Com Men, Alex Garland cria terror que vai inundar a internet de teorias

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Men explora o medo e tensão no espaço entre homens e mulheres, usando imagens bíblicas para comunicar uma atmosfera intensa durante. (Foto: Monica Schipper/Getty Images for IMDb)
Men explora o medo e tensão no espaço entre homens e mulheres, usando imagens bíblicas para comunicar uma atmosfera intensa durante. (Foto: Monica Schipper/Getty Images for IMDb)

David Cronenberg, mestre do body horror, já declarou que espera pessoas deixando as sessões de seu novo filme, Crimes of the Future, nos primeiros minutos em Cannes. Mas, num festival paralelo, a Quinzena dos Diretores (evento voltado para filmes menores que acontece a alguns quarteirões do festival principal), o público devorou o perturbador e horripilante Men, obra de terror bíblico, social e abstrato do excelente diretor Alex Garland (Ex Machina).

Estrelado por Jessie Buckley, recentemente indicada ao Oscar, e Rory Kinnear, cujo rosto é inserido em todos os personagens masculinos num comentário inteligente mas nada sutil, Men explora o medo e tensão no espaço entre homens e mulheres, usando imagens bíblicas para comunicar uma atmosfera intensa durante. Esse, não é preciso dizer, não é para todo mundo.

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Elenco

Buckley interpreta Harper, uma jovem viúva que vai para o interior britânico se hospedar numa casa linda e isolada, passear pela floresta e tentar processar a perda do marido. Quando ela começa a cruzar diversos homens, todos interpretados por Kinnear com facetas diferentes de estranheza, o paraíso é manchado com ansiedade e medo. Mas não se engane, Men não é uma experiência opressiva ou mesmo densa além da conta. Apesar dos temas difíceis e visuais horripilantes, Garland deixa espaço para a comédia graças ao talento de Kinnear, ao mesmo tempo coringa e às deste baralho.

Diferentes talentos

Dos vários personagens vividos por Kinnear, o primeiro é Geoffrey, o dono da casa onde Harper vai se hospedar. Bonzinho até demais, ele arranca risadas da audiência constantemente. “Ele é a primeira pessoa que Harper conhece, e ele foi apresentado mais ou menos como estava no roteiro,” o ator disse depois da exibição em Cannes. “Alex gosta muito que seus atores, e todo mundo, ofereçam coisas. Acho que sabendo a jornada pela qual a audiência terá que atravessar, dar uns toques mais gentis provavelmente ajuda.” Há mais figuras, e se o humor de Geoffrey é inicialmente mais puro, elas adicionam um toque desconfortável. Rapidamente, as risadas se tornam constrangedoras, e os sorrisos são acompanhados por olhares para os lados. Os diferentes talentos do ator brilham em seus vários papéis.

“Havia alguns personagens detalhados e alguns que só eram poucas palavras na página,” Kinnear explicou. “Então eu sabia que ia querer deixar cada um o mais distinto e importante, existindo com sucesso dentro desse mundo, dessa vila, saindo do mundo natural.” Para isso, ele escreveu páginas e páginas de histórias contando o passado de cada personagem. “[Então] eu os mandei para o departamento de maquiagem e cabelo para podermos ter um ponto de partida compartilhado.”

“Alex é muito bom em nos dar liberdade nessas questões,” Kinnear revelou, reforçando algo dito por Natalie Portman em Aniquilação, último longa-metragem de Garland antes de Men. “Tivemos duas semanas de ensaio antes das filmagens. Era essencialmente eu, Jessie e Alex numa sala conversando tanto sobre o roteiro em si quanto sobre as coisas que surgiam dele. Alex é muito colaborador, querendo ouvir nossas respostas ao roteiro e encontrando maneiras de modificar o texto para que ele se encaixasse com mais facilidade em nós.”

Interpretações e significados diferentes

Se Kinnear povoa tantas cenas de Men, Buckley captura sua essência. Várias ideias e conceitos apresentados no filme terão interpretações e significados diferentes dependendo da pessoa, mas o tema central da narrativa é a capacidade de homens de traumatizar e perseguir mulheres, especialmente ao culpá-las por seus próprios erros. Quando Harper chega à casa de campo, ela pega uma maçã da árvore do jardim. Garland nunca foi tímido em suas referências bíblicas, e aqui faz mais uma - Eva e o fruto proibido. É importante lembrar, porém, que quando Adão foi confrontado por Deus pelo pecado, colocou a culpa na “mulher que tu me destes por companheira.” O diretor explora isso através de Harper.

“O roteiro era imediatamente provocativo e trouxe várias perguntas,” contou Buckley sobre o que a atraiu para esse projeto. “Esse sempre é um ponto de partida empolgante. Alex é um cineasta punk de várias maneiras, ele faz escolhas corajosas e provocativas, e nós tínhamos uma sensibilidade comum. Mas para mim, com Harper, era como descascar camadas e experimentá-la o máximo possível, ao invés de projetar o que eu pensava sobre esse relacionamento. E o filme é sobre relacionamentos. Sobre os relacionamentos entre homens e mulheres e o luto e a perda de um relacionamento, a dor que é incubada nesse luto e como as pessoas lidam com isso.”

Convida a debates

“Foi uma conversa constante, e eu espero que continue sendo uma conversa constante,” ela concluiu. De fato, Men é o tipo de filme que convida debates depois da sessão, dando a cada pessoa a oportunidade de contar o que achou de determinadas cenas e comparar teorias. Isso, claro, para quem aguenta os momentos assustadores, nojentos e de criatividade aterrorizante ao longo de sua história.

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