Com ajuda de vaquinha, Festival do Rio sai no lucro após corte de verba

BRUNO GHETTI

FOLHAPRESS - Para um evento que quase não aconteceu, o 21º Festival do Rio ficou no lucro. Não exatamente financeiro -a edição, aliás, só ocorreu graças a contribuições econômicas de última hora, inclusive as possibilitadas por uma "vaquinha" virtual cinéfila. Mas, levando em conta as limitações geradas por um caixa à míngua, o evento transcorreu com dignidade e sem grandes percalços. Após 11 dias, chegou ao fim nesta quinta (19) com as premiações na mostra Première Brasil, voltada a filmes nacionais. Venceu o troféu Redentor o longa "Fim de Festa", do pernambucano Hilton Lacerda, sobre um homem que investiga a morte de uma turista assassinada a pauladas, após intenso Carnaval. Também premiado pelo roteiro, o longa é o primeiro de Lacerda desde o aclamado "Tatuagem". O prêmio de melhor documentário foi para "Ressaca", de Vincent Rimbaux e Patrizia Landi, um registro da aflição dos membros do corpo artístico do Theatro Municipal do Rio quando tiveram o seu salário suspenso. A dupla também levou o troféu de melhor direção em documentário, enquanto Maya Da-Rin foi escolhida a melhor diretora de ficção, por "A Febre". Entre outros contemplados, Reginá Casé foi eleita a melhor atriz, por "Três Verões", e Fabricio Boliveira, por "Breve Miragem de Sol", foi escolhido o melhor ator. Ao lado da Mostra de São Paulo, o Festival do Rio é a mais importante maratona de cinema do país. Mas que veio bem mais mirrada desta vez do que em anos anteriores -em 2019, trouxe pouco mais de cem produções estrangeiras, menos de um terço do que já exibiu em tempos mais megalômanos. O número de convidados estrangeiros também despencou. Nos tempos de fartura, eram mais de 50 por edição -pelo tapete vermelho da Cinelândia, já desfilaram de Jeanne Moreau a Kylie Minogue, passando por Willem Dafoe. Neste ano, foram apenas oito, sendo o mais ilustre o cineasta português Pedro Costa -que, embora seja um deus para a cinefilia mais empedernida, é um nome que não diz nada para o grande público. Mas a falta de gigantismo tem suas vantagens: implica menos problemas organizacionais e mais "calor humano". Em tom mais intimista, o festival viu na boa vontade do público um fator decisivo. O festival aconteceu muito bem, na avaliação de Ilda Santiago, diretora do evento, após a maratona 2019. Segundo ela, ter visto a alegria do público e dos profissionais do cinema "valeu todo o esforço", disse, em referência à corrida para viabilizar a edição. Desde que a Petrobrás, tradicional patrocinadora do evento, cortou o financiamento a projetos culturais, o festival se viu ameaçado. Em setembro, Santiago anunciou publicamente que não haveria a mostra caso novos patrocinadores não dessem algum aceno. Foi aí que várias pessoas (físicas e jurídicas) se mobilizaram e levantaram em crowdfunding mais de R$ 600 mil para garantir a festa. O restante do que faltava surgiu com a entrada em cena de novas empresas apoiadoras. Assim, ainda que com poucos títulos, o evento conseguiu garantir alguns filmes exclusivos. Foi em salas cariocas que tiveram sua première no Brasil obras badaladas, como "O Escândalo", de Jay Roach, que pode dar à atriz Charlize Theron sua terceira indicação ao Oscar, e "Jojo Rabbit", de Taika Waititi, provável indicado à estatueta como melhor filme. Fora outras obras importantes que já haviam sido exibidos na Mostra de São Paulo, mas que ainda estavam inéditas no Rio, como "O Farol", do americano Robert Eggers, "O Jovem Ahmed", dos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne e "O Paraíso Deve Ser Aqui", do palestino Elia Suleiman. "Durante o crowdfunding, muita gente nos contatava otimistas, dizendo: 'O Festival vai acontecer, As empresas que patrocinarem sabem que vão ganhar nossa lealdade'", diz Santiago. "Já estamos trabalhando em prol do ano que vem", complementa a diretora, contando com que as novas parcerias se repitam e mostrando abertura a conversas com interessados em apoiar um eventual 22º Festival do Rio.