Você não é o amor (todo) da minha vida

Novas formas de amar e ser completo (Foto: Getty Images)
Novas formas de amar e ser completo (Foto: Getty Images)

Por Daphne B. Diamond (@dbaroukh)*

Recentemente em uma viagem corporativa, despretensiosamente, em um jantar regado a vinho e bons papos, me abri sobre um tema que tem circundado muitas das minhas interações, mas também minhas reflexões e embates internos: a descentralização do afeto. Mas o que seria isso?

Sim, a palavra "descentralização" tá na moda, mas o que ela implica de fato? Compartilho com vocês uma das definições mais completas que achei aqui:

A descentralização caracteriza-se quando um poder, antes absoluto, passa a ser repartido. É a ação de afastar algo de um centro, normalmente utilizada para o “poder de decisão”. Quando uma única pessoa ou grupo detém um poder, ele é centralizado. A repartição do poder entre outras pessoas e grupos, com igual peso é o que classifica um sistema descentralizado.

Antes de entrarmos no assunto, acho relevante saberem que: sou mulher branca, cis e estou em um relacionamento heterossexual há mais de oito anos, inclusive, com quem me casei. Antes dele, emendei dois relacionamentos de três anos cada, me qualificando oficialmente como uma "monogamista em série".

Também queria esclarecer aqui que minha intenção com este artigo é contribuir para a ampliação do diálogo sobre a complexidade que permeia as relações e suas formas mais variadas de se apresentar e não de pregar um modo específico de se relacionar.

Convenhamos que se nem Beyoncé conseguiu manter todos os afetos de seu marido centralizados nela, é bem improvável que isso seja verdadeiramente atingível

Jay-Z e Beyoncé durante evento do Grammy em Beverly Hills, nos EUA, em 25 de janeiro de 2020 (Foto: Kevin Mazur/Getty Images for The Recording Academy)
Jay-Z e Beyoncé durante evento do Grammy em Beverly Hills, nos EUA, em 25 de janeiro de 2020 (Foto: Kevin Mazur/Getty Images for The Recording Academy)

Se pensarmos bem, a descentralização é encorajada em diversas esferas da vida. Sabe aquela famosa expressão: 'Não coloque todos seus ovos na mesma cesta’? ou ’não aposte todas suas fichas em uma coisa só?!' Em finanças, nos ensinam a diversificar os investimentos para correr menos risco; na política, o poder e a administração são distribuídos pelos governos e entidades locais; na esfera profissional nos encorajam também a ter várias entrevistas de emprego para não contar com uma oportunidade só…Mas, quando o assunto é relacionamento, a história é um tanto diferente, não é?

Nos contaram, (e nós, como sociedade, engolimos) que devemos encontrar aquela pessoa que vai ser o amor todo das nossas vidas: nossa 'cara metade'! Precisa ser nossa maior companheira, confidente, fonte de admiração, de desejo, de segurança, uma ótima figura parental para nossas futuras crias e assim por diante...Convenhamos que se nem Beyoncé conseguiu manter todos os afetos de seu marido centralizados nela, é bem improvável que isso seja verdadeiramente atingível.

No entanto, almejamos, invejamos os que aparentam ter e, sobretudo, criamos a expectativa de que nosso parceiro ou parceira consiga nos suprir em todos esses afetos esperados. É principalmente disso que queria falar aqui: de expectativas projetadas (e centralizadas) em nosso relacionamento e como elas nos impactam.

Descentralizar afetos (Foto: Getty Images)
Descentralizar afetos (Foto: Getty Images)

Não sei vocês, mas mais de 80% das tensões no meu relacionamento provêm do fato de eu ter a expectativa que meu parceiro supra todas minhas necessidades de afeto. Acredito sim, que muitas destas tensões tenham raiz no desequilíbrio do papel do homem Vs o da mulher na sociedade - como nos cuidados do relacionamento, da família e nas responsabilidades de afazeres domésticos. Vivemos em uma sociedade estruturada no patriarcado e algumas questões são impossíveis de serem dissociadas.

Estruturalmente, o homem tem suas fontes de afeto diversificadas com mais naturalidade: é reconhecido no trabalho pela sua ambição profissional, recebe elogios da sociedade quando se comporta de forma justa ou generosa, se sente mais em segurança em seu entorno pelo simples fato de ser homem, e é vangloriado quando faz sucesso com as mulheres, só para citar alguns dos exemplos.

Então, se pensarmos no estereótipo de uma relação heteronormativa, ousaria generalizar que a centralização em sua parceira está menos ligada a ter todos seus afetos supridos e mais relacionada às necessidades de cuidado, que é apenas uma das formas possíveis de afeto.

Como a descentralização do afeto salvou meu casamento

Descentralizar o amor salvou meu casamento (Foto: Getty Images)
Descentralizar o amor salvou meu casamento (Foto: Getty Images)

Por muito tempo fiquei presa nesse ciclo vicioso de centralizar minhas fontes do afeto nele, culpando meu parceiro por não conseguir suprir todas minhas expectativas (inatingíveis) e procurando corrigir os desequilíbrios detectados. Esperava que ele me apreciasse pelos cuidados e contribuições em casa, sem deixar de reconhecer a profissional bem sucedida e atarefada que era; que ouvisse minhas ideias e reflexões com atenção e curiosidade como se fosse tudo novidade, mas conseguisse igualmente antecipar minhas vontades e angústias.

Queria que me trouxesse a sensação de segurança, conforto e estabilidade, mas que me desejasse e me paquerasse com o empenho de alguém com quem não convivesse rotineiramente. Ufa, até eu fiquei cansada ao escrever!

Procurei me munir de recursos e ferramentas para entender a melhor forma de expressar minhas frustrações, formular meus pedidos de forma mais efetiva e encorajar mudanças de comportamento ou postura do meu parceiro. Me debrucei na prática da Comunicação não Violenta (CNV); explorei diversos artigos, livros e vídeos sobre ciências comportamentais e sobre relacionamentos; mergulhei nas angústias em inúmeras sessões de terapia e troquei com diversas amigas e conhecidos.

Todos esses processos foram fundamentais para minha auto análise e para abrir espaços de diálogos mais produtivos dentro da relação, mas, fundamentalmente, o foco ainda era o mesmo: minha definição de satisfação estava centralizada no meu companheiro e implicava que ele suprisse todas as minhas necessidades e expectativas latentes. Foi somente no momento que mudei de ângulo e perspectiva que as coisas se transformaram realmente para mim. E para ser sincera, foi algo mais vivido do que do estratégico. Compartilho as etapas em tópicos:

  • RECONHECER A PLURALIDADE DOS SEUS AFETOS;

  • DIAGNOSTICAR ONDE foram alocadas SUAS EXPECTATIVAS;

  • DESCONSTRUIR E DESCENTRALIZAR suas NECESSIDADES

  • CALIBRAR

Ao passar a entender a pluralidade dos meus afetos e conseguir diferenciar uma necessidade da outra, foi possível desconstruir aos poucos essa premissa de que a pessoa que amo tem que me fazer sentir tudo que quero sentir. O que antes eu atribuiria genericamente a ‘ele não me dá atenção’ ou ‘não me valoriza o suficiente’ passou a ser uma reflexão mais profunda para detectar mais especificamente que necessidade poderia estar em falta naquele momento. Começar a reconhecer e nomear minhas distintas necessidades de afeto foi o início do meu processo de descentralização.

Procurei me munir de recursos e ferramentas para entender a melhor forma de expressar minhas frustrações

Para ilustrar com um exemplo clássico: será que a toalha deixada molhada na cama representa mesmo um descuido ou falta de carinho comigo ou eu haveria alocado essa expectativa de afeto ao gesto e por isso me sentia descuidada cada vez que isso ocorria? Isso permitiu com que eu conseguisse distanciar minhas queixas e frustrações dos incômodos mundanos - como uma louça não lavada, uma toalha molhada na cama ou um look não elogiado - para digerir e elaborar o que de fato estava por trás daquele incômodo. Quando confrontada a uma dessas situações, comecei a me perguntar: que afeto eu depositei nesta tarefa ou ação? Será que essa é a única (ou a melhor) forma com que posso suprir essa necessidade? E a partir dessa reflexão, passei a criar outras estratégias, muitas vezes melhores, para lidar com minhas necessidades.

Gradativamente, o processo me permite:

  • Me empoderar da responsabilidade de suprir minhas necessidades de afeto. Não quero dizer com isso que acredito sermos responsáveis por gerar internamente todo o afeto que precisamos, mas consegui reduzir a externalização da responsabilidade de suprir minhas necessidades e passei a me entender como protagonista em procurar outros recursos, estratégias e fontes de afeto para suprir minhas carências.

  • Perceber que estava rodeada de fontes de afeto e que o que faltava talvez era legitimá-las. Faltava deixar de colocá-las como secundárias ou menos potentes do que os afetos vindos do meu parceiro, para realizar que a carência não era absoluta, e sim, relativa à proveniência (de quem teria que vir).

  • Olhar com mais empatia para meu parceiro em sua inabilidade - seja por falta de conhecimento ou priorização - de suprir algumas das minhas expectativas de afeto

  • Passar a conviver na minha relação de forma mais leve e saudável; dando até brecha para que novas conversas e afetos florescessem e ocupassem esse espaço que a cobrança, raiva e frustração ocupavam até então.

Mais do que nunca, vai ser importante contarmos com a maior quantidade possível de conforto, intimidade e apoio para navegarmos águas cada vez mais incertas e complexas. É inviável, e ao meu ver, até indesejável, nos respaldarmos em uma pessoa só para nos suprir em todas essas necessidades. Inspirada pelo provérbio atribuído aos povos Igbo e Yoruba: "É preciso uma aldeia para se educar uma criança", ou seja, é preciso do coletivo para darmos conta de emoções diversas e complexas que estamos experienciando.

Por muito tempo fiquei presa nesse ciclo vicioso de centralizar minhas fontes do afeto nele, culpando meu parceiro por não conseguir suprir todas minhas expectativas (inatingíveis) e procurando corrigir os desequilíbrios detectados

Estamos todos tentando

Após dois anos de pandemia, que abalou muitas das estruturas com que contávamos e onde fomos praticamente forçados a centralizar nossos afetos no que estava ao nosso alcance, vivemos uma fase de liminaridades.

A psicoterapeuta Esther Perel, uma das maiores referências para mim em questões de relacionamento, descreve o limite como sendo um momento de transição, em que entendemos que não faz mais sentido operar da forma como o fazíamos até então, mas tampouco temos clareza da nova forma como operar. Por um lado este processo é um tanto angustiante, mas por outro, essa liminaridade também é a oportunidade para re-configurar alguns dos nossos modus operandis para trazer a transição para uma dinâmica mais alinhada com nossos descobrimentos e valores.

O convite que deixo aqui ao me despedir, é primeiro de reflexão e diagnóstico. Foi a partir do entendimento das minhas emoções, projeções e expectativas, que comecei a desconstruir a centralização do afeto em meu parceiro. Foi ao perceber que os mecanismos herdados, mas também aqueles que tinha estabelecido estavam limitando minha habilidade de suprir meus afetos, que pude começar a desenhar novos acordos.

*Sobre a autora: Nascida no Brasil, de onde saí quando tinha 6 anos, venho de uma família de imigrantes - de um lado vindos do leste da Europa e do outro direto do Egito. Após ter vivido em outros cinco países, alguns na América Latina e outros na Europa, voltei ao Brasil com 24 anos de idade e aqui moro novamente há 10 anos. Com certeza esta bagagem cultural diversa que herdei, somada à que foi se criando ao longo das aventuras da vida, são fundamentais para a forma como enxergo o mundo e como nele quero interagir.

Linkedin: Daphne B. Diamond