Clássico mostra por que Joan Didion foi pioneira do 'novo jornalismo'

ANDRÉ BARCINSKI
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(FOLHAPRESS) - Levou mais de meio século, mas um dos livros clássicos do chamado "novo jornalismo" foi publicado no Brasil -"Rastejando Até Belém", de Joan Didion. Lançado originalmente em 1968, o livro reúne artigos publicados em revistas americanas entre 1965 e 1967 e é considerado um precursor do que o escritor Tom Wolfe batizaria, pouco depois, de "novo jornalismo" -textos de não ficção em que o autor, usando técnicas literárias da ficção, se põe no centro da narrativa e traz uma perspectiva pessoal sobre fatos jornalísticos. No grupo de pioneiros do estilo, segundo Wolfe, Didion estaria ao lado de Norman Mailer, Gay Talese e Hunter Thompson, entre outros. A divisão de capítulos de "Rastejando Até Belém" já evidencia essa mistura entre jornalismo e crônica pessoal. O livro é dividido em três partes. "Estilos de Vida na Terra do Ouro" traz reportagens sobre diversos aspectos da vida na Calífórnia, onde Didion nasceu e morou durante a maior parte da vida; "Pessoais" é uma coleção de reminiscências; e a terceira parte, "Sete Lugares da Mente", reúne ensaios autobiográficos. Um dos textos mais famosos de Didion dá nome ao livro. "Rastejando Até Belém", reportagem sobre jovens hippies vivendo em San Francisco em 1967. Naquele ano, o mundo via a Califórnia como um lugar dourado e feliz, um oásis de liberdade e centro de uma revolução contracultural movida a LSD. Didion mostrou que a realidade era outra. Ela entrevistou jovens e visitou as casas comunitárias --e infectas-- onde moravam. Viu crianças de cinco anos chapadas de ácido, famílias despedaçadas, mortos-vivos pedindo esmola para se drogar, enfim, viu a verdade por trás da colorida fachada da utopia psicodélica. "Adolescentes vagavam sem rumo de uma cidade destroçada para outra, tentando se livrar tanto do passado quanto do futuro, como cobras que trocam de pele; garotos a quem ninguém havia ensinado, e agora já não iam aprender, os jogos que mantinham a sociedade coesa", ela escreve. No prefácio, Didion faz uma confissão surpreendente para uma profissional da não ficção. "Sou ruim em entrevistar pessoas." De fato, o que mais cativa em "Rastejando Até Belém" não são confissões de entrevistados ou grandes revelações investigativas, mas a prosa afiada e fluida de Didion (preservada na ótima tradução de Maria Cecilia Brandi) e a sensibilidade da autora para descrever pessoas e situações. Um dos textos mais comoventes do livro é o primeiro, "Sonhadores do Sonho Dourado", sobre uma mulher acusada de tramar a morte do marido. A forma como Didion descreve a vida suburbana no vale de San Bernardino é uma paulada. "A terra dos penteados volumosos, das calças cápri e das meninas para quem a grande promessa de vida se resume a um vestido de noiva branco de cauda curta e a dar à luz uma Kimberly ou uma Sherry ou uma Debbi e depois divorciar-se em Tijuana e retomar o curso de cabeleireira." Mas nem tudo é melancolia. Um perfil de John Wayne é surpreendentemente carinhoso com o astro, então com 57 anos e filmando, no México, seu 165º filme, "Os Filhos de Katie Elder". A descrição dos papos entre Wayne e seus comparsas, como o cineasta Henry Hathaway e o ator e cantor Dean Martin, é divertida e revela como as coisas funcionavam em Hollywood nos anos 1960, mas sem perder a ternura por Wayne, ídolo de incontáveis matinês que Didion assistira nos anos 1940. "Rastejando Até Belém" foi o primeiro de mais de uma dúzia de livros de não ficção de Joan Didion, autora também de romances e roteiros de cinema. Para quem quiser conhecer mais sobre a escritora, recomendo o documentário "Joan Didion: The Center Will Not Hold", dirigido pelo sobrinho, o ator Griffin Dunne. Está disponível na Netflix e traz entrevistas recentes com Didion, que hoje tem 86 anos e vive em Nova York.