Cineasta brasileira que pode levar o Oscar diz que ataques do governo são antipatriotas

RODRIGO SALEM
***FOTO DE ARQUIVO*** SÃO PAULO, SP, BRASIL, 23/06/2018 - a cineasta Petra Costa durante 7ª edição do evento

LOS ANGELES, EUA (FOLHAPRESS) - Indicada ao Oscar de melhor documentário por "Democracia em Vertigem", a diretora Petra Costa diz que os ataques via Twitter promovidos pela Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República) foram "surpreendentes e chocantes".

Em post publicado na última segunda-feira (3), a secretaria chamou Costa de "militante anti-Brasil". As críticas foram motivadas pela entrevista com críticas ao governo de Jair Bolsonaro que a documentarista deu à uma emissora de TV nos Estados Unidos.

"Para falar a verdade, esperava esse ataque antes. Me surpreendeu por ter vindo no último momento e de uma forma inconstitucional", disse ela à reportagem, nesta sexta (7), dois dias antes da cerimônia da Academia, no Dolby Theatre, no coração de Hollywood. "Achei triste o governo fazer isso em um momento em que deveria haver uma celebração no Brasil inteiro por termos um filme indicado ao Oscar."

Costa protege o conteúdo de "Democracia em Vertigem", lançado em junho de 2019 pela Netflix ("Não é uma defesa de um governo ou de um partido. Eu critico [o PT], mostro os erros que cometeu") e rebate o tuíte da Secom: "A atitude deles é verdadeiramente antipatriota, tentar boicotar um filme brasileiro indicado ao Oscar. Acredito ter feito um exercício do patriotismo, uma carta de amor ao Brasil, a um país no qual acreditava estar em ascensão".

Consciente de que as provocações do canal oficial do governo foram feitas nos últimos dias de votação ao Oscar, a cineasta sabe que o caso atraiu a atenção da mídia internacional (e, quem sabe, dos membros da Academia). Contudo, não vê um lado positivo na controvérsia.

"Não consigo ver nada de bom quando um governo faz uma campanha de fake news para atacar um filme", disse Costa. "É isso que está criando a erosão da democracia no Brasil e no mundo."

O documentário conseguiu nomes importantes do cinema e da TV para ajudar no corpo-a-corpo com os membros da Academia. Durante a campanha iniciada em setembro, o ator Tim Robbins, a diretora Jane Campion, os cineastas Spike Lee e Wim Wenders e o roteirista Beau Willimon, criador de "House of Cards", foram alguns dos anfitriões das sessões do longa brasileiro em Nova York, Los Angeles e Londres.

"Quando criei 'House of Cards', ouvi muitas reclamações por ter indo além dos limites do que era plausível em termos representação da esfera política", discursou Willimon, em uma das exibições do Oscar. "Em sete anos tumultuados, notamos que a ficção não é nem de perto tão estranha quanto a realidade."

Petra Costa se diz "muito feliz" por estar em Hollywood para a disputa do prêmio mais famoso do cinema mundial. Porém, não preparou discurso caso ganhe a estatueta. "Já é uma vitória imensa ser o único filme latino-americano no Oscar. Estou orgulhosa de representar a América Latina, ser uma mulher diretora representando o Brasil", conta ela, que assistiu a todos os seus concorrentes e destaca a força de cada um deles.

"Gosto muito da história e da fotografia de 'Honeyland'. 'Indústria Americana' é fascinante ao mostrar a guerra cultural entre chineses e americanos dentro de uma fábrica nos EUA, apesar de ser importante lembrar que o filme mostra algo que os EUA fazem no mundo inteiro há muito tempo. Não é invenção dos chineses", analisou a brasileira. "Os filmes da Síria ['The Cave' e 'For Sama'] são muito chocantes por estarem na linha de frente da guerra."

Sobre a cerimônia do domingo, a diretora deixou no ar se chegou a chamar algum personagem político do filme e disse que apenas a equipe do filme comparecerá à festa. "A única personagem do longa a ir deve ser minha mãe", revelou.

Quando perguntada se fará um protesto no tapete vermelho nos moldes da realizada pela equipe do longa "Aquarius", no Festival de Cannes de 2016, a diretora solta um sorriso enigmático: "Vamos ver".