Como lidar com uma eleição no meio de uma pandemia

Marcela De Mingo
·7 minuto de leitura
salvador, bahia/brazil - July 31, 2018:  Electronic ballot box used by the electoral justice in the elections in Brazil."n"n
salvador, bahia/brazil - July 31, 2018: Electronic ballot box used by the electoral justice in the elections in Brazil."n"n

Nos Estados Unidos, as eleições para presidente foram uma demonstração clara do que nos aguarda em termos de corrida política. No entanto, longe do brasileiro esperar mais dois anos para pensar em votação - no próximo domingo (15), acontecem por aqui as eleições municipais para prefeito e vereador, e nos preparamos para lidar com o estresse que é pensar em política no meio de uma pandemia.

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Claro, impossível comparar uma importante eleição presidencial - que tem reflexo no mundo inteiro -, com as eleições municipais. O que não significa que elas são menos essenciais. Pelo contrário, aqui no Brasil, especialmente em São Paulo, temos percebido a importância de ter um governo alinhado com o que é melhor para a população e o resultado que o desencontro e a falta de comunicação entre cidades, estados e o governo federal pode causar.

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Ao mesmo tempo, é impossível também desconsiderar o estresse e a ansiedade que falar sobre política em um momento tão delicado pode gerar. Verdade, os nervos andam à flor da pele por muitos motivos - a crise política e econômica derivadas da pandemia de coronavírus não facilita o processo para ninguém -, e a pergunta que fica é: como lidar com tudo isso?

“Sempre é possível manter o equilíbrio, por mais adversa que possa ser uma situação", explica o psicanalista Ronaldo Coelho. “Porém, o caminho para tanto é entender o que está desestabilizando. No caso das eleições, sabemos que as escolhas das outras pessoas impactam diretamente nossas vidas, o que nos coloca numa situação de pouco controle. Numa disputa acirrada, passamos a ter a sensação de que podemos fazer muito para que o placar seja aquele que nos satisfaça. Contudo, é necessário lembrar de que por mais que os outros façam uma escolha que a nós parece ser estúpida, há uma infinidade de variáveis que condicionam aquele voto e que não podemos controlar. Saber o que se pode controlar e o que não se pode é importantíssimo neste processo.”

Como lidar com o estresse das eleições?

Em 2016, quando Donald Trump foi eleito presidente dos EUA, um novo termo começou a ganhar espaço quando se fala em saúde mental: estresse pós-eleição. Dois anos depois, percebemos um efeito semelhante por aqui: a eleição do atual presidente, Jair Bolsonaro, foi repleta de sensações, passando de fúria e tristeza para uns à euforia e empolgação para outros. Ainda assim, o que parecia reinar na internet era a sensação de que tempos sombrios estavam por vir.

Observando de perto a batalha pelo cargo mais alto nos EUA este ano nos faz pensar que podemos seguir um caminho semelhante em 2022 - e, considerando que o Brasil tem uma tendência a seguir os mesmos passos que o país ao norte do continente, é bem possível que seja isso mesmo. Vale a pena, então, usar eleições como as municipais como um treino para que o vem por aí.

1.Coloque a sua energia no que você pode fazer

Por mais que discutir sobre política no Twitter ou com os seus familiares no almoço de domingo pareça produtivo, fato é que só aumenta os seus níveis de estresse e ansiedade em relação aos resultados e às mudanças que podem ou não ocorrer. Por isso, assim como disse Ronaldo, a melhor coisa a se fazer é colocar a sua energia no que você pode controlar e mudar.

É inviável e infrutífero acreditar que conseguimos mudar as pessoas (ou o que elas pensam). Por isso, concentre-se nas suas ações e pensamentos: vote com consciência, estude os candidatos e use o seu poder como cidadão para cobrar os políticos eleitos sobre as promessas que fizeram em campanhas eleitorais. Principalmente, aprenda sobre como funciona o sistema de eleição, a importância de cada um dos principais atores políticos do Brasil (como vereadores, senadores, deputados, etc.) e, se possível, busque compartilhar esse conhecimento com as pessoas.

“A política nunca termina com as eleições", diz o psicanalista. "Ela é um ato contínuo. Por pior que seja o resultado de um pleito, a luta continua depois dele. É importante entender que na política há uma engenharia que se faz cotidianamente, e não só no período eleitoral. Os candidatos que passam a ter maior expressão são aqueles que tiveram maiores condições de jogar esse jogo. Quando pensamos que é um jogo que depende de movimentações, de inteligência e agenciamentos, fica mais fácil olhar de um outro lugar e perceber que muitas vezes nosso poder de ação é realmente muito pequeno no todo."

2.Coloque um limite no seu tempo de tela

Por mais difícil que seja - e por mais batido que pareça falar em detox digital a essa altura do campeonato -, saiba que acompanhar as apurações minuto a minuto, todos os comentários sobre as eleições nas redes sociais e o desenrolar da situação como um todo via internet não é algo positivo.

Se deixar o celular e as redes de lado completamente parece inviável para você, estabeleça um limite, como checar as notícias apenas depois das 20h ou ficar longe delas entre uma e duas horas antes de deitar. Aliás, vale lembrar aqui que é essencial buscar informações sobre os resultados de veículos de mídia confiáveis e evitar tirar conclusões ou repassar notícias sem checar as fontes ou ler o conteúdo completo - a desinformação é uma das principais discussões em torno de eleições e, acredita-se, causa de muitos dos resultados eleitorais que vimos ao redor do mundo.

3.Cuide de você

Sim, pode também parecer batido falar sobre autocuidado quando lidamos com eleições, mas é importante lembrar que, se você manter o foco no primeiro ponto - colocar a sua energia no que você pode fazer -, este passo vai parecer uma continuidade natural. Faça um exercício físico para desestressar, assista a um filme que você gosta, cozinhe algo gostoso… Enfim, aproveite o tempo que tem disponível para relaxar e cuidar de você e da sua saúde mental. Por mais que os resultados das eleições sejam algo com o qual vamos ter que lidar a longo prazo, você não precisa embarcar em uma espiral de estresse, preocupação e ansiedade desde o dia em que as eleições acontecem - e nem depois que elas terminam.

4.Busque separar você dos candidatos

É um fato que as eleições parecem, a cada ano, se tornarem mais pessoais e conectadas com a identidade social de cada um. Mas isso tem consequências sérias, como o aumento da polarização e a quebra de relações importantes. O polêmico documentário O Dilema das Redes, mostrou bastante como isso aconteceu a partir das redes sociais. Por isso, é importante aprender a separar opiniões políticas e os próprios políticos do que você é, o que define você de verdade, o que você acredita e o que é possível ser feito a cada momento.

Encontrar pessoas que pensam diferente de você ou que apoiam políticos diferentes não significa que você está sendo pessoalmente rejeitado ou atacado. O diálogo é sempre o melhor caminho para resolver qualquer tipo de desacordo, mas é fato que comprar brigas desnecessárias ou levar para o pessoal uma crítica a um político não faz bem a ninguém.

“Vivemos um momento em que a polarização política é uma das maiores dos registros de nossa democracia", continua Ronaldo. “Muitos pensadores e pesquisadores atribuem esse fenômeno às redes sociais, que possibilitam que uma pessoa enxergue um mundo completamente diferente do que outra enxerga no seu feed somente por terem interesses diferentes. Essa polarização abre margem para radicalismos, o que dificulta ainda mais o debate pela via da argumentação lógica e racional, passando muito pelos afetos. Contudo, sempre que estiver num debate é importante que se identifique a diferença de argumentos apoiados na experiência, em números e fatos dos argumentos meramente opinativos, que não se sustentam ao serem questionados mediante o exercício de pensamento ou a contestação com fatos.”