Com mais de 700 startups da área, Brasil mostra força em inteligência artificial

Matheus Mans
·5 minuto de leitura
Artificial intelligence concept of big data or cyber security. 3D illustration
Artificial intelligence concept of big data or cyber security. 3D illustration

Segmento menos comentado e popular do que finanças e educação, por exemplo, as startups de inteligência artificial estão em franco crescimento no Brasil. De acordo com um estudo da consultoria Distrito, o País conta hoje com 702 startups com aplicação de IA que, juntas, já captaram US$ 839 milhões por meio de 274 rodadas, desde 2012. Ainda que esteja alguns degraus abaixo de outras áreas, os números indicam uma forte consolidação.

No entanto, ainda há muito espaço para explorar. Afinal, ainda que o segmento tenha crescido e se apresentado ao mercado, as startups de inteligência artificial não ficam restritas. No estudo da Distrito, apenas no Brasil, há empresas atuando em áreas como Agricultura, Educação, Imobiliário, Logística, Mídia e Entretenimento, Indústria 4.0, RH, Saúde e Serviços Financeiros -- além de alguns segmentos mais técnicos de empresas.

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“É um mercado que ainda está incipiente, tem muito a crescer”, afirma Armindo Sgorlon, CEO e fundador da SGA TI em Nuvem, especialista na área de inteligência artificial, em entrevista ao Yahoo! Finanças. “Segundo o Gartner, até o final de 2024 muitas empresas irão avançar o seu uso em IA, passando para aplicações mais práticas. Ainda, até 2030, as empresas que incorporarem totalmente a IA podem dobrar o seu fluxo de caixa”.

Mudanças no dia a dia

Falando dessa maneira, parece que esse mercado de inteligência artificial é algo nichado, voltado apenas para empresas. No entanto, a promessa é de mudar até mesmo comportamentos. No varejo, por exemplo, o uso da tecnologia tem potencial de mudar a forma de consumirmos. Afinal, com a inteligência artificial barateando, agilizando e simplificando processos internos, toda a cadeia de varejo passa a ser afetada por isso.

“Ajudamos a diminuir custos, a alavancar vendas, resolvemos problemas de estoque, tudo isso baseado na validade dos produtos”, conta Cynara Bahia de Melo, CEO da Total Strategy, startup focada em resolver a dor de promotores de vendas e repositores de supermercados. ao Yahoo! Finanças. “E nossa ferramenta oferece a possibilidade do cliente evitar o desperdício, reduzindo descarte de produtos ainda dentro de uma prazo aceitável”.

A Propz, também focada em varejo, vê um futuro ainda mais tecnológico. “Todas as empresas e todas as áreas serão administradas de forma algorítmica predominantemente por IAs”, diz Manuel Guimarães, CEO. “As empresas serão mais seguras, eficientes e produtivas quando administradas por IAs. Nossa ambição é que a Propz seja protagonista nessa transformação da indústria de varejo e, eventualmente, de outras indústrias”

Na área de saúde, essa transformação também deve acontecer. “A informatização de processos e documentos abriu uma grande oportunidade de análise de dados que antes eram muito difíceis de serem acessados, permitindo o desenvolvimento de IA para apoio à tomada de decisão em diferentes áreas. Isso só tende a aumentar cada vez mais”, diz João Pandolfi, diretor de tecnologia da W3.Care, startup de IA para atendimento de urgência.

Atualmente, a empresa já oferece serviço. Há o Teletrauma, suporte ao atendimento de traumas; o amIA, para atendimento de pacientes com dor torácica e pré-diagnóstico de infarto agudo; e o TeleCare, com a proposta de oferecer um canal entre profissionais da saúde e pacientes. “Com seriedade e alinhamento entre inteligência natural e artificial, o futuro/presente será lindo. O mercado aguarda ansiosamente por isso”, finaliza João.

Por fim, a segurança deve ficar mais afiada. “O nosso foco é prevenção à fraude. Esta especialização é muito importante, pois quem tenta ser bom em muitas coisas acaba sendo mediano em todas. Ao focar na prevenção à fraudes, nós conseguimos ser muito precisos. O e-commerce e o mercado de pagamentos online e contas digitais só cresce, e as fraudes vêm junto. Há bastante trabalho para se fazer”, comenta Tom Canabarro, CEO da Konduto.

A empresa de Canabarro combina alta tecnologia, como inteligência artificial, com inteligência humana para realizar análises de compras em menos de 1 segundo e é utilizada por mais de 4 mil lojistas, em Brasil, México, Argentina, Chile e Colômbia. Só em 2020, analisou o risco de mais de 244 milhões de pedidos, ajudando o e-commerce a evitar um prejuízo superior a R$ 1,3 bilhão em fraudes. O futuro, para Tom, está nos dados.

Futuro e desafios

Todos os entrevistados indicam que o mercado só tende a crescer ainda mais. No entanto, algumas barreiras ainda precisam ser transpostas. A startup GaussFleet, por exemplo, é a maior plataforma de gestão de máquinas móveis para mineradoras e siderúrgicas. Assim, a startup utiliza geoprocessamento, telemetria avançada e IoT na gestão de máquinas pesadas dentro de minas e usinas. Assim, ela depende de tecnologias fora de seu escopo.

“Um desafio que temos e nos preocupamos demais, pois é a matéria prima de todo o nosso trabalho, é a confiabilidade e qualidade das informações que captamos através de sensores IOT e/ou integrações com outras plataformas”, diz Vinicius Callegari, diretor de operações e líder de desenvolvimento comercial da startup, em entrevista ao Yahoo! Finanças. “Através do nosso know how, garantimos que as fontes de informações estejam 100% confiáveis”.

Para ele, o futuro deve fazer com que a tecnologia alcance um patamar acima do esperado. “O futuro será fantástico. Junto com nossos clientes, passo a passo, caminharemos rumo ao estado da arte na gestão de ativos e pessoas dentro de operações industriais. Nós desenvolvemos relacionamento de longo prazo com os maiores players de mercado, e na parte que nos cabe, somos agentes de transformação real nos resultados”, explica Vinicius.

Por fim, há o “problema Brasil”, como muitos empreendedores dizem. “Nossos desafios estão atrelados ao processo de transformação digital de alguns mercados que ainda são muito lentos. O Brasil perde hoje em competitividade porque está atrasado na incorporação de tecnologias em suas empresas”, contextualiza Patrícia Tavares, CEO da NeuralMind, startup especializada na utilização da inteligência artificial para a detecção de fraudes.

Fredy Evangelista, CEO da Vianuvem, startup que busca desburocratizar processos, vai por esse caminho com um futuro positivo. “O Brasil possui muita burocracia em seus processos, e a nossa empresa atua diretamente na simplificação deles”, diz. “Em breve estaremos tão acostumados com isso, que não iremos acreditar o tanto de tempo que gastávamos com atividades tão simples que poderiam ser automatizadas com inteligência artificial”.