Como a morte de Serginho mudou as avaliações médicas no futebol brasileiro

(Foto: Arquivo)

Por Caio Calazans (@Cabrito13)

Há 15 anos, São Paulo e São Caetano jogavam pelo Campeonato Brasileiro de 2004, no estádio do Morumbi. O time do ABC brigava por vaga na Libertadores e o Tricolor Paulista pelo título. No primeiro terço da etapa final, o zagueiro Serginho, do Azulão, caiu na área do São Paulo sentindo uma parada cardíaca. Levado ao hospital, faleceu cerca de 1 hora depois. Em julho passado, o meia Adílson se aposentou dos gramados aos 32 anos. O jogador do Atlético Mineiro foi diagnosticado com o mesmo problema de Serginho. A morte de um jogador em partida de Série A deu um sinal muito forte a clubes e CBF. O que mudou desde a morte de Serginho?

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Não é de hoje que complicações no coração matam jogadores de futebol em treinos ou jogos. Desde 1906, quando David “Soldier” Wilson faleceu durante partida do Leeds City, mais de 50 jogadores perderam a vida no futebol. Da Inglaterra ao Peru, aos Estados Unidos e à China, jovens e veteranos em clubes grandes ou menores, o problema tirou vidas sem distinção. O primeiro jogador brasileiro a morrer em campo foi o lateral direito do Sport Recife, Carlos Alberto Barbosa. Ele faleceu durante partida contra o XV de Jaú em 1982. Arritmias, Infartos ou outras anomalias são riscos a que um atleta está sujeito.

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Devido à evolução do futebol, o fator físico tornou-se fundamental para sucesso em alto nível. A preparação dos atletas sofreu transformações enormes, tanto na carga quanto na forma. O número de jogos aumentou e a exigência física também. Mas para os especialistas, isso não aumentou o número de profissionais do futebol com problemas cardíacos: “Aumentou a visibilidade e com certeza os cuidados e critérios para a avaliação dos atletas e com isso se teve mais notoriedade junto a grande mídia”, disse o Dr. Márcio Dornelles, médico do Grêmio. Concordou o Dr. Daniel Souto Silveira, presidente da Sociedade de Cardiologia do Rio Grande do Sul: “A intensidade do exercício físico aumentou nos últimos 20 anos porém o número de diagnósticos de doenças cardíacas que impeçam a atividade de alta performance permanece estável”.

Cerca de um ano antes da morte de Serginho, o Estatuto do Torcedor entrava em vigor, trazendo mudanças que obrigariam qualquer evento futebolístico a contar com ambulâncias, médicos, planos de segurança. O episódio do jogador do São Caetano ajudou a demarcar a importância das mudanças. O presidente do Sindicato de Atletas de São Paulo, Rinaldo Martorelli, aponta o trabalho que a entidade tem feito: “Nossa atuação está lincada ao Ministério Público do Trabalho de melhorar a qualidade dos exames nos clubes, ficamos mais atentos às condições que dizem respeito a saúde dos atletas como: parada para hidratação, mudança nos horários de jogos, o aparelho para avaliar os efeitos da concussão”.

Hoje, os jogadores fazem desde exames mais simples como eletrocardiograma até avaliações mais profundas e são acompanhados por toda a temporada, como afirma o médico do Grêmio: “Atualmente os clubes seguem alguns protocolos onde os atletas realizam avaliações bem criteriosas e com exames complementares, sendo que qualquer indício clínico o atleta é reavaliado”, foi o que aconteceu com o meia Adílson. Após ter uma anomalia detectada no coração, foi submetido a outra bateria de exames e reavaliações até que teve o diagnóstico e preferiu encerrar a carreira.

Clubes como o Atlético Mineiro, de Adílson, têm condições de arcar com os custos de estrutura médica. Em equipes menores e categorias de base, muitas vezes não há nem campo para treinar, quanto mais as mesmas condições de acompanhamento constante dos atletas. Federações e entidades como o Sindicato dos Atletas ajudam a fiscalizar, como revela Martorelli: “Nos grandes clubes fazemos um acompanhamento direito e esses não têm problema. Os demais a gente acompanha através da Federação para saber como os clubes estão sendo exigidos, inclusive prestando muito atenção no que diz respeito ao médico seguindo com a delegação, alguns jogos já deixaram de acontecer porque não havia ambulância e médico”.

Um atleta pode apresentar um problema cardíaco que o obrigue a encerrar a carreira mesmo sem ter sido identificado anteriormente. Serginho só teve detectado o problema aos 30 anos, Adílson aos 32, ambos após uma carreira já madura. O Dr. Daniel falou sobre o tema: “Existem várias doenças cardiológicas que se manifestam ao longo dos anos e pode não ser detectada em exames de rotina tais como eletrocardiograma, ecocardiograma e exame clínico. Alguns tipos de arritmias podem se apresentar com crises muito eventuais no adulto jovem e tornarem-se mais frequentes com o passar dos anos, o que leva o atleta ao seu médico e com isso a chance de diagnóstico é maior”.

Ele ainda reforçou orientações para quem não é atleta, em relação aos cuidados com o coração: “Recomenda-se uma consulta com seu cardiologista antes da pratica de atividades em pacientes com risco aumentado de doenças cardíacas (tabagistas, diabéticos, obesos, dislipidêmicos) e também os já portadores de doenças cardíacas”. Sem dúvida o impacto que o caso do zagueiro causou junto à mídia, opinião pública e principalmente aos torcedores, chamou a atenção para os cuidados cardíacos. Pois o coração é o que mais mata pessoas no mundo.

Tanto no futebol quanto na vida, os cuidados com a saúde são fundamentais para uma boa qualidade de vida e, no caso dos atletas, segurança para atuar sem correr graves riscos. Pelo lado dos clubes, a exigência em melhorar a estrutura para buscar melhores resultados em campo causou o aprimoramento das avaliações físicas e a construção de centros de treinamento, diagnósticos e de recuperação de atletas. Toda essa evolução em estrutura é resultante da necessidade de cada vez maior excelência para conquistar resultados esportivos, mas também em evitar novas tragédias como a que ocorreu com o atleta do São Caetano. Tanto o episódio de Serginho quanto outros ajudaram com que o nosso futebol melhorasse a estrutura e a prevenção.

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