Após coronavírus, indústria do cinema não será mais a mesma

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Cinema drive-in em Essen, Alemanha, lotado após o fechamento de salas tradicionais. Março de 2020. Foto: AP/Martin Meissner
Cinema drive-in em Essen, Alemanha, lotado após o fechamento de salas tradicionais. Março de 2020. Foto: AP/Martin Meissner

Por Thiago Romariz* — A crise do coronavírus atinge a indústria do cinema como nenhum outro fenômeno na história recente da humanidade. Os prejuízos se espalham pelo mundo. Hollywood estima uma perda de mais de US$ 20 bilhões em 2020, cadeias de cinema fecharam as portas indefinidamente, as primeiras previsões de bilheteria na Ásia mostram uma queda de quase 80% e o desemprego afeta diretamente os trabalhadores que dão suporte e sustentam o mercado estrelado do entretenimento.

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A nossa geração nunca viu algo semelhante, nem perto. Por outro lado, o cenário assustador não tirou o otimismo de certos estúdios que ainda acreditam na retomada de público nos próximos meses - a exemplo da Warner Bros. que adiou o lançamento do blockbuster Mulher-Maravilha 1984 em apenas dois meses.

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A companhia o fez não só pelo otimismo, mas também pela exigência de bilheteria que um lançamento como esse demanda. Um orçamento milionário implica em uma arrecadação bilionária, e qualquer coisa abaixo disso hoje pode ser considerada um fracasso.

Tal atitude, porém, traz a reflexão do real impacto que a COVID-19 pode ter no cinema - e ele vai além do ganho de força dos lançamentos em streaming ou VOD, como a Universal e a Sony começaram a fazer com filmes como O Homem Invisível e Bloodshot, que tiveram uma curta janela nas telonas e chegaram rápido aos serviços online de locação sob demanda.

É claro que o buraco causado pelo coronavírus terá uma repercussão fora da bolha do cinema, mas dentro dela há de se enxergar ao menos dois grandes movimentos possíveis para o futuro: a queda brusca e contínua de público em salas de cinema e a ressignificação dos grandes lançamentos no cinema mundial. Vem comigo, vou explicar melhor ambos.

2020 é um risco, 2021 uma esperança

Antes de qualquer anúncio de isolamento oficial nos EUA, as bilheterias americanas já haviam registrado uma baixa expressiva na arrecadação. Some-se a isso a já baixa previsão de bilheteria para este período do ano e temos um cenário complicado para os estúdios, para dizer o mínimo.

Em meados de março, o público some das salas, estúdios começam a adiar lançamentos, exibidores fecham as portas, filmagens são interrompidas e instaura-se de fato uma pausa completa na indústria. O cinema, assim como o mundo, parou. E ele não voltará ao normal tão cedo, pois o mundo também não o fará.

Se engana quem acha que, após o aguardado achatamento da curva de contágio, o povo voltará a ir ao cinema ou que o vírus em si não trará mais problemas - a China está aí para provar, mais uma vez. Adicione a isso também a quantidade de salas que serão permanentemente fechadas e quantos pequenos e médios exibidores já não fecharam as portas com menos de dois meses de crise. A oferta de salas também diminuirá.

A real é que não há como esperar uma retomada do grande público até o final de 2020; talvez nem no início de 2021 se governos e população entenderem que, a partir de agora, toda aglomeração precisa de cuidados maiores principalmente em regiões super afetadas pelo vírus. Não coincidentemente, os epicentros da COVID-19 são o núcleo maior de bilheteria mundial: China, Europa e EUA, respectivamente.

A ação da Warner em manter Mulher-Maravilha 1984 vai além do otimismo com o vírus, pois aposta na força da personagem para fazer as pessoas abrirem mão de preocupações para ir ao cinema e se aglomerar novamente, meses após o presidente exigir quarentena em boa parte do país.

Se o público não tende a ser normal nem em outubro ou novembro, que dirá em agosto. Prudentes foram Universal e Sony, que adiaram seus grandes lançamentos (Velozes e Furiosos 9 e Morbius) para 2021 mesmo enfrentando prejuízos milionários. Estes apostaram em aguardar ao menos um ano para o público se recuperar (psicologicamente, que seja) de tamanha crise.

Cinema como experiência limitada?

Estes adiamentos nos levam para o segundo movimentos que o coronavírus pode trazer: a ressignificação do cinema como espaço de lançamento. O impulso normal é acreditar que o streaming se tornará a alternativa mais viável para os estúdios, mas ainda não é este o caso.

Por mais que gigantes como Disney e Warner estejam entrando no mercado com seus serviços, ainda há um ceticismo significativo quanto às possibilidades de se ganhar dinheiro com estes tipos de lançamento.

O modelo Netflix de assinatura, merchandising e distribuição internacional funciona para ela muito pela vanguarda do negócio e por, entre inúmeros outros motivos, ela ser uma empresa nativa de um negócio que ela mesma criou. Ao entrar neste meio, Disney, Warner, Universal, Sony e outros grandes estúdios têm despesas e estruturas completamente diferentes.

E é exatamente neste ponto que, ironicamente, o coronavírus pode acelerar um processo criativo que há tempos se mostra em Hollywood: como realmente escalar o lucro com streaming e meios digitais em uma indústria que ainda se baseia primordialmente em ingressos e merchandising.

A resposta para essa pergunta tem o período de quarentena e crise para ser criada. E no meio desta descoberta, o cinema pode entender que, como se apontava nos últimos anos, as salas sejam lugar prioritário para grandes e limitados lançamentos.

O estigma de que um lançamento em cinema é mais valioso do que algo para TV ou streaming ainda existe, mas não faz nenhum sentido. Quantas séries ou filmes da Netflix, HBO ou Amazon ganham mais atenção do que as estreias de um mês inteiro no cinema? Muita vezes a qualidade deles é duvidosa, mas estão sempre presentes em discussões de bar, almoços e rodas de amigos.

O consumo de streaming hoje é um comportamento, algo 100% estabelecido, e não mais uma tendência. Por isso, os estúdios precisam entender como lucrar com ele como uma janela de lançamento e não um depósito de segunda linha.

Afinal, por que aquele lançamento de médio orçamento deveria disputar um micro-espaço dentro de um mês dominado por super-heróis ou aquele fenômeno de bilheteria inesperado? No fim das contas, talvez o coronavírus torne o cinema um espaço reservado para experiências de alto orçamento e/ou ocasiões especiais. Tal qual um espetáculo sazonal ou... parque de diversões, como apontou Martin Scorsese.

*Thiago Romariz é jornalista, professor, criador de conteúdo e atualmente head de conteúdo e PR do EBANX. Omelete, The Enemy, CCXP, RP1 Comunicação, Capitare, RedeTV, ESPN Brasil e Correio Braziliense são algumas das empresas no currículo. Em 2019, foi eleito pelo LinkedIn como um dos profissionais de destaque no Brasil no prêmio Top Voice.

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