja útil só para ela, mas para que o ecossistema literário perceba o quanto ele é feito de injustiças", diz Fernanda Bastos, editora gaúcha e curadora ao lado dos professores Milena Britto, da Universidade Federal da Bahia, e Pedro Meira Monteiro, da Universidade Princeton.

Firmina foi uma autora bastante lida e ativa na imprensa, como lembra a professora Anna Faedrich, da Universidade Federal Fluminense. "Mas escritoras como ela vão gradualmente sendo apagadas, não se perpetuam nos registros literários dos homens. E isso não tem nada a ver com a qualidade nem com a variedade de sua obra."

O cenário mudou, no entanto. A pesquisadora lembra que, quando começou a estudar escritoras esquecidas, procurava editoras para publicar o material e dava com a cara na porta. Hoje são elas que a procuram.

No caso de Firmina, basta notar que há ao menos três edições novas de "Úrsula" nos últimos cinco anos. Na Flip, serão lançados uma biografia por dois de seus principais estudiosos, Agenor Gomes e Luciana Diogo, e o infantil "Maria Firmina, a Menina Abolicionista", para citar dois exemplos.

Além disso, as teses sobre a autora têm se multiplicado às dezenas. Faedrich mesmo organizou ao lado de Rafael Balseiro Zin a coletânea "A Mente Ninguém Pode Escravizar", com textos de 12 diferentes críticos sobre a autora, para a editora Alameda.

A Flip vem para sedimentar esse novo patamar de reconhecimento. É um movimento que lembra, por exemplo, a celebração recente de autoras como Ana Cristina Cesar e Hilda Hilst para afirmar que, sim, mulheres tidas como marginais ou malditas são essenciais à história literária do Brasil.

No caso de Firmina, há a intenção de um passo além. Segundo Bastos, a curadora, a programação quer promover um jogo de luzes entre autores, trazendo aqueles de mais holofotes para iluminar autores menos visíveis.

A argentina Camila Sosa Villada, estrela das letras e dos palcos, estará ao lado da poeta baiana Luciany Aparecida, de literatura ainda pouco descoberta. O popstar Lázaro Ramos sentará ao lado de Midria e Alice Neto de Sousa, duas jovens artistas lusófonas. E assim vai.

É uma escolha que não deixa de ter sua conveniência, diga-se. Com as passagens aéreas em alta, é uma mão na roda valorizar autores brasileiros e enxugar os estrangeiros -ainda mais numa Flip que captou menos recursos do que esperava com a Lei Rouanet e ficou com um caixa total de R$ 6 milhões, número que Mauro Munhoz, presidente da associação que organiza o festival, classifica como menor que o ideal.

A ampliação a 50 espaços parceiros e a inovação das tendas erguidas no espaço do Areal, por editoras que poderão vender seus livros em parceria com a Flip, contribuem tanto para pulverizar o programa quanto para a arrecadação da festa.

É um clima aguerrido que também combina com Maria Firmina dos Reis. A curadora Milena Britto, ao lembrar razões pelas quais escolheram a escritora como norte, a classifica como uma lutadora da palavra, alguém que "foge ao lugar-comum da galeria de homenagens por não ter sido reconhecida em vida".

É algo a se ponderar. Sim, a maranhense morreu com poucas posses e não, ela não entrou imediatamente nos cursos de letras pelo país. Mas a crítica Fernanda Miranda se opõe na hora a qualquer visão derrotista da biografia da escritora.

"Firmina construiu uma carreira literária mesmo com todos os obstáculos. Foi uma autora de múltiplos gêneros, com poesia, contos, crônicas, produções do folclore e da cultura popular", enumera.

E registra, acima de tudo, que a professora negra fundou uma sala escolar mista em que formava meninas pobres, filhas de escravizadas. "Seu projeto literário foi muito bem-sucedido, porque inspirou uma tradição de romancistas negras no Brasil. Firmina estava interessada em transformar sua realidade social. E isso ela realizou."