Já pensou pagar R$ 2300 para morar com desconhecidos no meio da pandemia?

É possível morar com estranhos? Foto: DIOGO PEREIRA

Por Laura Reif (@lau.reif)

Morar no centro em São Paulo, ao lado do metrô, próximo de centros culturais e ter as ruas com casas noturnas a poucos quarteirões de distância é o sonho de muitos. Mudança que requer planejamento, pesquisa e, de preferência, uma sociedade que não está em isolamento social devido a uma pandemia. Yahoo! conversou com três moradores de um coliving no bairro da Bela Vista, São Paulo, para saber como está sendo para eles que realizaram este sonho poucos dias antes do início do isolamento social. 

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Moradia compartilhada, ou coliving, é diferente que dividir um apartamento com amigos. A ideia é compartilhar o espaço com outros moradores, não necessariamente amigos ou conhecidos, cada um com o próprio quarto, sendo o restante do apartamento de uso comum. Yuca é um dos empreendimentos que oferecem essa experiência para quem quer morar em São Paulo em apartamentos reformados, com chão de taco, bem decorados, mobiliados, equipados com internet e samambaias, próximos a estações de metrô como Brigadeiro e Trianon-Masp, na Avenida Paulista. Os valores para se tornar um "Yuker", são a partir de R$ 2300 por pessoa. 

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A advogada Katherine Borges, 28, mudou para o apartamento compartilhado em 21 de março. "Sou de São Paulo, mas quis morar em um lugar perto do trabalho", conta. Agora, assim como seus outros três colegas de convívio, ela está trabalhando de casa desde o início do isolamento social. "Conheci eles aqui mesmo. Meu contrato do outro apartamento estava acabando, ia ficar sem casa", explica. 

Quando Katherine entrou no apartamento, dividia com um outro morador que estava ali desde o início de março. Pouco tempo depois, o terceiro também fez a mudança. "Confesso que achei bom porque não queria ficar em um apartamento sozinha. Há movimentos, barulhos, alguma coisa que indique vida. Sou muito tranquila, acho até melhor do que morar com família. É mãe, irmão, filho... aqui não importa muito se vocês se gostam ou não, a gente se respeita. Deu certo, achei uma coisa boa", conta.

A mais nova moradora do apartamento é a consultora de gestão Mariana Sales, 30, que se mudou no dia 12 de junho. Ela diz ter questionado se deveria ou não apostar na nova moradia nesse momento, mas decidiu arriscar. "Rolou um pouco de dúvida, emprego novo, processo de mudança, saí um pouco da minha rede de apoio. Não conhecia ninguém, mas fiquei encantada com o apartamento. Conheci eles hoje e foram super receptivos", diz.

Regras de convivência

É possível morar com estranhos? Foto: DIOGO PEREIRA

O biólogo de Santa Catarina Jackson Simionato, 22, se mudou no início de março, com Katharine. No valor do aluguel, está inclusa faxina semanal, que está suspensa por conta do novo coronavírus, então eles precisam organizar a limpeza entre si. "A gente nunca teve que falar que precisava lavar a louça depois de comer, é bom senso. A gente não fez um livro de regras. Combinamos de cada um fazer a limpeza geral por uma semana", explica. O serviço pode estar suspenso, mas os moradores estão recebendo todos os produtos de limpeza, com as devidas instruções de uso, até que seja possível retomar as atividades.

"Quando morei com amigos durante a faculdade deu muito problema com isso, mas aqui não. Conheço muita gente que foi morar com o melhor amigo e hoje em dia não consegue conversar mais. Acho que esse lance de não se conhecer direito até que ajuda bastante. Tem que manter uma ordem", completa. 

Expectativas canceladas

É possível morar com estranhos? Foto:DIOGO PEREIRA

O retorno das atividades não essenciais está com o futuro incerto. Bares e espaços culturais são algumas das atividades que terão maior demora para retomar. "Eu sempre quis morar em São Paulo porque gosto muito de ir em shows. Tem muita coisa cultural para fazer. A experiência de morar na minha própria casa aqui e ter essa liberdade, eu nem tive. Mas me adaptei bem. Nesse sentido, está sendo ruim, mas não posso reclamar", conta Jackson. 

Mariana é baiana, mas veio do Espírito Santo, onde trabalhava, para São Paulo por conta de um novo emprego. "Vivenciar São Paulo estava nos planos, é uma cidade fora do comum, e, infelizmente, veio a pandemia. Queria conhecer a cidade, ter uma relação com os colegas novos de trabalho. Estou morando pertinho do Instituto Moreira Salles, do MASP, e não vou poder ver, né? Ou sair com os amigos, ir num barzinho", explica.

O lado bom

Apesar da pausa na vida cultural e noturna da cidade, o coliving foi uma ferramenta útil para lidar com a solidão do isolamento social. O community manager da Yuca, Dimitri Fernandes, conta que a empresa realizou uma pesquisa para entender as necessidades dos novos moradores que devem fazer mudança nos próximos meses. Os apartamentos são reformados pela Yuca e agora eles estudam como tornar a estação de home office de cada quarto mais confortável, por exemplo.

"Teve gente que voltou para a casa dos pais nesse período, mas muitas ficaram. Tanto as que voltaram da casa dos pais, quanto as outras, tinham a questão da solidão no isolamento social. Elas preferiram voltar ou ficar porque, mesmo estando isolados, faz muito sentido estar compartilhando com outras pessoas. Dá uma sensação de segurança maior do que ficar sozinho em um apartamento", explica. 

"Busquei não morar sozinho porque eu vim de outro estado, se morasse sozinho, não ia criar vínculo social aqui. Isso bem antes da pandemia, a gente nem fazia ideia de que isso iria acontecer. Achei que seria interessante dividir apartamento com alguém, para ter uma chance de criar novos vínculos em uma nova cidade", conta Jackson.