Como Marcela, do 'BBB 20' nos deu uma aula sobre objetificação de mulheres

Marcela, do BBB 20 (Foto: Reprodução)


O 'BBB 20' já tem uma nova favorita, e seu nome é Marcela. Isso porque, na última segunda-feira (27), ela protagonizou um diálogo que ganhou a internet. Durante uma conversa com Petrix, ela levantou (e cortou!) uma bola ao falar sobre a hiper sexualização das mulheres. 

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Já percebemos, mesmo com uma semana de programa, que Petrix tem um comportamento bastante machista. Além de reclamar da "qualidade" das mulheres da casa, ele tem comentado para os outros participantes sobre como as sisters dessa edição são "feministinhas" - uma forma pejorativa e que diminui o posicionamento das participantes. 

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Durante uma conversa que viralizou no Twitter, Marcela comenta: "Os homens sempre tratam mulheres como objetos sexuais e isso me enoja!". Petrix, por outro lado, respondeu: "No meu ver, eu acho que os homens têm necessidades, sabe...". Veio, aí, a cartada final da médica: "Necessidade a gente tem de comida, não de mulher!". 

Não é à toa que a conversa teve a repercussão que teve. Vivemos em um mundo que acredita na função sexual da mulher acima de qualquer coisa, que valoriza mais a sua aparência do que o seu intelecto e que descarta mulheres acima de uma certa idade, confirmando a ideia de que, além do padrão de "novinha" (como disse o próprio Petrix), elas não têm valor. 

Existem dados e estudos que confirmam essa visão. No ano passado, o Fórum de Segurança Pública liberou o seu 13º Anuário de Segurança Pública, que revelou que aconteceram no Brasil 180 estupros por dia em 2018. No total, foram reportados às autoridades mais de 66 mil casos de violência sexual naquele ano, o maior número desde 2009. 

E, sim, a maior parte das vítimas desse tipo de violência são mulheres negras - o que, acima de tudo, demonstra a seriedade da questão racial no nosso país -, e tinham até 14 anos. Importante lembrar que, nessa idade, um indivíduo é juridicamente incapaz de consentir com uma relação sexual. Isso significa que, por lei, mulheres menores de idade não podem consentir com relações sexuais - o que significa que qualquer interação de ordem sexual com essas pessoas é considerado estupro. 

No caso das meninas, a maior parte das vítimas (um total de 53%) tinham 13 anos. Importante ressaltar também que o relatório indica o abuso sexual e estupro de homens - que, nesse caso, acontece em idade ainda mais jovem. Ao todo, pouco mais de 18% dos casos aconteceram com meninos, e a idade média é 7 anos. 

Como era de se esperar (e uma realidade que muitas pessoas têm dificuldade em entender), na maior parte das vezes as meninas são abusadas por um conhecido - quase 76% das vezes. E, do total de estupros registrados, mais de 90% foram causados por um único abusador. Como você já deve imaginar, a maior parte dos abusadores (em mais de 93% dos casos) são homens. 

Se você teve dificuldade em entender a ligação do comentário de Petrix com os dados acima, nós explicamos: a ideia de que as mulheres devem servir aos homens, sexualmente falando, é lugar comum na sociedade, o que gera uma falsa sensação de poder. Por acreditarem nessa premissa, os homens se veem no direito de exigir satisfação sexual por parte das mulheres. 

Um estudo da Associação de Psicologia Norte-Americana (APA), mostrou que as meninas são sexualizadas (e com mais frequência) do que os meninos na mídia. Comumente, elas são retratadas com roupas reveladoras, em poses insinuadoras e com expressões faciais que tem uma conotação sexual. É claro que a mídia é apenas um reflexo da forma como a sociedade pensa, mas isso reforça - e muito -, essa ideia. 

Tanto que outras pesquisas já mostraram como o surgimento das redes sociais aumentou a pressão para que meninas seguissem uma narrativa hipersexualizada para conseguir atenção. 

Segundo um outro estudo feito pela UNICEF USA, os resultados dessa hipersexualização causa, em meninas e mulheres, sentimentos de ansiedade a respeito da sua aparência, distúrbios alimentares, sentimentos de vergonha, baixa auto-estima e até depressão. Tudo isso, obviamente, também tem um efeito no comportamento masculino, já que os homens internalizam a noção de que a atratividade física e o sucesso estão ligados à dominação, poder e agressão, e resultam um loop de normatização da violência (isto é, ela vira algo comum) além de reforçar estereótipos de gênero.