Claudia Abreu devora palco ao se equilibrar em abismo em 'Virginia'

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Da surra que Laura levou da mocinha Maria Clara, papel de Malu Mader, num banheiro em cena da novela "Celebridade", de 2004, guarde só a feição desfigurada de Claudia Abreu, de 51 anos, que vivia na pele dessa personagem uma das maiores vilãs da teledramaturgia.

De lá para cá, nada que a atriz tenha feito lembra ao menos um pouco o seu trabalho mais recente, que a artista estreou no último final de semana no palco do Sesc 24 de Maio, o monólogo "Virginia".

No sábado, os presentes na primeira sessão aguardaram 30 minutos de atraso por problemas técnicos, que por fim retiraram de cena um fundo preto, o que aumentou o tamanho destinado à performance da atriz.

E, com seu 1,64 metro, Abreu teria preenchido muito mais, alternando pranto, devaneio, sonho, dança, uma ou duas gargalhadas e diversos trechos de total colapso mental.

Seu primeiro texto de dramaturgia tem como ponto de partida os últimos momentos de vida da escritora Virginia Woolf, que se matou enfiando pedras nos bolsos e entrando no rio Ouse, no Reino Unido.

Só nesse palco preto, eventualmente preenchido por luzes, a atriz se põe, por trás do barulho de água, a tentar explicar por que está ali.

Ela leva um vestido branco rasgado e, com semblante transfigurado, começa a botar para fora lembranças por meio de um fluxo de consciência frenético, característica tão marcante da escritora britânica que dá nome a essa peça.

Autora de clássicos como "Mrs. Dalloway" e "O Quarto de Jacob", Woolf compartilhou com James Joyce e William Faulkner as marcas de um estilo onírico que rompia com as tradições literárias num ambiente que sucedeu a Primeira Guerra Mundial.

Por isso, "Virginia" é tão melhor para o público que chegar à plateia do Sesc 24 de Maio já com conhecimento prévio.

Porque é a partir dessa mesma técnica, que alterna raciocínio lógico com impressões momentâneas e processos de associação de ideias, que a atriz conta a vida repleta de tragédias e surtos mentais que teve Virginia Woolf.

Da morte da mãe ao assédio que sofreu de um dos irmãos, chegando à figura autoritária do pai, a escritora buscou na literatura o refúgio para acalmar a mente. Mas o que conseguiu foi, com a ajuda do marido, de quem herdou o sobrenome, transferir para papel as aflições de uma mulher que nunca se encaixou nas normas sociais.

Enquanto se agiganta à beira do abismo e se perde em lembranças sem ordem cronológica, se emprestando ainda a outros personagens, Claudia Abreu vai devorando seu público, que se deixa levar pela loucura, chegando junto com a atriz a um novo momento de colapso.

*

VIRGINIA

Quando: De 9 de julho a 7 de agosto. Qui. e sex, às 20h; sáb. e dom., às 18h

Onde: Sesc 24 de Maio - r. 24 de Maio, 109, São Paulo

Preço: De R$ 12 a R$ 40

Classificação: 12 anos

Autor: Claudia Abreu

Direção: Amir Haddad

Avaliação: Muito bom

Link: https://www.sescsp.org.br/programacao/virginia/

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