Colson Whitehead troca as tragédias pelos dilemas de um trapaceiro no Harlem

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Eu posso estar fodido às vezes, mas não sou sacana", pensa Ray Carney, protagonista de "Trapaça no Harlem", depois de se safar por pouco de um esquema malsucedido. "Embora tivesse que admitir que, de vez em quando, era", o narrador acrescenta em seguida.

É nessa corda bamba moral que se equilibra o romance mais recente do americano Colson Whitehead, premiado com dois prêmios Pulitzer por "The Underground Railroad" e "O Reformatório Nickel".

Agora, ele muda de tom, mas não doma a ambição --tem colhido elogios igualmente entusiasmados pela história de Carney, o honesto vendedor de móveis que, metido em roubos épicos no Harlem dos anos 1950 e 1960, vai se mostrando confortável demais na desonestidade.

"Eu gostava das possibilidades metafóricas na ideia de um homem em cima do muro", diz o escritor, quando o repórter pergunta por que ele preferiu que o protagonista se dedicasse a uma carreira legítima e não fosse um malfeitor completo.

"Parte do drama é ter dentro de você essas duas personalidades e decidir quem você é. No retrato que o mundo tem dele, Carney é um membro da comunidade, mas por dentro ele luta o tempo todo com um lado sombrio."

Carney passa boa parte do livro refletindo sobre essa área cinzenta, assustado com esse duplo que surge por baixo dos panos. Afinal, ele é o pai de família, proprietário suado de uma prestigiada loja de móveis, ou o receptador de muamba que "caiu de algum caminhão"?

"Nem todos somos assassinos ou criminosos como algumas pessoas do livro, mas todos nós, como Carney, nos debatemos pensando qual a maneira certa de estar no mundo, como conter nossos piores impulsos e estar à altura do que queremos para nós."

O romance oferece uma bela imagem ao discutir esse chiaroscuro. "Todo mundo tinha esquinas e alamedas secretas que ninguém vê --o que importava eram as ruas principais e os boulevards, as coisas que apareciam nos mapas que os outros faziam de você."

O livro tem prazer em percorrer as vielas escondidas, tanto as da Nova York da época, minuciosamente descrita em cada detalhe de mobília, quanto as do caráter de seus personagens.

Carney divide as ruas com seu primo Freddie, que sempre o mete em roubadas pedindo desculpas por sempre meter todo mundo em roubadas, o ex-militar Malagueta, homem soturno que foi colega de golpes do pai de Carney, e o policial Munson --que, ao ouvir que um outro personagem devia ir para a cadeia, retruca "se ser vigarista fosse crime, todos nós íamos estar presos".

Afinal, numa cidade que se move por meio de envelopes sorrateiros de dinheiro, dá para subir na vida sem ser corrupto? E mais do que isso --faz sentido tentar? É uma questão ainda mais aguda quando se é negro de pele escura, como o protagonista, e a maioria das portas se fecha antes que você abra a boca.

Whitehead já afirmou que vê a história dos Estados Unidos contada por pessoas negras como diferente daquela registrada pelos brancos, algo que fica bem evidente em "The Underground Railroad", a tétrica e fascinante narrativa de escravidão adaptada por Barry Jenkins para uma série na Amazon indicada ao Emmy.

O romancista, aliás, começou sua carreira como crítico de televisão no extinto jornal nova-iorquino The Village Voice, o que revela de cara o seu ecletismo --a pessoa que escreveu as palavras irrespiráveis de "The Underground Railroad" não parece a mesma que recheia "Trapaça no Harlem" de comentários engraçadíssimos.

Numa cena tensa no primeiro ato do livro, um assassino armado vem à loja de móveis do protagonista e, ao se sentar num sofá, se surpreende com o conforto. Carney, então, luta para resistir ao "impulso de vender o estofado aerado".

É fácil criar afeição por um personagem que traz leveza a situações pesadas e consegue sempre encontrar um jeitinho de se dar bem no final --especialmente neste país que consagrou a carismática figura do malandro. Mas esse poder de sedução é mundial, como atesta Whitehead --que decidiu fazer a primeira sequência de sua carreira para seguir acompanhando os dilemas de Carney na década de 1970.

"É a primeira vez que me senti tão cativado por um personagem e seu mundo que quis continuar com ele", confessa. "Tenho a regra de não fazer a mesma coisa duas vezes e pensei que talvez fosse hora de quebrar isso. Além disso, a cidade de Nova York é outra nos anos 1970, é um ambiente bem diferente para Carney. Então serão golpes diferentes."

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