Como dizer ao seu filho que ele está gordo?

Um estudo realizado no Reino Unido mostrou que 35% dos britânicos de 11 anos estão acima do peso.

Quando sua filha de 8 anos começou a estudar em uma nova escola, em uma nova cidade, Kim ficou com o coração partido – mas não se surpreendeu – quando a menina chegou em casa após o primeiro dia de aula e disse que alguns meninos mais velhos a chamaram de gorda.

“Nós morávamos numa cidade muito pequena e ela frequentava a escola local, onde conhecia todos os seus colegas de classe desde quando era bebê,” diz Kim. “Ela sempre foi mais cheinha do que as outras crianças – eu também estou um pouco acima do peso – mas elas realmente não notavam ou não se importavam com isso”.

“Quando nos mudamos, por causa do trabalho do meu marido, e ela começou a estudar nessa nova escola, aquilo foi um sinal de alarme para nós. Ela era claramente mais gorda do que as outras crianças e, pela primeira vez na vida, elas notaram – e a ridicularizaram por isso. Eu queria ajudá-la a perder peso, mas não queria prejudicar a sua autoestima”.

Esta é uma preocupação comum. Eu tenho duas filhas – de quatro e sete anos – e conversei com elas sobre tudo, desde perigos ao se relacionar com estranhos até a morte (a morte do gato do nosso vizinho despertou muitas perguntas), mas evito falar sobre seu peso com medo de fazer com que elas se sintam mal com seus corpos ou, pior ainda, desenvolvam um transtorno alimentar.

Será que este medo está fazendo com que nossos filhos sejam mais gordos? É possível. Um estudo realizado no Reino Unido pelo Centro de Estudos Longitudinais (CLS, na sigla em inglês) do Instituto de Educação UCL descobriu que das quase 12 mil crianças britânicas analisadas, 25% apresentavam sobrepeso ou obesidade aos 7 anos, e 35% aos 11 anos.

Além disso, um estudo conduzido pelo Imperial College London e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou no mês passado que 4,54 milhões de crianças britânicas estão acima do peso ou obesas atualmente, um salto significativo em relação às 2,66 milhões em 1975.

A obesidade é uma crise de saúde global atualmente, e nós estamos cercados por alimentos pouco saudáveis ricos em gorduras, açúcar e calorias.

Os pesquisadores, que descobriram que quatro em cada dez crianças com idades entre cinco e 19 anos estão acima do peso, fizeram um alerta sobre a “crise absoluta” na saúde infantil, incluindo um maior risco de doenças cardíacas, câncer e diabetes no futuro.

“Esta tendência prevê a existência de uma geração de crianças e adolescentes que crescerão obesas,” diz Majid Ezzati, professor do Imperial College que liderou o estudo e pediu ações do governo em forma de regulamentações e impostos, para proteger as crianças do junk food.

A Dra. Fiona Bull, da Organização Mundial da Saúde, culpa os políticos por não terem agido, após anos de alertas, e disse: “A obesidade é uma crise de saúde global nos dias atuais, e irá piorar nos próximos anos se nós não fizermos nada a respeito. Estamos cercados por ambientes que promovem alimentos pouco saudáveis, ricos em gorduras, açúcar e calorias. É isso que está na televisão, é isso que é divulgado nos pontos de ônibus”.

Hora de fazer exercícios.

Alguns estão ouvindo esta importante mensagem, e nesta semana a Pizza Hut e o TGI Fridays anunciaram planos de parar de oferecer o refil de refrigerantes até março do ano que vem, numa iniciativa para reduzir a ingestão de açúcar das crianças.

Além de tudo isso, a necessidade de agir também cabe aos pais, não? De acordo com Matt Roberts, personal trainer e pai de dois filhos que trabalhou com David e Samantha Cameron, não há dúvida disso. “As coisas chegaram longe demais e os pais de hoje têm medo de conversar com seus filhos sobre seu peso. Mas você pode fazer isso de forma delicada, apropriada, e em vez de isolar a criança, pode enfrentar o problema em família”.

Matt diz que isso significa dar o exemplo e ser honesto em relação aos seus próprios hábitos alimentares e de exercícios. “Faça uma desintoxicação da sua cozinha e livre-se de biscoitos e refrigerantes para não tentar as crianças. Não proíba completamente as guloseimas, mas limite-as a momentos especiais, fora de casa, onde costumamos ter menos controle”.

Conselhos para lidar com transtornos alimentares em crianças

“Em segundo lugar, saia do sofá. Inscrevam-se, ambos, em algo como uma corrida infantil no parque (parkrun.org.uk). Vão andar de bicicleta, passear com o cachorro, e socializar, convidando alguns amigos da criança. Incentive a prática de esportes e experimente diferentes opções, até que elas encontrem algo que realmente amem”.

Matt diz que o fato de que os índices de obesidade infantil eram menores em 1975 não é uma coincidência. “Não havia aparelhos eletrônicos ou redes sociais para manter as crianças inativas dentro de casa. Se seu filho tem menos de 11 anos, estabeleça períodos máximos para exposição a telas. Mas se você tem um filho de 14 anos, boa sorte! Eu também tenho filhos e sei o quanto é difícil. Tudo que nós podemos fazer, como pais, é continuar tentando conversar com eles, incentivar a atividade física e limitar os alimentos pouco saudáveis em casa”.

Matt também aconselha que os pais conversem com seus filhos mantendo o foco na saúde, e não no peso. “Não diga que eles precisam perder uma quantidade específica de peso – não use números. Em vez disso, fale sobre como reduzir a ingestão de açúcar e fazer algo ao ar livre fará com que eles se sintam mais energizados e saudáveis, como vai ajudar a melhorar o seu desempenho esportivo, e assim por diante”.

O mapa da obesidade na Inglaterra.

Esta abordagem ajudou Sally quando seu filho Jack, que hoje tem 18 anos, ganhou peso no início da adolescência. “Diferentemente do seu irmão mais novo, que é ridiculamente magro, Jack sempre teve um porte maior – além disso, ele é guloso,” ela diz. “Quando ele tinha 13 anos seu peso estava muito concentrado em algumas regiões do corpo e ele parecia muito gordinho, mas ele é sensível e se afeta muito com essas coisas”.

“Eu sabia que ele estava constrangido por ter que usar roupas dois tamanhos maiores do que os apropriados para a sua idade. Eu conseguia me colocar no lugar dele porque fui uma criança gordinha e me lembro de como me sentia mal quando minha mãe tentava controlar quantos biscoitos eu comia. Se eu tivesse falado ‘Pare de comer como um porco’ quando ele comia vários biscoitos de uma só vez, como meu marido queria fazer, isso não teria ajudado”.

“Um dia, estávamos assistindo a um daqueles programas de transformação na televisão e vimos um adolescente acima do peso que havia perdido 20 quilos. Eu comecei a chorar e Jack disse: ‘Você está com medo de que eu fique assim, não está?’ Aquela foi a minha abertura e eu aproveitei o momento para conversar sobre os perigos que o excesso de peso poderia causar para a saúde dele”.

“Na mesma hora ele reduziu o consumo de junk food e entrou para o time local de futebol. Ele também começou a crescer e o formato do seu corpo mudou. Agora ele tem 1,82 metro de altura e ombros largos”.

“Eu acredito que a nossa ansiedade no momento de conversar com nossos filhos sobre o peso, está enraizada em nossas próprias infâncias,” diz a psicóloga clínica Dra Rachel Andrew, autora do livro ‘The Supermum Myth’ (O Mito da Supermãe, em tradução livre). “Raramente encontrei uma criança acima do peso numa família em que todos têm um peso normal. Muitas vezes um ou os dois pais também têm sobrepeso ou tiveram problemas com isso no passado”.

Conselhos para lidar com transtornos alimentares em crianças

“Estes pais têm medo de machucar seus filhos emocionalmente ou de desencadear um transtorno alimentar, mas eu acredito que eles serão naturalmente mais sensíveis aos sentimentos das crianças, então não precisariam se preocupar”.

A Dra. Andrew diz que os pais também devem se lembrar de que algumas crianças podem ser mais suscetíveis ao ganho de peso do que outras, e, portanto precisam de uma ajuda extra (embora discreta): “Muitos fatores estão relacionados ao peso de uma criança, além da dieta e dos exercícios, como diferentes tipos de corpo, metabolismos e temperamentos. Algumas crianças respondem bem ao estabelecimento de limites. Algumas crianças adoram jogar futebol, enquanto outras preferem atividades sedentárias, como a arte”.

Por último, também é preciso mencionar a ligação indissociável entre a comida e o amor. “Como pais, sentimos que nossa responsabilidade primária é nutrir nossos filhos. Mas lembre-se de que é preciso falar de forma delicada e gentil sobre um assunto relacionado ao peso, caso contrário pode fazer mais mal do que bem”.

Maria Lally

The Telegraph 7