Com personagens machistas e atores desconstruídos, "Pantanal" aposta em polêmicas

Leandro Lima é Levi em
Leandro Lima é Levi em "Pantanal" (Reprodução TV Globo)

Quem acompanha "Pantanal" tem percebido um evidente esforço do autor Bruno Luperi em atualizar o roteiro original de Benedito Ruy Barbosa, especialmente quando o assunto é machismo e misoginia. A versão da novela de 1990 não trazia as mesmas problematizações e questionamentos por parte dos atores, e veteranos como Marcos Palmeira e Murilo Benício fizeram questão de deixar claro que as atitudes machistas e perversas de seus personagens não condizem com a masculinidade na qual eles acreditam.

Intérprete de José Leôncio, Marcos Palmeira explicou que sua geração precisou repensar termos, atitudes e posicionamentos misóginos. Mesmo sendo protagonista e querido pelo público, o personagem chocou com atitudes preconceituosas em relação ao filho, Jove. Em uma cena, o fazendeiro disparou contra o personagem de Jesuíta Barbosa e deu um show de machismo, misoginia e homofobia.

A aproximação de Jove com Juma (Alanis Guillen) foi o que motivou a discussão entre pai e filho. O peão deu a entender que o filho estava se relacionando com a moça e não gostou quando o herdeiro respondeu que é possível gostar de uma mulher sem interesse sexual. Em conversa com Filó (Dira Paes), Zé Leôncio afirmou que o filho é uma "fêmea", o chamou de vagabundo por não ter uma profissão e o criticou por não ser como os outros peões do Pantanal.

"A gente teve de reaprender muita coisa, o que é bom. Às vezes, tem um radicalismo, que é necessário para quebrar essa estrutura machista ancestral em que crescemos. A situação ainda é muito desigual em relação à mulher", confessou Marcos Palmeira.

Na coletiva de imprensa de "Pantanal", Jesuíta Barbosa também afirmou que os personagens pensados pelo roteiro da novela têm como objetivo criticar e questionar antigos modelos de masculinidade. "O Jove chega da cidade, um cara urbano, cosmopolita, e vai para um ambiente completamente diferente. A tradução dessa nova história tem uma possibilidade de discutir esse outro lado, que é o lado que cria esse conflito com o Pantanal. A trama não fica paternalista, do pai que quer que o filho seja macho, peão. Tem uma outra discussão, a partir desse ganho que tivemos nessas novas gerações sobre discussão sexual, sobre empoderamento. Acho que a gente consegue criar essa diversificação agora. Isso é o mais importante. O Jove é complicado, porque ele alterna entre o Rio de Janeiro e o Pantanal, mas é esse o equilíbrio. É sempre violento, não tinha como não ser", avaliou.

Vilões da novela

A facada de Levi em Tibério (Guito) também motivou uma discussão sobre a brutalidade e a misoginia do personagem de Leandro Lima. O embate começou quando Tibério flagrou Levi tentando estuprar Muda (Bella Campos). A jovem já havia deixado claro que não queria transar com o peão. Ainda assim, ele não parou de insistir e chegou a usar a força para intimidá-la.

Mesmo saindo ferido, Tibério conseguiu salvar a amada. O problema é que, depois disso, apenas Irma (Camila Morgado) e Joventino insistiram para Muda denunciar Levi por tentativa de estupro. Os outros personagens acharam melhor deixar o criminoso amarrado para José Leôncio decidir sua pena. O peão acabou fugindo e não respondeu pelo seu ato.

Nas redes sociais, o ator Leandro Lima explicou que faz questão de repensar sua masculinidade, e que sua vida passa longe do terror de Levi. "Tenho uma filha de 20 anos, mas o mundo mudou muito. Estou lendo bastante sobre paternidade, educação. Não irei repetir os ensinamentos machistas que tive em casa. Tudo será diferente", explicou ele, que acaba de ser pai também de um recém-nascido.

Outro personagem questionável de "Pantanal" é o odiado Tenório, interpretado pelo veterano Murilo Benício. O personagem é a personificação do vilão do agro: abusivo com a esposa, traidor, violento, opressor e preconceituoso.

Para o ator, é importante que a falta de caráter de Tenório não tenha sido suavizada na nova versão de "Pantanal". "A primeira conversa que tive com o Bruno Luperi, falamos sobre estes lugares, onde chegar com o Tenório. E eu falei para ele não segurar, não. Vamos mostrar sim. Pessoas como o Tenório ainda existem aos montes. Acho que vai ser uma boa forma de espelho para uma parcela de pessoas que não conseguiu evoluir deste lugar".

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