Como Bono refez e mudou hits do U2 em especial com The Edge no streaming

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP - Show da banda U2 no estádio do Morumbi, em São Paulo. (Foto: Marcelo Justo/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP - Show da banda U2 no estádio do Morumbi, em São Paulo. (Foto: Marcelo Justo/Folhapress)

LOS ANGELES, EUA (FOLHAPRESS) - Três horas da manhã, na biblioteca Marsh, a mais antiga de Dublin, o apresentador David Letterman questiona The Edge, guitarrista do U2, sobre seu processo criativo. Ao lado de Bono, seu colega mais famoso de banda, ele revela como se levanta no meio da madrugada quando tem uma ideia para uma música e registra tudo no celular, onde guarda seis mil gravações.

Para provar, o guitarrista tira o aparelho do bolso e toca um trecho captado na noite anterior. Não satisfeito, Bono começa a cantar por cima a letra do que viraria "The Forty Foot Man", uma faixa instantânea em homenagem a Letterman que adorna os últimos minutos de "Bono & The Edge: A Sort of Homecoming com Dave Letterman".

O programa estreia na Disney+ na sexta-feira (17), mesmo dia do lançamento do álbum "Songs of Surrender", no qual o grupo irlandês reimagina 40 das suas músicas num formato mais intimista. A obra teve lançamento no teatro Orpheum, no centro de Los Angeles, com a presença de Bono, The Edge e do diretor Morgan Neville, além de Letterman.

A química entre Letterman e os dois músicos do U2 é o principal acerto de "A Sort of Homecoming". Enquanto o entrevistador conhece Dublin, cidade natal da banda, ele traz mais despojamento e humor a dois artistas mais conhecidos por sua seriedade e comprometimento quando o assunto é a música. "Dave trouxe comédia à tragédia", diz Bono. "Nossa música ficou melhor com ele por perto, só por ficar no mesmo recinto, meio que tirando um sarro de tudo."

O especial, com cerca de uma hora e meia de duração, tenta tratar de assuntos espinhosos do U2, como o ativismo de Bono. O vocalista admite algumas rusgas com os colegas ao se aproximar de políticos que não compactuam com seu modo de pensar, mesmo que seja para conseguir apoio para causas humanitárias.

No entanto, o filme circula mais na ideia de amizade e amadurecimento de Bono, The Edge e do próprio Letterman. A espinha dorsal é um show para poucos convidados no The Ambassador Theatre, local onde funcionava uma ala de um complexo hospitalar onde Bono nasceu.

Sem o baixista Adam Clayton, envolvido em um projeto de arte, e o baterista Larry Mullen, que está com um problema nas costas, o vocalista e o guitarrista recrutaram estudantes locais de música e amigos, como o compositor Glen Hansard, para completar o time da apresentação com sucessos do U2.

Entre uma versão quase folk de "Invisible" e uma atualização de "Sunday Bloody Sunday", há momentos emocionantes. No principal, Bono quase vai às lagrimas ao destacar a importância do guitarrista na banda.

"A única coisa que não gosto em The Edge é que ele não precisa de mim. Ele poderia compor, cantar, se apresentar, tocar e produzir sozinho, mas não o faz", diz com a voz embargada e limpando as lágrimas. "Confiaria minha vida a The Edge. Na verdade, fiz isso."

Os instantes mais sinceros são contrabalanceados por Neville com a presença de Letterman. Com seu humor mais cru e desarmado, ele percorre Dublin para encontrar diferentes ligações com o U2, seja no vendedor da única loja de discos de reggae da cidade, seja no sujeito que organiza excursões a pé por locais relacionados ao grupo.

O melhor vem na entrevista com a drag queen e ativista Panti Bliss, que já foi homenageada pelo U2 em um show e discute a importância da banda no movimento de igualdade de gêneros na Irlanda. Letterman fala sobre envelhecer e as dores no peito. Bliss dispara: "Dave, se você morrer aqui, vou explorar isso financeiramente".

O U2 já queria refazer algumas de suas músicas havia anos. Durante a pandemia, The Edge transformou o hiato na estrada em trabalho, coincidindo com a imersão de Bono em sua autobiografia, "Surrender", lançada ano passado já com alguns trechos das faixas que virariam "Songs of Surrender".

"Há uma razão egoísta em relação a este álbum", diz Bono. "Queríamos ouvir nossas músicas de novo como se fosse a primeira vez e questionar se elas poderiam sobreviver sem o poder de fogo de uma banda de rock como o U2."

Uma delas é "Sunday Bloody Sunday", que ganha destaque em "A Sort of Homecoming" quando Bono diz que a faixa o faz se lembrar de sua lua de mel na Jamaica, na casa de Bob Marley. "Parte das letras me envergonha, para falar a verdade. Mas tive a oportunidade de terminá-las neste projeto."

Não seria a primeira vez. Bono costuma mudar letras com a passagem do tempo, principalmente ao vivo. Fez isso com "One" ou "New Year's Day". "As músicas são nossas chefes. Elas dizem o que você tem que fazer, como deve se vestir e com quem trabalhar. Se você for esperto, vai obedecê-las."

BONO & THE EDGE: A SORT OF HOMECOMING COM DAVE LETTERMAN

Quando 17 de março

Onde No Disney+

Classificação 12 anos

Elenco David Letterman, Bono, The Edge

Direção Morgan Neville