“Clóvis Moura foi importante para mostrar quem são os negros”, define pesquisador

Para escritor, Clóvis foi um dos grandes pensadores sobre o racismo estrutural e o papel dos negros na dinâmica da luta de classes do Brasil. (Foto: Acervo pessoal)

Texto / Lucas Veloso | Edição / Vinicius Martins

Eram meados dos anos 2000 quando o pesquisador e escritor Marcio Farias descobriu um dos principais estudiosos sobre os negros no Brasil. O nome dele era Clóvis Moura.

Farias lembra que era jovem, com muitas perguntas sobre o mundo. Na época alguns amigos que formavam o coletivo chamado Força Ativa, grupo de militantes ligados ao pensamento de esquerda, indicaram a leitura do livro “Rebeliões na Senzala”. Os colegas disseram a ele que o autor já havia respondido algumas dúvidas.

“Moura deu grandes contribuições para o desenvolvimento das ciências sociais no Brasil. Tornou-se um pensador complexo que elabora sua obra com uma certa compreensão de mundo e ser humano”, define Farias. “Seu trabalho foi, e permanece, fundador, uma vez que se debruçou sobre a investigação dos paradigmas científicos no país”.

Em setembro deste ano, Márcio lançou o título “Clóvis Moura e o Brasil: ensaio crítico de Márcio Farias”. Na obra, o pesquisador traça a produção de Clóvis Moura.

No livro, Márcio Farias faz um ensaio crítico sobre a relevância de Clóvis Moura para entender a construção do Brasil e como o racismo pode ser combatido. Entre as produções literárias de Moura analisadas pelo autor estão “Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições e guerrilhas” (1959) e “Dicionário da Escravidão Negra no Brasil” (2004).

“Não é um livro definitivo. Torço para que ele se torne obsoleto em breve, pois caso isso ocorra, significará que mais pessoas leram criticamente o autor e estão escrevendo sobre, com mais condições e mais qualidade”, pontua Farias.

A vida de Clóvis

Membro de uma família de classe média-baixa, filho de mãe branca e pai negro. Clóvis tem entre seus antepassados, um barão do império prussiano, o bisavô Ferdinando Von Steiger; pelo lado paterno, a escrava Carlota, sua avó e escrava de seu avô, senhor de engenho do Nordeste açucareiro.

Ainda criança, Clóvis mudou-se com a família para Natal (RN), onde morou de 1935 a 1941. Ali, a partir da Intentona Comunista, movimento contra o governo de Getúlio Vargas, passou a simpatizar com as ideias da esquerda. Ainda jovem fundou o Grêmio Cívico-Literário “12 de Outubro”, onde eram realizadas reuniões semanais para discussão de literatura e política.

Na década de 70, destacou-se pela militância junto ao movimento negro brasileiro. Participou da criação, em 1975, do Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas, uma organização voltada ao estudo do racismo no Brasil e que promovia cursos, debates, seminários, etc., juntamente com o movimento negro, quando este começava a se reorganizar.

Em 1980, ainda na ditadura brasileira, analisou os resultados do Censo do IBGE e concluiu que “a identidade e a consciência étnicas são profundamente escamoteada pelos brasileiros”.

Até a sua morte, em dezembro de 2003, Clóvis foi estudioso dedicado no combate à imagem de que os negros foram passivos durante o regime escravocrata.

Nas pesquisas de Moura, há referências aos quilombos. Em suas teorias trabalhou a rebelião dos escravos e a formação dos quilombos, baseando-se na teoria do alemão Karl Marx acerca da luta de classes. O pensamento de Marx foi pensado a partir do sistema escravista brasileiro.

Desde a infância filiado ao Partido Comunista Brasileiro, nos últimos anos, se definia como um “comunista sem partido”, ao tempo que produzia ensaios e trabalhos para a editora Expressão Popular.

‘3 dissertações’

Para Márcio, Clóvis foi um dos grandes pensadores sobre o racismo estrutural e o papel dos negros na dinâmica da luta de classes do Brasil. “Em Moura, percebemos que apesar dos elementos burgueses tenham sido determinantes no processo de abolição da escravidão no Brasil, a partir de seus levantes, fugas e quilombos, os africanos escravizados no Novo Mundo tiveram um papel relevante no processo de abolição”, pontua.

Apesar de seus trabalhos, Márcio acredita que Clóvis é invisibilizado no país. Segundo ele, faltam pesquisas referenciadas na produção de Moura. “Apenas 3 dissertações de mestrado e um conjunto variados de artigos não conformam uma fortuna crítica digna de um autor tão relevante”, critica.

Ele ainda pontua que hoje é fundamental à esquerda, ligada ao debate sobre a revolução brasileira, incorporar a contradição do Brasil, observada por Clóvis em seus escritos.

SERVIÇO

Nas terças-ferias de outubro, o autor do livro, Márcio Farias dará curso sobre a obra do autor

Terças-feiras | 19h às 22h

Mais informações: https://bit.ly/2p6bd8y