Como as crianças que cresceram na pandemia foram afetadas pelo distanciamento social

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Child with protective face mask during COVID-19 pandemic
Crianças da pandemia. Foto: Getty Images

Em cerca de dois anos, a maneira como as crianças e adolescentes passam o tempo mudou muito. Se antes os videogames e redes sociais já eram populares, para muitos, essa forma de entretenimento virou a opção principal, já que brincar ao ar livre ou encontrar os amigos já não era mais considerado seguro.

Por muitos meses, os pequenos também ficaram longe da escola, ambiente propício para aprendizagem e desenvolvimento de várias habilidades, como as motoras, intelectuais e sociais especialmente para as crianças menores, que tem no ambiente da creche e da pré-escola os primeiros contatos de socialização com pares da mesma idade. “A fonte de maior estímulo não estava disponível, deixando uma lacuna para os mais novos”, comenta Jaqueline Bifano, psiquiatra da infância e adolescência pelo Hospital das Clínicas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Assim, as novas experiências e ambientes que foram impostos à família pela covid-19 – combinados com o estresse de um futuro incerto, muitas vezes transmitidos pelos pais – podem afetar a saúde mental e o desenvolvimento das crianças.

Cientistas já observaram um aumento dos sintomas de depressão nas crianças e uma piora dos sintomas em crianças e adolescentes que já tinham transtorno obsessivo-compulsivo.

“A casa deixou de ser parada transitória de construção e desenvolvimento da criança e virou uma espécie de cativeiro”, analisa Rosa Mariotto, psicanalista e doutora em psicologia escolar e do desenvolvimento humano pela USP, sobre a fase de maior distanciamento social durante a pandemia. “Nossos lares viraram micromundos. Privacidade, escola, família, lazer... Essas áreas perderam seus limites.”

Para Mayara Barbosa, 27, professora e mãe de Lucio, de um ano e onze meses, o jeito foi aproveitar ao máximo a natureza próxima do local onde vivem, no interior de São Paulo, passar muito tempo com as avós, para que o pequeno tivesse contato com outros além dos pais, e propor atividades lúdicas, como cantar.

Mas muitas crianças como Lucio, que hoje ainda não completaram dois anos, vivenciaram os primeiros meses sem contato com outros humanos que não fossem seus parentes mais próximos e em espaços muito pequenos. “Por isso, quando entrarem no mundo coletivo, público, das escolas e creches, podem ter dificuldade por estabeleceram laços com outras pessoas”, explica a especialista.

Esse conflito – a relutância em criar conexões com outros adultos cuidadores ou com outros jovens – pode surgir justamente pelo apego com os pais “Pelo tempo passado, eles mantiveram-se muito amalgamados com seus pais, geralmente ainda mais com as mães, que têm o papel de acolhedoras na nossa sociedade”, diz Mariotto, apontando que, para as mães, essa dificuldade de deixar os filhos vivenciarem a nova rotina também pode ocorrer.

Já as crianças maiores, privadas do fluxo natural de suas rotinas, sofreram não só com o impacto da privação, mas foram impactadas pelo sofrimento dos seus pais. “Elas operam uma espécie de interrupção do seu percurso. A fase foi interrompida de se lançar ao mundo com mais autonomia e independência (ainda que com os limites da infância)”, analisa Mariotto.

Sinais aos quais os pais devem ficar atentos

“A melhora costuma ser natural e gradual. Ao voltar para a escola e ter contato com outras crianças, praticar mais atividades físicas e participar de brincadeiras, as crianças costumam seguir o desenvolvimento sem problemas”, diz Bifano sobre o momento de integração dos pequenos na sociedade pós-pandemia.

As especialistas, no entanto, apontam alguns sinais e atitudes as quais os pais devem atentar-se:

  • Dificuldade de descame (sair da cama dos pais)

  • Dificuldade do retorno entre os semelhantes – não saber e não ter interesse de interagir com semelhantes;

  • Atraso na fala;

  • Mudança de comportamento brusca;

  • Voltar a fazer necessidades nas calças ou na cama.

“Algumas vão precisar de apoio psicológico por apresentarem dificuldade de retorno às aulas, fobias sociais, dificuldades de independência, cuidar-se sozinho, dificuldade de socialização. Outras têm mais recursos psíquicos para se adaptar”, diz Mariotto.

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