Como falar com seus filhos sobre coisas que dão medo

Como falar com seus filhos sobre coisas que dão medo

Não importa se você é o pai, a mãe, uma babá, um tio ou uma tia muito carinhosa ou se você é o melhor amigo ou amiga dos pais, o desejo de proteger os nossos jovens muitas vezes é instintivo. Infelizmente, embora o mundo seja um lugar maravilhoso, imersivo e curioso, muitas vezes apresenta seu lado mais sombrio – tragédias e violências inexplicáveis, que podem deixar as crianças com questionamentos difíceis de responder.

Como podemos ajudar as crianças a manter sua doce inocência enquanto também as incentivamos a crescer e a aprender táticas para superar o medo e lidar com as duras realidades?

“As crianças são grandes pensadores, e sua imaginação não se limita a temas divertidos e despreocupados”, explica a psicóloga clínica e escritora Stephanie O’Leary. “Quando se conversa sobre coisas assustadoras de forma honesta e apropriada à idade da criança, você oferece uma vazão para os sentimentos dela e um modelo sadio de enfrentamento, além de se posicionar como uma fonte de apoio, mesmo quando os tópicos são desconfortáveis ou dão medo.”

Veja a seguir algumas ferramentas e estratégias para conduzir discussões sobre violência, racismo e outros temas difíceis de forma adequada à idade de uma criança – adaptando a conversa para educar e confortar seus filhos.

Racismo, bullying e discriminação

Dependendo de onde você mora, seus filhos podem estar cercados por pessoas de diversas culturas, desde o momento em que nasceram. Ou pode ser justamente o contrário. Para as crianças que vivem em comunidades homogêneas, conhecer pessoas de outras origens pode ser uma descoberta surpreendente. Seus filhos talvez não saibam como agir perto de pessoas que são diferentes deles – ou como irão responder quando virem ou escutarem falar de alguém que sofreu abuso ou maus-tratos por causa de sua raça, religião, cultura, identidade sexual ou de gênero, deficiência, etc.

Para crianças menores de 5 anos:

Segundo O’Leary, o segredo é nunca evitar falar sobre raça, religião ou outros identificadores, pois você pode acabar gerando uma atitude de julgamento nas crianças, fazendo com que determinado tema pareça um tabu. Em nossa triste realidade atual, seus filhos provavelmente presenciarão um ato de discriminação em algum momento da vida – e podem ser confundidos pelo ódio por trás desse ato. É por isso que O’Leary nos diz para permitir que as crianças façam perguntas, à medida que forem surgindo. Explique que o fato assustador que ocorreu está terminantemente errado – mas isso não significa que seja errado falar sobre ele. Desta forma, você pode transformar a infeliz experiência numa oportunidade de aprendizagem. Se seus filhos fizerem perguntas sobre alguém que foi maltratado, “é melhor responder honestamente e manter os canais de comunicação abertos”, diz O’Leary.

Para crianças de 5 a 10 anos:

À medida que as crianças fazem amizades, conhecem novas pessoas e expandem seu ciclo de conhecimento, elas talvez façam perguntas mais francas e mais diretas. Nesta idade, você pode intervir e ajudá-las a desenvolver uma atitude sadia, que seja positiva, porém assertiva. “Falar sobre eventos recentes e experiências diárias que ocorrem dentro da sua comunidade é uma excelente forma de começar, porque a discriminação não é coisa do passado”, diz O’Leary.

Ela também acrescenta que é importante preparar seus filhos para experiências que, infelizmente, serão inevitáveis. Em algum momento da vida, eles provavelmente verão ou sofrerão atitudes de ódio ou discriminação e não saberão como reagir. Quanto a isso, O’Leary aconselha levar para o lado pessoal. “Compartilhe experiências pessoais que sirvam de exemplo sobre como você se sentiu, como você reagiu e o que você queria ter feito de forma diferente. Escolher exemplos da sua própria infância terá um maior impacto nos seus filhos. É importante se concentrar nas medidas práticas que seus filhos podem tomar, como expressar uma opinião ou procurar ajuda quando virem bullying“, sugere ela.

Armas de fogo

As estatísticas sobre violência relacionada a armas nos Estados Unidos são desconcertantes. O país vive a triste realidade de 29,7 homicídios por arma de fogo a cada 1 milhão de pessoas (índice quase 16 vezes maior que o da Alemanha). Os Estados Unidos detêm 4,4% da população mundial, mas quase 50% das armas pertencentes a civis, do mundo. De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças, há mais de 31.000 mortes por ano envolvendo armas nos Estados Unidos. Isso faz com que o tema seja muito debatido – e seus filhos acabarão fazendo perguntas. Em algum momento, seus filhos se depararão com a violência armada, seja com as “armas” nos videogames ou os tiroteios em massa que aparecem quase diariamente nos noticiários. “Mesmo que você se esforce para monitorar tudo aquilo ao que seus filhos se expõem, as armas estão presentes na televisão, incorporadas a vários brinquedos e carregadas por várias figuras de autoridade, incluindo policiais”, explica O’Leary. Nunca é cedo demais para começar a falar sobre isso.

Para crianças menores de 5 anos:

O’Leary diz que a lição mais importante para se ensinar a uma criança pequena é que, em nenhuma circunstância, as armas são brinquedos; é importante ressaltar que elas podem causar um enorme dano. “Responda todas as perguntas que possam surgir, de forma simples e honesta, fornecendo informações factuais, sem criar uma ansiedade indevida”, diz ela.

Para crianças de 5 a 10 anos:

Já com as crianças maiores, O’Leary diz que você pode ser mais específico em relação à segurança das armas, além de oferecer soluções para se auto protegerem e lidarem com várias situações. “Repasse o que você espera que elas façam, caso se deparem com uma situação onde existe uma arma”, sugere O’Leary. “Embora todos os pais temam isso, o fato é que as armas, frequentemente, estão presentes em nossos lares. A violência armada pode ocorrer mesmo durante brincadeiras inocentes”, acrescenta ela. “Instrua seus filhos com foco na segurança e responda às perguntas que surgirem”.

Outros atos de violência

As tensões estão elevadas nos dias de hoje, e parece que toda semana ocorre um ataque ou uma tragédia diferente. Quando seus filhos veem uma tragédia no noticiário ou quando um evento trágico é discutido na escola, eles podem questionar: “Por que alguém faria isso?” ou “Será que seremos os próximos?” Infelizmente, essas perguntas nem sempre têm respostas concretas; mas você pode fornecer um contexto valioso.

Para crianças menores de 5 anos:

Embora O’Leary não aconselhe abordar um tema como o terrorismo com uma criança menor de 5 anos, a menos que ela pergunte especificamente sobre o assunto, a melhor solução é ser direto e simples – sem fornecer detalhes chocantes. No entanto, existe uma advertência importante: evite rótulos e dicotomias como “bons” versus “maus”. “Isso perpetua a ideia de um conflito contínuo”, explica O’Leary, “e provavelmente é menos estressante para os seus filhos ouvir você dizer que ‘há pessoas que querem machucar quem é diferente, mas fazemos tudo o que podemos para tentar impedir isso'”.

Para crianças de 5 a 10 anos:

À medida que as crianças crescem, elas podem se sentir mais confortáveis em falar o que ouvem na escola e em toda a comunidade. Isso as faz enxergar a violência de forma mais analítica, pois podem ter experiências como passar por um detector de metais ou pela segurança de um aeroporto. “Nessa idade, você pode fornecer um pouco mais de fatos históricos sobre as circunstâncias culturais e políticas que contribuíram para atos terroristas, bem como as proteções específicas que a sua família adota como segurança”, sugere O’Leary.

O mundo em que vivemos pode ser um lugar assustador, e as pessoas nem sempre ajudam. Mas quando se trata da criação dos filhos, é sempre mais útil ter conversas, mesmo que tristes e difíceis, do que não falar sobre nada. Dessa forma, você pode preparar seus filhos da melhor maneira que puder para enfrentar o nosso mundo assustador – e mudá-lo para melhor.

Lindsay Tigar

SheKnows