Cineastas brasileiros protestam contra "governo ilegítimo" no Festival de Berlim

(Imagem: divulgação)

Cineastas brasileiros aproveitaram a visibilidade do Festival de Berlim, um dos principais do mundo, e apresentaram um manifesto alertando o mundo sobre a “crise institucional no país” e demonstrando preocupação com os possíveis novos rumos da Ancine (Agência Nacional de Cinema), órgão que regulamenta o fomento ao audiovisual.

Nos últimos anos, por meio de investimento constante no setor e editais que contemplavam desde o cinema de grandes produções como as comédias ‘Minha Mãe é Uma Peça’ e ‘De Pernas Pro Ar’ até filmes autorais, foi perceptível um crescimento do setor em quantidade e qualidade. Não à toa, 12 obras brasileiros participam este ano do Festival de Berlim, uma marca bastante expressiva. O texto também apresenta dados sobre o crescimento econômico do setor.

Leia abaixo a íntegra da carta-manifesto:

“O Brasil está vivendo uma crise constitucional. Sob esse governo ilegítimo, direitos adquiridos nas áreas da educação, saúde, e trabalho estão sob ataque. O cinema brasileiro, especialmente o de autor, está particularmente ameaçado por esses ataques. A diretoria da Ancine (Agência Nacional de Cinema) está agora em processo de substituição de dois de seus quatro membros, e muita coisa está em jogo com essas nomeações.

O Brasil tem orgulho de ser uma gigantesca fusão étnica, racial, cultural, religiosa e de gênero. A consciência dessa pluralidade é fundamental na hora de planejar os programas educacionais, econômicos, culturais e de saúde do nosso país.

As políticas de cinema e outras artes visuais têm muita consideração por esse fator. Nos últimos anos, a Ancine tem direcionado sua atenção a esses muitos Brasis, ampliando os mecanismos de fomento, que hoje atingem segmentos diversos, do cinema autoral ao videogame; das séries de TV aos filmes com perfil comercial; do desenvolvimento de roteiro à distribuição de uma variedade de trabalhos culturais.

Os resultados são visíveis. Em 2017 filmes brasileiros conquistaram uma participação expressiva em festivais internacionais, totalizando 27 participações em Sundance, Rotterdam e Berlim. Muito planejamento e diálogo contínuo entre a Ancine e os profissionais do cinema foram necessários para alcançar essa conquista. Duas políticas específicas que resultaram desse esforço devem ser destacadas:
Primeiro, a criação da lei que prevê que os canais de TV a cabo exibiam um mínimo de 3 horas e meia de programação brasileira durante o horário nobre.

Segundo, o estabelecimento do Fundo Setorial do Audiovisual, que gerou investimentos para diferentes trabalhos em vários níveis de desenvolvimento. Entre as conquistas do Fundo, está a descentralização da produção no cinema – longe do eixo Rio-São Paulo -, o renascimento da programação da TV pública, a produção de filmes de alcance internacional bem como co-produções internacionais.

Como resultado dessas ações, o crescimento do setor audiovisual alcançou 8,8% em 2016, um número muito maior do que a economia brasileira em geral, gerando um valor agregado de 0,54% no PIB nacional (essa contribuição é maior do que, por exemplo, as indústrias farmacêutica, de TI ou eletrônica).

O progresso ainda deixa muito espaço para melhorias, como políticas afinadas para gerar um impacto maior na representação racial e de gênero, bem como para permitir que uma amostra mais inclusiva da população esteja envolvida na cadeia de produção. Outra melhoria muito necessária é um maior investimento no sempre crescente acervo audiovisual do país, para melhorar tanto o acesso quanto a conservação.
Nós chegamos tão longe graças ao esforço conjunto de servidores públicos, produtores, diretores, distribuidores, exibidores, programadores, artistas e líderes sindicais, e precisamos proteger essas conquistas a todo custo. Sobretudo, queremos garantir que quaisquer mudanças nessas políticas sejam debatidas abertamente no setor e na sociedade brasileira como um todo.

Assim, pedimos às instituições, produtores e cineastas de todo o mundo por apoio à nossa luta para proteger essas políticas. Nós acreditamos fortemente na continuidade e na força dessa visão comum que nos trouxe até aqui, e acreditamos com firmeza que ela pode nos levar ainda mais longe.

Assinam essa carta os produtores e diretores dos seguintes filmes:
As Duas Irenes (Fabio Meira, Diana Almeida e Daniel Ribeiro)
Como Nossos Pais (Laís Bondaznky e Luiz Bolognesi)
Em Busca da Terra Sem Males (Anna Azevedo)
Está Vendo Coisas (Barbara Wagner e Benjamin de Burca)
Joaquim (Marcelo Gomes e João Vieira Jr.)
Mulher do Pai (Cristiane Oliveira, Graziella Ferst e Gustavo Galvão)
Não Devore Meu Coração! (Felipe Bragança e Marina Meliande)
Pendular (Julia Murat e Tatiana Leite)
Rifle (Davi Pretto e Paola Wink)
Vazante (Daniela Thomas e Sara Silveira)
Vênus – Filó a Fadinha Lésbica (Sávio Leite)”