Com venda, Cahiers du Cinéma enfrenta crise de identidade

INÁCIO ARAUJO

FOLHAPRESS - "Os Cahiers du Cinéma acabaram". A manchete foi estampada na revista Arts, em 1964, pouco depois de Daniel Philipacchi, proprietário de uma poderosa editora, ter adquirido o controle acionário da revista, que tinha 13 anos.

Hoje, beirando os 70, a completar no ano que vem, é mais ou menos essa a ideia que transmitiram as várias notícias dando conta da venda da revista para o autodenominado grupo Les Amis des Cahiers (os amigos dos Cahiers). A redação dirigida por Stephane Delorme de fato não digeriu bem a passagem dos britânicos, que detinham o controle da revista, para os franceses.

Se for verdade o que diz a Variety, então tudo o que se publicou pelo mundo sobre a crise dos Cahiers du Cinéma tem um quê considerável de fake news. Não uma fake news completa, mas algo bastante impreciso.

É verdade que boa parte da Redação pediu demissão, entre eles o redator-chefe Stéphane Delorme e seu adjunto, Jean-Philippe Tessé. Mas ao menos quatro redatores da antiga equipe decidiram permanecer por pelo menos um mês, a fim de realizar a transição. Redatores desse grupo sustentam, para resumir, que a revista americana "está mais bem informada" do que as notícias publicadas.

Na história da autodemissão em massa (senão coletiva), os argumentos para a antiga equipe pular fora não são fracos. Por um lado, o novo grupo pretenderia que a defesa do cinema francês tivesse mais ênfase na publicação.

Por outro, fazem parte da sociedade alguns produtores franceses. Esses dois aspectos, somados, poderiam deixar a impressão de que, quando um filme francês fosse elogiado, seria por causa da proximidade com tais produtores.

Para não ir longe: o produtor do filme "Os Miseráveis", que ganhou capa em seu lançamento, faz parte dos compradores. Caso isso acontecesse após a venda, supor que a matéria foi influenciada não seria absurdo. A fofoca, em todo caso, seria certa.

Ao mesmo tempo, não esquecer que os Cahiers ganharam fama realmente mundial por atacarem até com violência o chamado cinema da "qualidade francesa". Isso se consolidou já em 1954, com o clássico artigo de François Truffaut, "Sobre uma certa tendência do cinema francês".

O que a Variety informa vai, no entanto, em outra direção. Chega a publicar o nome de quatro possíveis futuros diretores de Redação. Todos pesos-pesados. Marcos Uzal é colaborador e membro do conselho da revista Trafic (uma espécie de Cahiers mais ensaística do que crítica).

Os demais são Antoine de Baecque (historiador e professor universitário), Charles Tesson (também professor e diretor da Semana da Crítica em Cannes) e Jean-Marc Lalanne (editor de cultura do semanário Les Inrocks), tendo todos eles ocupado cargos chave na publicação entre os anos 1990 e 2000.

Todos ótimos nomes, por sinal. Mas estaria algum deles disposto a deixar os ilustres postos que ocupam? Em todo caso, basta que um aceite para que a honra da revista continue de pé.

Na verdade, ameaças sempre pairaram sobre a revista, quase sempre por conta de suas dificuldades financeiras.

A crise mais dramática começou em 1962, quando Jacques Rivette liderou, com apoio de Truffaut, uma rebelião contra a linha do então diretor de Redação, Eric Rohmer. Em meados do ano seguinte, Rohmer foi expelido da revista, levando consigo uma boa parte da antiga equipe.

Esse cisma representou uma divisão nunca mais superada no grupo original da nouvelle vague. Rohmer e Claude Chabrol ficaram de um lado, Rivette e Truffaut, de outro. Godard não tomou partido.

Em 1964, novo trauma: a aquisição da revista pelas edições Philipacchi provocou mais ou menos as mesmas suspeitas de agora. No entanto, a revista e Philipacchi se deram muito bem até... Bem, até 1968. Os redatores assumem-se leninistas, em seguida maoístas. Philipacchi sai em 1969; as vendas mínguam até chegar a 3.000 exemplares em 1973.

Os Cahiers parecem mortos, apesar de serem resgatados graças à compra das ações patrocinada por François Truffaut e Jacques Doniol Valcroze, dois nomes históricos da publicação. Só na virada de 1973/74, um texto de Serge Daney anuncia que é preciso voltar a falar de filmes.

É o início de uma longa transição que se consolida ao final da década, quando Daney troca os Cahiers pelo jornal Libération e, pouco depois, funda a revista Trafic. Nesse período, os textos se tornam mais leves e dirigem-se novamente aos cinéfilos. A circulação volta, pouco a pouco, a crescer até os 15 mil exemplares de hoje.

Os problemas econômicos, no entanto, não cessam. Na virada para o novo século, a publicação é comprada pelo jornal Le Monde, que se desfaz dela em 2009, quando é comprada pelo grupo Phaidon, com sede em Londres, especializado em livros de arte.

No período Le Monde, a revista lança edições online, abandonadas desde 2009 pela equipe de Stéphane Delorme, que se opõe a qualquer tipo de edição que não em papel --o que poderia abrir novos horizontes, num momento em que a venda em bancas declina.

À beira de completar 70 anos, a publicação que, a não ser pelo período marxista-leninista, foi o mais seguro barômetro da produção cinematográfica e soube adiantar antes de qualquer outra a maior parte das tendências de vanguarda do cinema mundial (de EUA à Coreia, de Taiwan à China continental etc.) encontra-se novamente diante de uma crise de identidade. É quase certo que sobreviverá. Os próximos meses dirão se à altura de seu mito ou não.