‘Coisa mais linda seria toda mulher ter dignidade respeitada’, define Maria Casadevall

(Foto: Alexandre Schneider e Mauricio Santana / Netflix)

Comparar a sociedade brasileira de 1959 com a de 2019 é um exercício inevitável diante de ‘Coisa Mais Linda’, produção original Netflix que chega à plataforma de streaming na nesta sexta-feira (22). Os sete episódios da primeira temporada lidam com questões de classe e raça e ainda carregam uma aura feminista, mesmo que tal palavra nunca seja dita no roteiro, e ganham força no momento em que estes temas viraram pauta recorrente na mídia, mesmo que a ação se passa seis décadas atrás.

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“O mais surpreendente dessa história toda foi a gente perceber que não estava tão distante do que estava escrito num roteiro que se passa sessenta anos atrás”, diz Pathy Dejesus, que interpreta uma das protagonistas, durante mesa redonda com jornalistas na última semana em São Paulo, da qual o Yahoo! participou.

“A gente não pode ignorar as conquistas feitas lá atrás, que nos permitem estar aqui, mas a série também é genial nisso, de você conseguir identificar coisas que acontecem hoje. Você pode trocar só as personagens e os figurinos, mas os diálogos e os problemas ainda cabem. Talvez apenas maquiados de outra forma”, resume.

A personagem de Pathy é Adélia, uma empregada doméstica acostumada a ser tratada como cidadã de segunda ordem pelos patrões, até que um encontro com Maria Luisa (Maria Casadevall) muda sua vida. Juntas, elas querem montar um clube de música no Rio de Janeiro, enfrentando a desconfiança de quase todos ao redor.

A relação profissional e de amizade entre as duas não é um mar de rosas, já que ficam claros conflitos provenientes de suas formações: enquanto uma mora no morro carioca e não sabe ler nem escrever, outra vem de uma família rica paulistana. Numa das cenas mais fortes da série, no terceiro episódio, uma forte discussão ameaça colocar fim à parceria. “É um presente você, nos dias de hoje, protagonizar um diálogo como esse. Podia ir para o novelesco, e não é”, celebra Pathy.

“Série não é panfletária”

“O maior desafio lendo o roteiro foi olhar para a Maria Luísa menos com o meu olhar de hoje”, ressalta Maria Casadevall, atriz cada vez mais marcada pelo posicionamento feminista, como demonstrou ao sair de topless num bloco de São Paulo durante o último Carnaval. “Não quis em nenhum momento atravessar a minha construção da Maria Luísa com o processo que eu estou vivendo”, afirma.

Sua personagem começa ‘Coisa Mais Linda’ abandonada pelo marido infiel, numa posição de indefinição em relação ao futuro. “Construí-la pensando como é este corpo submisso, que se submete à autoridade do pai, da sociedade, do poder masculino de maneira geral”, explica a atriz. Durante entrevista coletiva ocorrida mais cedo, no mesmo dia, Casadevall já havia aproveitado para mandar recado semelhante, fazendo um jogo de palavras com o nome da série: “Coisa mais linda seria toda mulher do nosso país ter a dignidade respeitada, assim como a integridade física de seus corpos e de suas escolhas”, relacionou.

Já Fernanda Vasconcellos interpreta Lígia, mulher que abriu mão do sonho de ser cantora para satisfazer a vontade do marido. Os contornos abusivos do casamento vão sendo revelados durante a sequência dos episódios, num contexto cada vez mais violento e que a personagem demora a reagir. A atriz fala sobre como essa escolha condiz com os níveis aos quais pessoas nesta situação encaram a realidade que vivem.

“O primeiro nível é a negação. Depois você se abre pro diálogo, começa a enxergar, passa pela aceitação, até encontrar sua liberdade. A Lígia tem essa curva dramática, e a gente conhece esse personagem justamente quando ela está nesse momento em que ela não enxerga onde está inserida”, reflete.

Mel Lisboa completa o quarteto de protagonistas, como uma mulher que volta ao Brasil após anos morando em Paris. A experiência na capital francesa fez com que a personagem abrisse a cabeça para ideias como o casamento aberto e a ascensão profissional do sexo feminino, pensamentos ainda hoje longe de estarem completamente assimilados por aqui.

“A série não é panfletária”, garante Mel. “Ela está num lugar em que agrega e abra as portas para a conscientização. Eu acho que isso é muito potente, muito rico”. Fernanda concorda: “Não é uma série feita para mulheres. É uma série feita também por mulheres. Não acredito que o antagonista seja o gênero masculino. É uma série que traz uma reflexão mesmo, mais do que uma resposta pronta ou um livro de regras a se seguir”.

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