Cinquenta anos depois, os hippies retornam a Woodstock

Por Maggy DONALDSON
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Peregrinação pelos locais do festival de Woodstock, em 15 de agosto de 2019 em Bethel

Foi há exatamente 50 anos: Les Poinelli estava pedindo carona para o festival de Woodstock, sobre o qual ele tinha ouvido falar no rádio e onde conheceria a mulher da sua vida.

Este fim de semana decidiu voltar a Bethel, o pequeno povoado rural no noroeste de Nova York que marcou sua existência, assim como centenas de hippies idosos vestindo camisetas tie-dye, coroas de flores e jaquetas com franja de couro, emblemáticas da era do "Peace and Love".

"Era impossível não se sentir invadido pela multidão, pela generosidade das pessoas", lembra Poinelli, que tinha 19 anos na época, no mítico palco onde se apresentaram lendas do rock como Jimi Hendrix, Janis Joplin e Santana diante de quase meio milhão de pessoas.

Este homem lembra que depois de passar todo o festival com sua nova namorada, Gail, foram atrás do palco, onde Joe Cocker acabava de começar a tocar, para se despedir.

"Dei-lhe um beijo na bochecha, e essa foi nossa única aventura sexual do fim de semana", conta sorrindo, enquanto mostra os bilhetes do festival emoldurados.

Dois anos depois de terem dançado juntos ao ritmo de bandas como Creedence Clearwater Revival e Canned Heat, Gail e Les se casaram. Tiveram cinco filhos e 12 netos.

- Beijo em Janis Joplin -

Um evento de culto para toda uma geração, Woodstock recebeu entre 15 e 18 de agosto de 1969 cerca de 500.000 pessoas nos campos de alfafa da pitoresca região de Catskills.

As chuvas torrenciais não impediram que celebrassem, consumissem drogas e fizessem amor em meio a uma atmosfera de liberdade e anarquia.

Apesar da lama, da escassez de alimentos e do uso de substâncias, o festival se transformou em um símbolo de esperança que fechou uma década marcada por assassinatos e distúrbios, no contexto da guerra do Vietnã.

O lugar é agora administrado pela associação Bethel Woods Center for the Arts, que organiza shows com frequência e dirige um museu em memória do festival.

As celebrações pelo 50º aniversário começaram na quinta-feira à noite com a apresentação do músico folk Arlo Guthrie, filho de Woody Guthrie, que se apresentou em 1969 com apenas 22 anos. Nesta sexta-feira e no fim de semana estarão sobre o palco Ringo Starr, Santana e John Fogerty do Creedence Clearwater Revival.

RJ Pinto faz uma peregrinação em sua moto quase todos os anos para Bethel, a fim de voltar a sentir a atmosfera de 50 anos atrás.

"A paz, a música e o amor realmente estão aí", afirma emocionado. "Foi um fenômeno mundial". Pinto afirma ter visto de tudo no caos generalizado que dominou o encontro. Mas o que mais recorda é o beijo que deu em Janis Joplin.

"Ela me tocou no mais profundo", diz, sentado em sua moto. "Janis era uma menina incrível... ficamos perto dela até que pude segurar sua mão e beijá-la na bochecha".

- "De Woodstock para a eternidade" -

Alguns vieram de muito longe para encontrar o lendário espírito de Woodstock, como Patrick Depauw, que viajou da Bélgica especialmente para a ocasião.

Em 1969 tinha apenas 10 anos, mas viu o filme vencedor do Oscar de 1970 que mostraria o festival como o momento auge da era hippie.

"Toda a minha vida foi impregnada por esse evento", diz este homem de 60 anos. "Só tinha uma ideia em mente: realizar meu sonho e vir ao 50º aniversário de Woodstock no lugar original do festival".

O espírito de Woodstock volta hoje, segundo ele, porque "os acontecimentos, tanto no continente americano como na Europa, são preocupantes (...) Falta ao mundo cada vez mais solidariedade e este tipo de movimento promove a solidariedade".

Antes de voltar a Woodstock nesta quinta, Les Poinelli visitou, como faz quase diariamente, o túmulo de sua esposa, falecida em 2016.

"De Woodstock para a eternidade", conta que mandou gravar em sua lápide.

Olhando para as montanhas que rodeiam Bethel, acrescenta: "Aqui é onde a vida começou".