O que explica a politização em cima da cloroquina?

Foto: Getty Creative


A deterioração do debate público no Brasil chegou a um ponto em que até a “cloroquina” virou objeto de disputa ideológica.

De um lado está Jair Bolsonaro, que durante a pandemia até deixou em segundo plano sua obsessão por nióbio.

De outro, a ala que prefere esperar a comprovação científica da eficácia do medicamento no combate ao coronavírus.

Não devia ser difícil escolher um lado, mas a descrença com o sistema político pós-Lava Jato está diretamente relacionada à crença na mitologia bolsonarista. Esta mitologia se alimenta da criação de inimigos, e neste balaio cabe muita coisa. Do PT ao tucano João Doria, passando por todos os outros governadores que no momento mais agudo da crise preferem segurar a onda e tomar a medida mais conservadora, e mais eficaz até aqui, de contenção da pandemia: o isolamento social.

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Bolsonaro de conservador só tem a fala. A gênesis de seu discurso é disruptiva, embora muitos já tenham percebido que no lugar da terra arrasada ele não tenha nada para apresentar de concreto. “O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos é que desconstruir muita coisa”, disse certa vez.

Um apoiador clássico do presidente é o apoiador que vê perigo em todo canto. Inclusive na própria Esplanada dos Ministérios. Qualquer sinal de contrariedade é sinônimo de defecção; qualquer defecção, uma declaração de guerra. Luiz Henrique Mandetta, titular da Saúde, que o diga.

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Trata-se de uma estratégia cômoda. Se a coisa dá certo, Bolsonaro venceu contra tudo e contra todos. Se dá errado, é porque forças ocultas o impediram. Ele mesmo nunca erra. Nem a previsão do tempo. O céu é que colabora ou não.

A estratégia ganhou terreno fértil, a ponto de sair de controle, durante a pandemia.

Bolsonaro não quer repartir com os governadores o ônus do tranco econômico que certamente virá junto com a quarentena. Ensaia a rebelião à base do terror: querem quebrar a economia, e consequentemente acabar com seu governo. Como se todos os governadores tivessem ensaiado o que dizer com praticamente todos os chefes de Estado do Planeta, mais a Organização Mundial da Saúde.

Contra a corrente, como o rebelde eleito para implodir “tudo isso que está aí”, Bolsonaro aposta no caos enquanto corre para anunciar antes de todo mundo a mensagem da salvação: o fim da pandemia está próximo, e ela cabe numa dose de cloroquina.

Psicanalistas veem na postura um toque de messianismo. Ele foi o primeiro a acusar a “farsa” em torno da gripezinha. Quer ser o primeiro a trazer a cura.

Uma cura que, se não está sendo usada por aí a rodo, é porque os inimigos, aqueles que não queriam que fosse candidato, aqueles que, como Adélio Bispo, tentaram tirá-lo do jogo, aqueles que tentaram impedir sua eleição, aqueles que querem derrubá-lo, não permitem.

Isto explica por que o infectologista David Uip, coordenador do comitê paulista de combate ao coronavírus que se contaminou e se curou, virou o pivô de uma disputa em torno não apenas de um medicamento, mas da palavra da salvação bolsonarista. 

Ao compartilhar uma entrevista em que Uip, aliado de João Doria, se recusa a dizer como foi seu tratamento contra a doença, Bolsonaro provocou: tomou ou não a HIDROXICLOROQUINA (assim, em caixa alta), para se curar?

Uip poderia ter falado logo, até para evitar rumores que alimentam as teorias da conspiração que servem a propósitos políticos.

O silêncio deu a entender que tinha algo a esconder. Deu no que deu.

Uip está curado. Pode ser porque não estava entre os casos mais graves. Pode ser por N razões. Bolsonaro prefere dizer que quem curou foi a cloroquina, e que sua distribuição só não foi ainda autorizada porque “forças ocultas” não querem a cura, querem lucrar com a crise. 

Enquanto isso, estudos já apontam que a letalidade no grupo de pacientes com Covid-19 testados com cloroquina foi de 13%, mesma margem dos que não usaram. 

Pode ser que, com o tempo, a eficácia do medicamento seja comprovado. Ou descartado. Mas a ciência não permite resultados imediatos. Tem seu tempo próprio, e seus defensores sabem disso.

Para Bolsonaro, ansioso por uma resposta rápida e simplista, cientistas e apoiadores da ciência estão mancomunados. Cabem todos mesmo grupo. O grupo que não está com ele. O grupo do mal.

Para quem, do outro lado, também gosta de teorias da conspiração, cai agora como uma luva a notícia de que o ídolo de Bolsonaro, Donald Trump, outro entusiasta do uso da cloroquina no combate a todos os males, tem uma pequena participação financeira em uma das maiores fabricantes do medicamento, além de ter recebido dinheiro na campanha de um das principais acionistas da companhia, conforme revelou o “The New York Times”.

Para os defensores ferrenhos de ambos, tanto faz: a imprensa também é parte do eixo do mal.

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