Com renda inferior ao salário mínimo, famílias negras não conseguem suprir necessidades básicas

Com renda inferior ao salário mínimo, famílias negras não conseguem suprir necessidades básicas. Foto: Luis Wilker Perelo, Pixabay

Texto: Nataly Simões | Edição: Pedro Borges

O salário mínimo de R$ 1.045, reajustado pelo governo federal e vigente a partir de fevereiro, está acima da realidade das famílias negras que vivem na extrema pobreza. É o que alerta a professora de economia Regiane Vieira Wochler. 

“Dados do IBGE apontam que 13,5 milhões de brasileiros vivem com até R$ 145 por mês, destes 10,1 milhões são pretos ou pardos. As famílias negras estariam em uma situação muito melhor do que a que vivem hoje se o valor do salário mínimo correspondesse à renda mínima dessa população”, afirma.

O valor do salário mínimo é inferior ao ideal para suprir as necessidades básicas de uma família de até quatro pessoas. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o salário mínimo deveria ser de R$ 4.342,57.

“Isso significa que a maior parte das famílias brasileiras, principalmente as negras, vivem com valores muito abaixo do ideal. A miséria e a pobreza têm cor e estão concentradas na população preta e parda”, sustenta Regiane Vieira Wochler.

Para a professora de economia, com experiência de mais de 20 anos no mercado financeiro e fundadora da consultoria “Reconomizar - Economia do Recomeço”, a desigualdade de renda no país deve ser superada com o “desenvolvimento de políticas públicas afirmativas e de combate à fome”.

Um projeto de lei que instituí o estabelecimento oficial de um valor mínimo para a renda das famílias brasileiras, considerando necessidades básicas como alimentação, vestuário e moradia, de autoria do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), foi aprovado pelo Senado em 2014. A proposta era de que o valor inicial poderia ser de R$ 100 por mês, com aumento gradativo, até chegar a R$ 1 mil. O texto seguiu para sanção da então presidente Dilma Rousseff, mas nunca foi sancionado.

Inflação e poder de compra das famílias mais pobres

O reajuste do salário mínimo anunciado pelo presidente Jair Bolsonaro na terça-feira (14) ocorreu para não ficar abaixo da inflação de 4,48%. O Ministro da Economia, Paulo Guedes, informou em entrevista coletiva que o valor foi corrigido de R$ 1.039 para R$ 1.045 para garantir o poder de compra dos brasileiros.  

O Índice do Custo de Vida (ICV), medido pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), no entanto, mostra que a inflação afeta de maneira desigual o poder de compra das famílias de menor renda. 

Em dezembro de 2019, o impacto da inflação nas famílias mais pobres, com renda média de até R$ 377,49 foi de 1,09%, enquanto o impacto para as famílias com renda média de R$ 2.792,90 foi de 0,73%. No mesmo mês, o preço do feijão subiu em média 18,54%, e o da carne, 8,83%, pesando no orçamento das famílias mais pobres.

A professora de economia Regiane Vieira Wolchler reitera que o reajuste do salário mínimo não considera a desigualdade do poder de compra das famílias e como consequência as mais pobres não devem ter o poder de compra resguardado.

“Para suprirem suas necessidades, as famílias de menores rendas acabam  gastando um percentual maior de suas rendas totais com alimentação, moradia e transporte, por exemplo. Sob esse aspecto, ter um reajuste que repõe integralmente a inflação é importante, mas não pode garantir o poder de compra e muito menos o acesso dessas famílias ao conjunto de serviços e produtos ideais para se viver com cidadania”, pondera.

Impacto no mercado de trabalho informal

Dos aproximadamente 39 milhões de trabalhadores brasileiros na informalidade, 46,9% são negros. Isso significa que um a cada dois negros não possui carteira assinada, conforme a estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo Regiane Vieira Wolchler, esses trabalhadores informais também são impactados pelos reajustes da inflação.  “Esses trabalhadores são afetados principalmente por não estarem vinculados a uma categoria e ao poder de negociação coletiva. Esse segmento raramente consegue reajustar o preço de seus produtos/serviços de forma a recompor integralmente a inflação apurada”, explica a professora de economia.