O que nossos clubes ganham ao se transformarem em empresas?

(Foto: AGIF)


Por Caio Calazans (@Cabrito13)

Arenas multiuso, ciência a serviço da medicina esportiva e preparação física, marketing para de angariar receitas, tecnologia na venda de ingressos e maior fiscalização com relação a segurança nas arquibancadas são algumas das transformações pelas quais o futebol passou nas últimas décadas. O próximo passo, a mudança no regime de gestão dos clubes facilitando o clube empresa é um debate que voltou à pauta no Brasil atualmente. Governo, Senado, Câmara dos deputados, CBF, clubes e federações buscam uma forma de tornar ideia viável no país. Afinal, o que nossos clubes ganham ao se transformarem em empresas?

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Mudar o atual modelo de associações sem fins lucrativos para sociedades anônimas, com possibilidade de terem um dono, receberem investimentos privados com maior facilidade e até lançar ações no mercado financeiro é o principal objetivo deste movimento. Na Câmara dos deputados, um projeto do deputado Pedro Paulo (DEM-RJ) ganhou o apoio do presidente da casa Rodrigo Maia, que já visitou a CBF e clubes como o São Paulo para discutir como levar a ideia para a frente. No Senado Federal, a proposta que institui a Lei Geral do Esporte, parada há algum tempo, chamou a atenção de parlamentares e trouxe à tona a discussão.

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Desde a criação da Lei Pelé (1998) cogita-se a metamorfose de nossos grandes clubes para o modelo empresarial. Porém há grandes obstáculos que nunca foram superados. Talvez o maior deles seja o tributário. Para Fernando Trevisan, especialista em marketing esportivo e diretor da Escola Trevisan de Negócios, muitos clubes não veem vantagens em mudar: “a imensa maioria dos clubes no Brasil está no modelo associativo principalmente por conta da questão tributária; como entidade sem fins lucrativos os clubes são isentos total ou parcialmente de alguns impostos, o que não acontece no formato 'empresa'”.

Um dos principais pontos em discussão é a criação de um regime tributário especial para os clubes que optarem pelo modelo empresa. O projeto de Lei Geral do Esporte propõe um modelo de sociedade anônima específica para clubes de futebol. Por conta das dificuldades burocráticas típicas do Brasil, nunca houve um clube grande no país que tivesse adotado o modelo de empresa. No passado, as parcerias entre empresas e times foram adotadas para trazer investidores, mas sem mudar a forma administrativa das equipes. Palmeiras, Corinthians, Cruzeiro, Grêmio, Flamengo e Vasco foram clubes que tiveram parcerias entre os anos 1990 e 2000.

“O formato associativo não permite a entrada direta de investidor. É uma entidade de caráter social, sem finalidade lucrativa, que não possui “ações” ou “cotas” para serem compradas, como ocorre numa empresa limitada ou sociedade anônima. Assim, um investidor só pode entrar num clube existente se ele já tiver o formato “empresa” ou se o clube tradicional constituir uma sociedade empresarial distinta para administrar o futebol, como ocorreu com o Botafogo Futebol Clube e o Figueirense", explicou Trevisan. Portanto para os clubes nacionais, hoje não é vantajoso perder as vantagens de isenção de certos impostos que seriam cobrados para empresas. Diferente do proposto pela na Lei Pelé, a nova regulamentação tornaria opcional aos clubes tornarem-se ou não empresas.

Afora maior facilidade em receber investimentos, parcelamentos especiais para débitos com o governo estão sendo discutidas. Mesmo com a criação do Profut em 2015, os clubes acumularam ainda mais dívidas em tributos como INSS, CSLL Imposto de Renda, PIS e FGTS. De um total de 18 clubes das Séries A e B contraíram mais de 2 bilhões de reais em dívidas com o Governo Federal após o Programa. Há quem defenda mudanças na CLT para atletas de futebol. Fernando Trevisan entende que é positivo mas alerta para outras realidades: "Alguns atletas dos principais clubes do Brasil já há alguns anos deixaram de ser apenas funcionários para serem celebridades, com exploração monetária das suas imagens, muito mais próxima de uma relação comercial entre pessoas jurídicas do que entre empregador e empregado. De qualquer forma, isto deve ser feito com muito cuidado, já 99% dos jogadores dos mais de 600 clubes existentes no país estão numa realidade muito mais delicada".

Com a opção de manter-se no modelo atual, os clubes podem ponderar bem as possibilidades antes de decidirem mudar para empresa. Hoje, Botafogo e São Paulo demonstram interesse na mudança, outros clubes, como o Corinthians não veem vantagens. Fernando não vê apenas a mudança de regime como milagre administrativo: "A situação atual do Figueirense, com salários atrasados e greve de jogadores mostra que a transformação em empresa não é condição suficiente para que o clube se modernize e alcance sustentabilidade financeira".

Transformado em sociedade anônima em 2017, dois anos depois, o Figueirense enfrenta um distrato que ameaçou tirar o clube da Série B, que geraria uma suspensão de dois anos em qualquer campeonato oficial ou de base. Um projeto que se revelou desastroso para o clube. Por outro lado, o Bragantino, líder da Série B e caminhando a passos largos para a divisão de elite do futebol brasileiro pode ser um exemplo positivo. O clube do interior paulista cedeu a administração do departamento de futebol por dez anos à empresa Red Bull. A empresa austríaca possui outros quatro clubes: New York Red Bull, Red Bull Leipzig, Red Bull Salzburg e o Red Bull Bragantino.

Outras empresas como a City Fotball Group, detentora de clubes como Manchester City, Girona da Italia e o australiano Melbourne FC, e a Suning Holdings, proprietária da Internazionale de Milão e do chinês Jinagsu Suning são corporações multimilionárias que podem eventualmente se interessar em investir no futebol brasileiro. O tradicional modelo de associação sem fins lucrativos, no entanto, pode se mostrar muito bem sucedido. Os dois clubes mais ricos do Brasil, Flamengo e Palmeiras, além de clubes como Real Madrid e Barcelona, são dirigidos desta forma.

Não é possível saber o que sairá das deliberações para incentivar nossos times a mudar suas estruturas. Independente disso, certas práticas precisam mudar para que qualquer regime de gestão funcione. Instituir práticas de transparência, ética e sustentabilidade financeira com profissionais preparados para criar uma gestão moderna são ações que podem ser realizadas não importando a forma da instituição. Os clubes empresa podem ser um marco importante para o futebol brasileiro. Mas se não vier acompanhado de uma mudança geral de costumes na administração futebolística pode se tornar apenas uma solução paliativa ou até piorar o que já está ruim.

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