Como ensinar a autossuficiência aos filhos que ainda não saíram de casa?

Com nossos filhos morando em casa por mais tempo, como ensinar-lhes a autossuficiência? www.alamy.com

O ninho vazio costumava ser o pesadelo dos pai. Agora, para muitos de nós, parece um sonho impossível. O fim da geladeira vazia, da lavadora cheia, dos banheiros compartilhados e do serviço de motorista? Sem chance – não com um em cada quatro jovens adultos ainda morando na casa dos pais.

De acordo com o Escritório de Estatísticas Nacionais do Reino Unido, em 2016 cerca de 3,3 milhões de adultos com idades entre 20 e 34 anos ainda estavam vivendo com seus pais, um salto de 618 mil desde 1996. Um quinto dos jovens de 25 a 29 anos permanecem em casa, e metade dos de 20 a 24 e um em cada 10 com idades entre 30 e 34 anos também estão no mesmo barco. Os homens mais jovens são particularmente afetados, com um em cada três de 20 a 34 anos morando em casa, em comparação com uma em cada cinco mulheres.

A mudança foi parcialmente influenciada pelo crescimento vertiginoso dos preços praticados no mercado imobiliário, aumento da inflação e estagflação dos salários. O custo do ensino superior também é relevante: em 2014, 24% dos universitários do Reino Unido optaram por continuar morando na casa dos pais enquanto estudavam, em comparação com 12% em 1996.

Enquanto eles economizam, nós, pais, continuamos gastando. Um informe divulgado no ano passado pelo banco Aldermore descobriu que um em cada cinco poupadores não saiu de casa, e cada um custa cerca de 5 mil libras esterlinas (R$ 22 mil) aos pais por ano. Um terço dos pais que têm filhos adultos em casa estão adiando a poupança de aposentadoria para sustentá-los. Não é nenhuma surpresa entender que, um, em cada três entrevistados, afirmou que as tensões decorrentes desta situação estão prejudicando os relacionamentos familiares.

Um terço dos homens com idades entre 20 e 34 anos ainda moram com seus pais. Crédito: Eric Audras/Getty Images 

Será que você deve continuar a sustentar seu filho adulto ao mesmo tempo em que incentiva a sua saída do ninho? É recomendável definir um prazo máximo para a sua permanência?

A administradora Jane Peters e seu marido Steve, designer de West Sussex, ambos de 47 anos, têm dois filhos: Harry, de 19, e Olivia, de 13 anos. Eles acreditam que ensinar a autossuficiência é fundamental.

“Harry acabou de entrar na faculdade para estudar geografia,” conta Jane, “e nós estamos felizes em pagar seu aluguel por quatro anos e sustentá-lo durante este primeiro ano enquanto ele se adapta. Mas depois do Natal, esperamos que ele consiga um emprego de meio período para arcar com suas despesas de alimentação”.

Esta atitude não é surpreendente. “Quando eu era mais nova, meus pais me disseram que se eu estivesse morando em casa, tinha que pagar pelo serviço de limpeza. Eu não fui para a universidade, então quando comecei a trabalhar como assistente pessoal, tinha que contribuir com 100 libras por mês, o que era muito em 1988. Eu não estava economizando para o futuro – eu trabalhava para arcar com os custos do meu amor por viagens e costumava sair do país por períodos de seis meses”.

“Depois do Natal, esperamos que Harry consiga um emprego de meio período para arcar com suas despesas de alimentação”

Foi então que, em um dado momento, o carro de Jane precisou de um conserto urgente. Quando ela disse ao pai que isso significava que ela não poderia pagar o aluguel, sua resposta a surpreendeu. “Ele me disse que eu teria que pagar o aluguel mesmo assim. Eu fiquei muito brava. Não conseguia acreditar que ele estava sendo tão mau. E tive que conseguir um segundo emprego como garçonete na Pizza Hut à noite e em alguns finais de semana para ganhar o dinheiro para consertar o carro”.

Outra lição veio de sua mãe: “Uma vez ela foi me buscar num trabalho temporário e eu reclamei que estava muito cansada e não conseguiria trabalhar na semana seguinte. Ela disse. ‘Onde você vai morar, se não tem dinheiro para pagar aluguel?’”

Para os pais, é difícil encontrar o equilíbrio, diz Simon Bashorun, líder de planejamento financeiro na Investec Wealth & Investment. “A responsabilidade recai sobre os pais. Muitos ficam divididos entre o desejo de ser amáveis e a necessidade de ensinar os filhos a serem mais autossuficientes”.

Ele alerta que ser generoso também tem seus riscos. “Se você der um valor fixo de mesada, não apenas estará reduzindo a motivação de seus filhos, mas também perderá o controle sobre aquele montante. Você pode torcer para que eles sejam sensatos, mas é só isso”. Isso também vale para qualquer investimento feito pelos pais no nome da criança, como um Junior Isa ou Baby Bonds da Gordon Brown. “Quando eles completam 18 anos, o dinheiro se torna deles,” lembra ele. “Se você investiu o máximo de 4 mil libras por ano, com juros de cerca de 5%, o valor total, aos 18, será de aproximadamente 105 mil libras”.

Converse com seus filhos sobre abrir uma poupança e incentive-os a adotar bons hábitos financeiros desde cedo. Crédito: Getty Images

Bashorun acredita que educar os filhos ao longo de toda a vida – e não quando eles decidem ficar em casa aos 21 – é fundamental. “Há uma responsabilidade de ensinar às crianças o valor das coisas desde cedo”. Ele acrescenta: “Esta é uma situação desafiadora para os pais, que podem estar preocupados com sua própria aposentadoria, lidando com possíveis gastos relacionados à saúde dos pais deles, e apreensivos em relação ao futuro de seus filhos”.

Rose St Louis, especialista em poupança da Zurich UK, concorda que ensinar as crianças sobre o valor do dinheiro, desde pequenas, é, provavelmente, a coisa mais importante que os pais podem fazer. Ela diz: “Nunca é cedo demais para começar a economizar, e incentivar seus filhos desde pequenos irá colocá-los no caminho certo. É importante que as crianças entendam que não é porque você tem dinheiro que ele precisa ser gasto todo de uma vez. Pense na possibilidade de abrir uma poupança para que eles possam ver suas economias crescendo”. Ela também defende que devemos ensinar as crianças a definir orçamentos e limites de gastos. “Ajudá-los a guardar um certo montante todos os meses não apenas lhes ensinará uma lição sobre controlar os gastos, mas também mostrará o valor dos itens que eles estão comprando”.

Além disso, assegure-se de que eles entendam a linguagem financeira. St Louis diz: “Pode ser difícil navegar pelos jargões financeiros e entender o que é melhor para gerenciar seu próprio dinheiro – isso é especialmente complicado quando seus filhos estão entrando no mercado de trabalho. No entanto, não compreender o significado de palavras como taxa de juros do rotativo do cartão de crédito ou cheque especial, pode impactar significativamente suas finanças futuras. Há diversos recursos que podem ajudar – de panfletos em seu banco local a instituições como a Young Money, que lidera o My Money Week”.

Quando Jane Peters saiu de casa para alugar um apartamento com uma amiga em Southampton, após quatro anos, seus pais não a enviaram para o mundo apenas com um conhecimento financeiro sólido e uma nova chaleira. “Meu pai me deu um envelope contendo um cheque de 3,5 mil libras – todo o aluguel que eu havia pago a ele enquanto morei em casa. Ele havia investido o valor para mim. Foi incrível. Isso realmente me ensinou o valor de trabalhar duro pelo que eu quero”.

Ela acrescenta: “Eu quero muito transmitir estes valores aos meus filhos, então quando chegar a hora, se Harry continuar morando em casa, vou manter a tradição familiar de cobrar o aluguel dele e secretamente economizar este dinheiro para o futuro dele próprio”.

Victoria Lambert

The Telegraph