Com covid, apresentadora deu à luz gêmeas, foi intubada e tinha apenas 15% de chance

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A apresentadora Duda Rodrigues com as gêmeas Raphaela e Manuella (Foto: Reprodução/Instagram@dudarodrigues.oficial)
A apresentadora Duda Rodrigues com as gêmeas Raphaela e Manuella (Foto: Reprodução/Instagram@dudarodrigues.oficial)

"Costumo dizer que gerei duas vidas e tive que salvá-las para depois lutar pela minha". Pode até parecer cena de filme, em um título como o "Ensaio Sobre a Cegueira", por exemplo, mas é apenas o relato da apresentadora do "Saúde Você", da Rede TV!, Duda Rodrigues, que deu à luz gêmeas e logo foi intubada por conta da covid-19.

Desde o início, a gravidez já era de risco, afinal, a apresentadora entraria em trabalho de parto, de gêmeas, aos 42 anos. No entanto, Duda só não imaginava que as dores pudessem ser maiores do que ela já esperava. 

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Em um depoimento emocionante, a estudante de biomedicina revela como descobriu que foi infectada pelo novo coronavírus, estando grávida de Raphaella e Manuella. "Fui internada com antecedência porque estava com diabetes gestacional e hipertensão. E a internação veio depois de exames de rotina e acompanhamento". "Uma semana depois, ainda no hospital, descobri que contrai covid. Alguns sintomas clássicos começaram a aparecer, como perda de olfato e um cansaço muito grande", relata.

"Foi neste momento que toda a história começou a mudar e, inclusive, mudou a minha vida. Como as crianças ainda eram muito prematuras [estavam com 32 semanas], meu médico orientou a não realizar o parto naquele momento, afinal, eu poderia colocar a saúde delas em risco. Se elas tivessem nascido naquele período, provavelmente teriam precisado de uma UTI ainda mais intensiva ou até mesmo uma intubação".

Dessa forma, Duda seguiu as recomendações médicas e decidiu postergar seu tratamento contra a covid-19 por conta gestação. Porém, não imaginava as consequências severas que isso poderia acarretar. Alguns exames não puderam ser realizados de prontidão, como tomografia e ressonância (para entender se há comprometimento dos pulmões, por exemplo), então, a gravidade ainda não tinha sido informada. Naquele momento, as gêmeas precisavam amadurecer os pulmões e as vidas de Raphaella e Manuella eram mais importantes. "Estava tão preocupada com as minhas filhas, que eu não tinha noção da gravidade que entraria logo em breve", revela.

Duda e o marido após alta médica (Foto: Arquivo Pessoal)
Duda e o marido após alta médica (Foto: Arquivo Pessoal)

Na 34a semana de gestação, as gêmeas chegaram e logo foram para a UTI - procedimento normal quando crianças nascem prematuras. Foi aí que Duda percebeu que deveria cuidar de sua própria saúde: "Somente quando minhas filhas nasceram eu me senti pronta, realmente, para lutar". Logo depois do parto, Duda fez os exames e viu que os sintomas agravaram. No início, tive que usar oxigênio com capacidade máxima e, logo depois, outra máscara que, às vezes, precisava ser utilizada com morfina", relembra.

Ida e volta da UTI

O fim parecia não chegar. Durante a internação, feita no Hospital São Luiz, em São Paulo, Duda foi e voltou da Unidade de Terapia Intensiva, ao menos, três vezes. Durante os exames, descobriu que seu pulmão estava 85% comprometido por causa da covid. Além do vírus, ela contraiu pneumonia, como decorrência do primeiro diagnóstico. Em paralelo, os sintomas estavam cada vez mais agravados. "Tinha dia que parecia que estava bem, mas não era verdade. A Covid estava causando um dano quase irreparável no meu organismo", revela.

Depois do comprometimento do pulmão, Duda precisou ser intubada . Ela afirma que não lembra detalhes de como aconteceu, apenas que foi necessário. "A gente sabe que, no Brasil, a taxa de pessoas que retornam de uma intubação é muito pequena", conta. A apresentadora disse, ainda, que seu marido teve uma preocupação e um sofrimento sem igual. 

A esposa estava na UTI e as duas filhas, também

O pai das meninas também tinha acabado de se recuperar da Covid-19 e acompanhava o tratamento da mulher e de Raphaella e Manuella.

Nascimento das filhas por videochamadas

Duda e o marido logo após a alta médica (Foto: Arquivo Pessoal)
Duda e o marido logo após a alta médica (Foto: Arquivo Pessoal)

Antes da intubação, ela conseguiu acompanhar, de longe, os primeiros dias das filhas, através de chamadas de vídeo. "Elas ficaram apenas uma semana no oxigênio, mas não precisaram de nenhum outro equipamento. Aos poucos, a alimentação foi introduzida e, a partir daí, tranquilizei meu coração". Apesar do mínimo contato, ela relembra que, desde o nascimento, não pode pegar as filhas no colo: "Foi o momento mais sofrido, o meu desespero e a minha dor". "Eu imaginava que estava com os dias contados para ver as crianças, mas não foi como eu esperava".

Enquanto permaneceu intubada, as chances de sobrevivência eram quase mínimas. Duda Rodrigues relembra que os médicos chegaram a dar apenas 15% de expectativa - o que aterrorizou a família. Mas relembra que o apoio e cuidado médico foram fundamentais: "Meus médicos, Diego, pneumologista, e Fernando, cardiologista, foram verdadeiros anjos. Eles passaram a ter mais contato com a família e fizeram de tudo para que o meu tratamento fosse bem sucedido".

Ela saiu do tratamento intensivo e os traumas começaram a aparecer; ela relembra que teve confusões mentais, surtos psicóticos e que teve inúmeras reações. "Eu passei quatro dias amarrada, porque estava agressiva. Nesse momento, eu só pensava nas minhas filhas, porque eu estava totalmente perdida e não sabia da intubação, mas sabia que precisava criar duas meninas lindas".

Amamentação

Você, como leitor, pode se perguntar: mas como as meninas foram amamentadas durante o período em que ficaram afastadas da mãe? A resposta é simples: fórmulas. Apesar de Duda carregar bastante leite materno, ela revela que sempre foi consciente sobre a amamentação. A gestação de risco já alertava sobre a possível introdução de leite extra e, antes mesmo dos nascimentos, ela já internalizou isso.

Atualmente, Duda ainda produz líquido, mas, mesmo assim, não pode amamentar as gêmeas. "Depois de tudo, ainda tenho bastante leite, mas continuo em um processo de tratamento. Hoje em dia, tenho 50% do pulmão comprometido e, ao lado dos médicos, decidimos manter as crianças na fórmula", revela. "Compreendo que é mais saudável elas continuarem com o leitinho delas e eu prefiro não comprometer a saúde de ambas". "Elas estão crescendo, engordando e ficando lindas", diz.

Maternidade e recuperação

Depois de todo o sofrimento, a apresentadora não consegue enxergar dificuldades na conciliação de maternidade e recuperação pós-Covid. "Diria que está sendo a parte mais fácil, porque eu pedi tanto para ter as minhas filhas que, hoje, não há dor, sangramento, dor nas costas ou nas pernas, na alma, não há psicose e trauma que sejam maiores do que o amor, a paciência e a realização em poder cuidar das joias que eu tenho".

Duda ainda reforça que não se arrepende em ter demorado para tratar a Covid-19. "Elas nasceram com 34 semanas, precisaram de um processo de respiração. Mas, a minha decisão de priorizar as minhas filhas, fez com que elas nascessem muito bem. Nós não precisamos sofrer as consequências de nada e é isso que importa".

O trauma pós-Covid

Após os sustos, a apresentadora afirma que ainda tenta assimilar tudo. "Estou tentando entender muita coisa. Foi tudo muito sofrido e é uma mistura de perda, de revolta e medo. Me revolto em ver que muitas pessoas ainda não se conscientizaram para a pandemia". "A mistura de sentimentos só me reforça que a humanidade ainda precisa mudar e melhorar muito", alerta.

E, como um último recado, ela faz um apelo: "Solidariedade, amor ao próximo e compaixão". Não virar estatística quando o número de mortos no Brasil por conta do vírus chega aos 384 mil, de fato é um feito. Mas as sequelas permanecem. É livramento da morte, mas um caminho para sobreviver, e viver. 

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