“Fui a Xuxa dos anos 60”, diz Claudete Troiano ao revisitar carreira

·10 minuto de leitura
Claudete Troiano fala sobre as mudanças na TV. Foto: Reprodução/Instagram @claudetetroiano_oficial
Claudete Troiano fala sobre as mudanças na TV. Foto: Reprodução/Instagram @claudetetroiano_oficial

Claudete Troiano acompanhou as mudanças na TV e na sociedade desde os anos 60, quando se tornou apresentadora de programas infantis e não parou mais. Desde então ela enveredou pelo rádio - tornando-se uma das primeiras mulheres a narrar um jogo de futebol ainda nos anos 70 - aventurou-se como atriz em novelas até tornar-se apresentadora de programas voltados para as mulheres na TV, em diversas emissoras.

“Eu fui a Xuxa”, diverte-se nesta entrevista exclusiva ao Yahoo! ao relembrar as décadas de carreira e avaliar como a vida da mulher ganhou outros sentidos na sociedade ao longo desse período. “Eu me considero empoderada, sim. Feminista acho que não”, autoanalisa-se.

Leia também

No ar atualmente todas as manhãs com o “Vou te Contar”, na RedeTV!, - que estreou em meio à pandemia, no ano passado - a apresentadora virou, aos 67 anos, modelo de uma campanha de moda curves, para mulheres com o corpo fora do que é considerado padrão pela ditadura da magreza.

Claudete Troiano relembra carreira. Foto: RedeTV
Claudete Troiano relembra carreira. Foto: RedeTV

“Para mim, envelhecer é não ter vontade de tomar banho de chuva, é não ter vontade de sair dançando ouvindo uma música, ser desanimada, pessimista, mal-humorada. Não encanem com celulite, achando que o homem vai reparar nisso numa noite de amor. Não! Ele repara nos seus olhos, no que estão transmitindo. Toda mulher tem sua própria beleza. Sinta-se bonita, independente da idade”, ensina.

Após tento tempo trabalhando, será que Claudete pensa em aposentadoria? “O que é isso? Enquanto eu puder usar salto alto, eu estou na ativa, gente”, avisa. Leia a entrevista:

Yahoo: Não teve receio de estrear um programa em plena pandemia e se manter no ar todos os dias?

Claudete Troiano: Eu tinha saído da TV Aparecida e, por conta da pandemia, eu estava trabalhando há quatro meses em casa, transformei a sala num estúdio e, com um iPad, fiz televisão de qualidade fazendo entrevistas via Skype. O fato de eu estar muito bem de saúde e gostar de fazer o que faço contribuíram para a minha volta à televisão. E, claro, o carinho do Sidney Oliveira (da Ultrafarma, patrocinadora do programa), que sempre acreditou no meu trabalho. Sempre fui muito otimista, me cuidei muito bem, obedecendo aos protocolos, e sigo me cuidando. Sou bem informada a respeito da pandemia, mas também procuro acreditar nos meus cuidados. Não tive e não tenho receio. Acredito que foi mais uma oportunidade de entretenimento para a pessoa que está dentro de casa. Me sinto muito útil levando informação a todos.

Y: Como se adaptou às transformações da TV e da mulher brasileira ao longo das décadas? Que mudanças você vê de todo esse período?

Claudete Troiano relembra carreira. Foto: RedeTV
Claudete Troiano relembra carreira. Foto: RedeTV

O período é imenso, estou fazendo isso há muito tempo. É você acompanhar a sociedade. Já fazíamos décadas atrás pautas interessantes acompanhando a mulher, que começava a precisar ter seu próprio dinheiro, então tinha que ter informação para ensiná-la a ganhar dinheiro mesmo dentro de casa cuidando dos filhos. Depois tivemos uma verdadeira revolução: a mulher foi para o mercado de trabalho, passou a alcançar altos postos em empresas, participação na vida política e as minhas atrações sempre acompanharam essa evolução da mulher na sociedade e a minha própria mudança como mulher também. Até hoje fico de olho no que acontece. Quando você trabalha olhando o que está acontecendo fica mais fácil, e acredito que esse seja o sucesso dos programas femininos.

Y: Feminismo e empoderamento são conceitos que foram ganhando força principalmente nos últimos anos. Você se considera feminista/empoderada?

Me considero empoderada, sim. Feminista, acho que não. Respeito, claro, mas minha luta não foi por esse caminho.

Y: A gente vê poucas mulheres envelhecendo na TV. Ainda é um tabu?

Para toda a sociedade, envelhecer é um tabu, mas principalmente para nós, mulheres. O homem está lá com o cabelo branco e dizem ‘ai que charmoso’. A mulher deixa o cabelo branco, falam ‘ai que relaxada’. O homem engorda um pouquinho e ninguém fala. Agora, se a mulher ganhar alguns quilos, é ‘ai meu Deus’. Se você não tiver nada do pescoço para cima, minha querida, tchau, tchau. Então, me preocupei mais com isso do que com o corpo e está dando certo.

Y: Você foi escolhida como estrela da campanha de moda curves da Maison SPA. Como recebeu o convite? Teve algum receio de posar?

Claudete Troiano relembra carreira. Foto: RedeTV
Claudete Troiano relembra carreira. Foto: RedeTV

Essa marca tem essa proposta de vestir a mulher em qualquer idade e achei tão bacana! Não gosto muito de tirar foto, então pensei: ‘Meu Deus, a essa altura da vida, com essa idade, receber esse convite?’(risos). Mas foi muito legal! Encarei numa boa e senti que o público, principalmente da minha idade, também gostou bastante. Fiquei orgulhosa de ter sido escolhida com essa idade, foi uma experiência nova e tudo que é novo eu sempre gosto!

Y: Serve de exemplo de que a mulher pode e deve se sentir belas e com a autoestima nas alturas em qualquer faixa etária?

Não gosto de me ver como exemplo de nada, procuro apenas passar a mensagem de que a beleza vai além da idade e de tudo isso. Nunca exagerei. Faço alguns procedimentos, mas envelhecer também é bacana. Graças a Deus eu tenho um companheiro (o consultor Valmir Manso) que acha lindo envelhecer junto comigo e acredito que isso me ajuda bastante também. Somos casados desde 1982

Y: Como lida com o passar dos anos?

Claudete Troiano relembra carreira. Foto: RedeTV
Claudete Troiano relembra carreira. Foto: RedeTV

Não adianta ficar com a cara toda esticada se até o joelho dá uma caidinha. Para mim, envelhecer é não ter vontade de tomar banho de chuva, é não ter vontade de sair dançando ouvindo uma música, ser desanimada, pessimista, mal-humorada. Não sou nada disso, então não me sinto com muita idade e costumo passar isso para as mulheres. Acredito que você pode se conservar bem, mas que exista a beleza interior com esse poder de passar um sentimento gostoso para os outros. Não encanem com celulite, achando que o homem vai reparar nisso numa noite de amor. Não! Ele repara nos seus olhos, no que estão transmitindo. Toda mulher tem sua própria beleza. Sinta-se bonita, independente da idade. A beleza vai além da parte física e é essa mensagem que procuro passar adiante na televisão.

Y: É vaidosa? Que cuidados tem no dia a dia?

Já fui mais vaidosa, porém continuo me cuidando. Nunca dormi de maquiagem, porque sei que estraga a pele. Me consulto com bons dermatologistas, uso bons cremes… Quando estou acima do peso, vou a um nutricionista, mudo minha alimentação e faço uso consciente de remédios naturais. Confesso que na pandemia avacalhei nos exercícios físicos. Gosto muito de andar, fazer caminhada, mas preciso fazer musculação, segundo meus médicos, e não estou fazendo. Então, estou pecando nisso. Agora, em relação à moda, gosto de usar roupas que me valorizam, que favorecem o que está legal e que disfarçam o que eu acho que não está.

Y: Sua carreira na TV é bem diversificada, você apresentou, por exemplo, programas infantis e para adolescentes. Dá para dizer que foi a Angélica dos anos 60?

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.

Não, eu fui a Xuxa! (risos). Na atração, eu descia num disco voador, tinha um coral com roupas iguais às das Paquitas, só que a cor era azul e rosa. Para você ver que o Chacrinha tinha razão na sua célebre frase: ‘Na televisão, nada se cria, tudo se copia’. A minha filha, quando era pequena, pegava as fotos dessa época e falava: ‘Você imitava a Xuxa, mãe?’ (risos). Aos 13 anos eu já comandava a tarde da TV Bandeirantes com programas infantis: ‘Carrossel’, ‘Tic Tac’, programas que marcaram época e eu me orgulho muito. E isso só foi me dando cancha para apresentar programas ao vivo e continuar nessa carreira de apresentadora. Eu passei pelo crivo do público mais exigente que existe, que é a criança. Criança não é falsa, se ela gosta, gosta e se não gosta, não tem jeito, ela levanta e vai embora do auditório, por exemplo. Então, é muito difícil trabalhar para criança e se você passou por esse público, irá passar pelos outros mais facilmente.

Claudete Troiano relembra carreira. Foto: RedeTV
Claudete Troiano relembra carreira. Foto: RedeTV

Y: Você e a Zuleide Ranieri foram as primeiras mulheres a narrarem jogos de futebol no rádio. Como foi essa escalação de vocês, em plenos anos 70, quando ainda era dado a mulher muito menos espaço que hoje?

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.

Foi uma atitude corajosa da Rádio Mulher. Eu trabalhava na rádio Bandeirantes e tinha o ‘Salão da Criança’, uma quadra poliesportiva que ficava disponível para o público e, sem que ninguém me pedisse, eu comecei a narrar os jogos de vôlei e futebol de salão. A família Montoro, da Rádio Mulher, ficou sabendo e surgiu o convite para fazer parte da equipe que estava se formando. Fui contratada e comecei com reportagens. É uma história muito legal, não tínhamos noção de que isso seria tão importante e abriria tanto espaço para a mulher, eu era muito novinha também. E hoje você vê a mulher atuante no esporte, em várias emissoras, eu fico muito feliz com isso. Não foi uma tarefa fácil entrar num gramado com aquela idade, mas eu já gostava de futebol e isso me ajudou muito. Hoje eu reconheço a importância que teve esse movimento à época. Aguentamos firme e isso é mais um motivo de orgulho na minha carreira.

Y: Que recordações guarda dos jogadores e da experiência?

Muitas, muitas recordações! Tenho amigos dessa época até hoje. Fiz boas amizades também com as mães e esposas dos jogadores. Eu tenho um carinho muito grande pelo Pelé, foi o jogador que mais incentivou a nossa equipe. Ele sabia da importância do Brasil sair na frente nessa questão e foi um dos principais apoiadores desse projeto. Eu guardo muito carinho dele e de tantos outros… O Zé Carlos, que jogava no São Paulo e hoje é técnico, Emerson Leão, que era goleiro do Palmeiras, o Paulo Roberto Falcão, um lorde!

Y: Você ainda fez novelas! (‘O Bolha’, em 1969, na Band, e ‘Ídolo de Pano’, em 1974, na Tupi) Sente falta de atuar?

Claudete Troiano relembra carreira. Foto: RedeTV
Claudete Troiano relembra carreira. Foto: RedeTV

Uma vez o Antônio Abujamra (então diretor de teatro) disse que eu era ‘muito louca’ (risos) e falou para eu largar o futebol e o programa infantil. E aí ele me convidou para fazer uma novela, ele sabia que eu já tinha trabalhado como atriz. Mas a novela me tomava muito tempo e pagava menos, não dava. Algo que nunca fiz e gostaria de fazer é teatro, está aí uma coisa nova, pode me chamar que eu vou! (risos).

Y: Depois de passar por praticamente todas as emissoras (exceto a Globo), ficou mágoa de algum lugar?

Não tenho mágoa dos lugares. Das pessoas tive na hora da raiva, mas depois passou, não sinto mais nada. Mágoa traz doenças e eu não sou uma pessoa que se deixa magoar. O que eu tenho para falar, eu falo logo: ‘Não gostei! Não esperava isso!”. Guardar não é comigo, não. Mágoa faz muito mal para nós mesmos. Sou do signo de Escorpião, e quem me conhece sabe, procuro ser muito justa. Já fui injusta? Sim. Quem nunca errou? Mas não conscientemente. Não gosto e fico indignada quando agem com injustiça comigo.

Y: Quando foi fazer o ‘Olha Você’, você comentou que ir para o SBT era um sonho, chegou a dizer "Beijei o chão do SBT". Há algum sonho ainda a realizar diante das câmeras?

(Risos) Fiz isso de verdade, na época eu queria muito ir para lá. Agora, estou procurando sonhar menos e viver mais. Estou numa fase da vida que eu tenho que viver, viver e viver, sem pensar muito no amanhã. É isso que eu estou fazendo.

Y: Com a pandemia, ficou ainda mais próxima da família? Como está a relação com sua filha Marcela atualmente?

Estamos nós três juntinhos, e isso é ótimo! Fico mais tranquila com a família toda reunida.

Y: Pensa em aposentadoria?

O que é isso? (risos). Não penso, não. Enquanto eu puder usar salto alto, eu estou na ativa, gente.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos