Com boom de vendas na pandemia, seria a bike o veículo do futuro?

Larissa Coldibeli
·7 minuto de leitura
(Foto: Getty Images)
(Foto: Getty Images)

A pandemia de Covid-19 provocou um boom de vendas nunca antes visto no mercado de bicicletas. Por conta das recomendações de distanciamento social, muita gente passou a usar a bike como meio de locomoção alternativo ao transporte público, por exemplo, ou como opção de lazer e atividade física. A procura foi tanta que faltou produto nas lojas. As fábricas ainda sofrem com a dificuldade de importações por questões logísticas e com a concorrência do mercado internacional, já que a corrida por bicicletas foi um fenômeno global.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Siga o Yahoo Finanças no Google News

No Brasil, ao longo de 2020, o setor comemorou recordes: em maio e junho, o aumento nas vendas foi de 50% em relação ao mesmo período de 2019. Em julho, a alta foi de 114% e, em agosto, de 93%. Em setembro e outubro, o crescimento foi de 64% em comparação com os mesmos meses de 2019 (os números totais de 2020 ainda não foram consolidados). Os dados são da Aliança Bike (Associação Brasileira do Setor de Bicicletas).

Leia também

“O boom que o mercado de bikes viveu em 2020 foi algo inédito. Os números não traduzem o tamanho da procura, pois problemas no fornecimento da cadeia produtiva impediram muitas vendas”, diz Daniel Guth, diretor-executivo da Aliança Bike.

Quais são as perspectivas para o setor daqui para frente?

Segundo Guth, ainda não é possível afirmar se as bikes vieram para ficar, pelo menos no Brasil.

“Os lojistas nos dizem que as pessoas estão comprando bikes, mas não estão comprando acessórios, o que dá a entender que elas não estão usando tanto a bicicleta ou não como deveriam. Faltam indicadores para determinar se as pessoas vão, de fato, introduzir a bicicleta em suas vidas. Não temos dados consolidados sobre aumento do uso como meio de transporte, não temos números de eventos de ciclismo, pois os eventos não estão acontecendo por causa da pandemia, faltam referências”, pontua.

Loja King Bike, em São Paulo (Foto: Divulgação)
Loja King Bike, em São Paulo (Foto: Divulgação)

O mercado segue aquecido, de acordo com Daniel Douek, diretor da Isapa, distribuidora de peças e acessórios de bicicletas, e da fábrica de bikes Oggi. A dificuldade para ele, porém, é a alta dos preços das matérias-primas importadas e do frete.

“Acredito que, em algum momento, o mercado vai se estabilizar, até mesmo por causa da alta nos preços. Esperamos que essa acomodação ocorra em patamares um pouco acima do que estava antes da pandemia”, diz Douek.

Essa também é a expectativa de Graysson Graça de Carvalho Júnior, que tem 30 anos no setor e é dono da loja King Bike, em São José dos Campos (interior de São Paulo). “Muita gente descobriu um esporte bacana, acho que a bicicleta vai ficar mais forte do que antes. Mas não podemos ignorar a crise econômica. Eu ainda não repassei o aumento de preço para meus clientes, estou fazendo reposições mínimas, então é difícil fazer projeções de longo prazo”, afirma o lojista.

Propostas para incentivar o uso da bike

Para o diretor da Aliança Bike, a adesão à bike depende de dois fatores principais: a experiência pessoal, ou seja, se a pessoa experimentou a bicicleta e considerou que ela atende suas necessidades; e a infraestrutura dos lugares, sejam eles cidades ou trilhas de cicloturismo, o que depende dos governos.

“Infelizmente, o poder público não fez sua lição de casa na pandemia, considerando o aumento do consumo de bikes. As políticas públicas não acompanharam a tendência. Como associação, a gente lamenta ter perdido a oportunidade de dar um salto no uso das bicicletas, já que a infraestrutura não acompanhou o interesse das pessoas”, afirma Guth.

Para tentar agir nessa causa, a associação elaborou um conjunto de propostas que poderiam ser implementadas pelo poder público para estimular o uso das bicicletas durante a pandemia e depois dela. Veja quais são:

  1. Ampliar rede de ciclovias, ciclofaixas, bicicletas compartilhadas e bicicletários permanentes nas cidades brasileiras, além de permitir maior acesso de bicicletas ao transporte coletivo (intermodalidade).

  2. Reduzir a carga tributária sobre as bicicletas, para que a população tenha acesso a bicicletas mais baratas e de maior qualidade.

  3. Criar uma rede extra de ciclovias e ciclofaixas temporárias, nas cidades brasileiras, para auxiliar os trabalhadores de atividades essenciais durante a pandemia e no processo de saída dela.

  4. Criar uma linha de crédito atrativa, junto aos bancos públicos, para financiamento de aquisição de bicicletas e bicicletas elétricas pela população brasileira.

  5. Distribuir um voucher de R$ 100 para custear especificamente a revisão e o conserto de bicicletas usadas pela população.

  6. Alterar legislação trabalhista para obter pleno reconhecimento da bicicleta como meio de transporte por trabalhadoras e trabalhadores, incluindo a manutenção do vale-transporte pelo uso de bicicleta.

  7. Criar uma política nacional de ciclologística para estimular e dar segurança às entregas feitas em bicicletas em todo o país – desde sempre consideradas um serviço essencial.

  8. Criar políticas públicas (nacionais e regionais) para desenvolvimento do cicloturismo, como forma de aquecer o turismo no país com segurança e distribuição de renda.

  9. Ofertar mais áreas para o ciclismo esportivo e para o lazer em todo o país.

  10. Criar um programa nacional de fortalecimento da economia verde, estimulando setores produtivos que contribuem ativamente para o combate às mudanças climáticas

Bons exemplos internacionais

Muitas dessas medidas já foram implementadas no exterior, principalmente na Europa. Portugal, Itália, França, Reino Unido, Alemanha, Holanda e Bélgica são alguns lugares que estão incentivando ativamente o uso da bicicleta, seja ampliando as vias para ciclistas, seja oferecendo reembolso parcial para quem compra uma bicicleta, entre outros estímulos.

“Investir em bicicleta é estratégico, ela não é mais um bem de consumo, é uma mudança de paradigma. Os mais jovens não querem mais ter um carro, eles querem se relacionar de outra forma com as cidades. A bike ajuda a resolver o problema da mobilidade urbana, reduz as emissões de poluentes, colabora para a saúde”, destaca Guth.

Esses são só alguns benefícios da bicicleta, sem contar o aspecto econômico, com a economia para os usuários e com a geração de renda e empregos no setor e em atividades como o cicloturismo. As oportunidades são muitas. Um estudo desenvolvido pela Aliança Bike e Labmob/UFRJ mapeou quase 9 mil lojas especializadas e mais de 14 mil empregos formais diretos gerados no país.

Falta de incentivos e reconhecimento

Durante o boom, os produtos mais procurados foram as chamadas bicicletas de entrada, entre R$ 800 e R$ 2.000, para uso urbano. Mas outro segmento em ascensão, mas que precisa de incentivos, é o de bikes elétricas. Entre 2016 e 2019, a categoria teve crescimento médio de 34% ao ano. Para 2020, mesmo com os impactos causados pela pandemia do novo coronavírus, os dados apontam um crescimento contínuo e sustentado, segundo a Aliança Bike.

Electric bicycle outdoors
Electric bicycle outdoors

A carga tributária é, sem dúvidas, um dos principais entraves para o avanço do mercado de bicicletas elétricas no Brasil. Na parte fiscal, as bikes elétricas são equiparadas a ciclomotores e não a bicicletas convencionais. Ao todo, os impostos relacionados a este meio de transporte alcançam 85% do custo final. De acordo com o levantamento, 90% dos ciclistas que utilizam bicicleta elétrica acreditam que o preço mais acessível faria com que mais pessoas comprassem bicicletas elétricas.

“Rum, whisky, bala para armamentos, fogos, nenhum desses produtos paga tanto IPI [Imposto sobre Produtos Industrializados] quanto uma bike, o que é mais um indicador de que o governo não tem ideia da importância da bicicleta para a economia. Com a pandemia, vai haver um empobrecimento das famílias, as pessoas não têm dinheiro para a passagem do transporte público, e a bike é inclusão social e garantia de direitos humanos fundamentais. Transporte é um direito constitucional. Essa discussão não existe aqui no Brasil, mas sou otimista, acredito que essa compreensão está aumentando”, diz Guth.

Esta matéria faz parte do especial "Perspectivas: como a Covid transformou o mundo". Nele, projetamos as grandes mudanças que 2020 desencadeou nos próximos cinco anos. Acompanhe outras projeções.

Assine agora a newsletter Yahoo em 3 Minutos

Siga o Yahoo Finanças no Instagram, Facebook, Twitter e YouTube