Quando compartilhar foto da colega se torna algo “zuado”: como os jovens enxergam a masculinidade e falam de gênero hoje em dia

Ana Ignacio
·Especial para o HuffPost Brasil
·5 minuto de leitura
Arte: Tiago Limón
Para fundadora de projeto social que aborda essas questões em colégios públicos de São Paulo, novas gerações são grande oportunidade de mudança: “estão interessados em ouvir”. Arte: Tiago Limón

Após receber uma foto de uma menina da escola em que aparecia sua calcinha - uma imagem “conquistada” por um colega - ele reagiu. "Não compartilhei a foto da menina e falei no grupo que isso era zuado”. Foi assim que explicou durante uma roda de conversa organizada pelo Plano de Menino, projeto social de combate à masculinidade tóxica que ocorre em escolas públicas de São Paulo. Viviane Duarte, fundadora da ação - que começou com o Plano de Menina e abriu também os trabalhos direcionados aos meninos - narra a cena feita por um adolescente participante em um exercício em que os jovens deveriam contar um comportamento que tiveram no dia que desconstruiu a masculinidade tóxica deles.

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“Parece que é pouca coisa, mas acredito nas microrrevoluções porque temos que começar de algum lugar e essa geração é de meninos que estão interessados em ouvir e mudar, querem entender, não querem fechar os olhos para isso. Eles veem que todos são reféns de padrões e estereótipos e querem se sentir melhor”. Desde que começou, em 2018, a estruturar e conversar com os garotos das escolas em que já atuavam com as meninas, cerca de 250 jovens passaram pelo projeto, que busca também fazer uma conexão dos participantes a cursos de capacitação emocional e profissional.

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Os resultados têm sido positivos. Kaue de Oliveira, 15 anos, mora na zona norte de São Paulo com os pais e tem sentido falta das rodas de conversa e workshops. Neste ano, os planos de expansão do projeto tiveram que ser interrompidos por causa da pandemia de Covid-19.

No dia em que Kaue conversou com a reportagem, tinha acabado de lavar a louça e arrumar a casa. “Sempre fiz, para mim isso é normal”. Mas ele sabe que nem tudo sempre pareceu tão normal assim. O jovem conta que hoje consegue identificar comportamentos que ele tinha que não considera mais bacanas ou aceitáveis. “Lembro de uma vez, faz tempo, passou uma mulher dirigindo e ela deixou o carro morrer e eu falei que ‘tinha que ser mulher’. Eu via como uma brincadeira e hoje acho que não é, acho que é um comentário machista”.

Para essa mudança de pensamento, discutir esse tipo de tema fez toda a diferença. Segundo ele, não são assuntos tratados na escola e nem em casa. “Esses temas são importantes, porém não abordados. Em casa eu não gosto muito de conversar com os meus pais sobre alguns assuntos e por isso é importante ter esses projetos para falar. Hoje eu consigo entender isso melhor, o que é violência, abuso. O homem tem que falar sobre isso. O machismo vem do homem e eu vejo de uma forma e meu pai de outra. Não consigo me imaginar comentando com o meu pai sobre machismo”.

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Vivi relata que essa é uma das questões trazidas pelos meninos: a dificuldade de diálogo com os pais. “Eles acharam bom poder falar sobre isso, entenderam problemas de relação com os pais, reconhecem sentimentos. Tivemos casos de meninos gays que são constantemente pressionados a levar namoradas em casa, meninos que são forçados a mexer com meninas na rua e não querem. Eu não tinha tanto a dimensão e empatia e vi meninos chorando porque os pais não os deixam abraçar, e começamos a ver que é por isso que os homens não conseguem expor os sentimentos, a violência é demonstração de masculinidade... porque passa de geração em geração”.

Diálogos

Mas essa nova geração é diferente. Por mais que ainda carreguem muitos preconceitos, ideias e comportamentos que vem de muito tempo e não são modificados de uma hora para outra, os jovens demonstram querer falar sobre determinados assuntos, mesmo que a escola não apresente isso - e, como visto, muitas vezes a família também não. Daniel Crevelanti de Melo, hoje com 18 anos, começou a participar de algumas dessas conversas quando adolescente, ainda no Plano de Menina. Aberto a dialogar, estava presente em algumas atividades abertas para todos e depois ingressou no Plano de Menino desde seu início.

“O que mais me chamou atenção foram as rodas de conversa que tínhamos e como isso influenciava meu pessoal, o que eu queira ser, como eu ia evoluir e os assuntos como masculinidade tóxica, questões LGBT, homens que batem em mulheres, machismo... assuntos que nossos pais e avós não tratavam na época”, explica.

Para ele, é nítida a importância de tornar tais temas corriqueiros, desde cedo. “Temos que falar sobre isso porque antigamente eram assuntos que as pessoas não falavam, tinham vergonha e não tem motivo, são coisas que acontecem e que tem que acabar como o machismo e a homofobia, então temos que passar para outras pessoas para que todos vejam que precisa parar”.

Com o tempo, esse tipo de diálogo trouxe mudanças para a vida desses jovens. Kaue explica como essas discussões fizeram com que ele se visse de outra maneira. “Comecei a acreditar mais em mim, que eu posso chegar longe. Mexeu com minha autoestima e acho que hoje um homem melhor tem que ter respeito”.

Vivi diz que as mudanças também refletiram nas relações gerais dos garotos.“Tinha uma resistência para para vir para o diálogo, mas foram chegando e começaram a querer ver ‘o que estava pegando’ e tivemos relatos das escolas de mudança dos meninos em relação às meninas na sala de aula, na hora do intervalo, diminuiu o número de reclamações das meninas e começou a ocorrer uma integração melhor porque não dá para falar só com as meninas não, tem que chamar os meninos para essa conversa também”.

Para Daniel, ajudou a ver melhor as coisas e deixar claro os próximos passos. “Ser homem hoje em dia é difícil, não como ser mulher, mas é difícil você carregar um gênero que é machista, que é antiquado e tem as cobranças de ser sempre forte, não poder chorar, ter que casar com mulher, essas cobranças. Mas isso a gente vai evoluindo aos poucos e esses comportamentos devem ser revistos hoje em dia”.

Uma microrrevolução. Não importa o tamanho, é grande coisa.

**Concepção e Coordenação de Amauri Terto e Diego Iraheta

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