Cidade natal de Bob Dylan se divide entre ressentimento e orgulho do filho ilustre

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Duluth, pequena cidade de Minnesota, nos Estados Unidos, em que Robert Allen Zimmerman nasceu há 80 anos, está em festa. As comemorações iniciaram no sábado e, nesta segunda, data do aniversário, haverá dois shows, um deles em frente à casa em que nasceu Bob Dylan.

Há festejos também na Universidade de Tulsa, onde há um curso superior sobre o músico e um museu com mais de 100 mil itens em construção.

É óbvio que se trata de um dia importante para os 85 mil habitantes da cidade, mas, como muitas das canções de Dylan ensinam, as coisas não são tão simples assim.

"Tem um sentimento aqui na cidade... Algumas pessoas ficam muito ofendidas por Dylan não comentar muito o fato de ter nascido aqui. Sentem algo como 'por que ele não se importa com a gente?'", diz a radialista Miriam Hanson.

Ela comanda o programa Highway 61 Revisited, com uma hora semanal só de canções dylanescas na rádio Kumd, em Duluth (ouça aos sábados e segunda, às 19h, horário de Brasília, em www.kumd.org).

Segundo Miriam, a cidade se divide entre o orgulho e o ressentimento em relação ao seu filho mais ilustre. "Muitos fãs aqui se sentem ligados a ele pessoalmente. Então tem gente que sente muito ressentimento, sim. E alguns outros não se importam."

Esse conflito também pode ser visto nas poucas marcas de Bob Dylan pela cidade. A casa em que nasceu, hoje ocupada por um homem que não tem a ver com a família do músico, exibe uma pequena placa. Mas não há nada como esculturas ou coisas assim.

"Temos uma rua que é quase um beco chamada Bob Dylan Way. Bem pequena, ao lado de uma grande rodovia. De fato, ela nem aparece nos mapas do Google ou da Apple."

Com a exceção de uma padaria, o comércio de Duluth não avançou sobre as músicas de Dylan. "Essa padaria na rua 3, que está lá há décadas, se chama Positively 3rd Street Bakery". O nome cita "Positively 4th Street", um dos grandes sucessos de Dylan em 1965.

Finalmente, há as tampas de esgoto. "Isso mesmo. Um artista fez umas tampas de ferro com gaitas, violões e o nome do Dylan em relevo. Então nós temos isso", diverte-se Miriam.

"É tudo muito sutil. Essa parte do país é particularmente conhecida por ter muitos descendentes escandinavos. As pessoas são meio fechadas. Não tendem a ser festivas."

Houve, no entanto, enorme expectativa no final dos anos 1990, quando Dylan anunciou um show em Duluth, cerca de 30 anos depois do último.

"Todo mundo esperava algo especial. O local do show era no pé de um morro e bem em frente ao lago Superior, que é enorme e parece um oceano. A cidade ficava lá em cima, então em certo momento ele olhou para cima e disse 'Hey, eu nasci naquele morro. Estou feliz de saber que ainda está lá'."

"E foi isso. Apenas mais uma parada na Never Ending Tour. Eu tenho a gravação desse show e de vez em quando toco ela no programa, com essa frase."

Miriam tem certa ligação com o Brasil. Formada em espanhol e português, ela passou três semanas no país no início dos anos 2000. "Foi a última vez que falei português", diz ela, arriscando algumas palavras durante a entrevista.

Ela veio ao Carnaval do Rio, brincou na escola de samba vestida de palhaça e passou uma semana em Itaúnas, no Espírito Santo.

"No Rio, estava milhões de graus, compramos CDs, fui num morro e o pessoal falou pra eu não falar português de novo ou seria assaltada. Num bonde tentarem me levar o relógio, mas eu gritei contra o cara e ele se mandou", lembra.

"Você encontra fãs em todo o lugar que vá. Mesmo as pessoas que odeiam Bob Dylan adoram falar sobre ele, têm opiniões muito fortes sobre por que não gostam dele. É muito engraçado."

Nos início da carreira, Dylan mentia sobre onde nasceu e viveu A família de Bob Dylan, com ascendência da Ucrânia e da Lituânia, deixou Duluth quando o menino tinha sete anos. Mas não deixou o norte gelado dos Estados Unidos à esquerda dos Grandes Lagos.

Na verdade foi ainda mais para o norte, para Hibbing, a uma hora e meia de carro. Aos 18, ele entrou na Universidade de Minnesota e mudou-se para Minneapolis, capital do estado.

Mas antes de completar 20 anos, em janeiro de 1961, seguiu para Nova York para tentar a carreira de músico. Começou a cantar nos bares do Greenwich Village e chamou a atenção da comunidade artística.

Em março de 1962, lançava seu primeiro disco, basicamente com covers, e 12 meses depois já era um sucesso nacional. Na capa, parece um bebê de bochechas rosadas.

Dylan tirou seu nome do poeta galês Dylan Thomas (1914-1953), mas essa não foi sua única invenção. Ao chegar a Nova York, disse que era órfão, que havia sido abandonado pelos pais, que correra o país com o violão nas costas, escondido em trens de carga etc.

A fantasia acabou no final de 1963, quando teve esgotados os ingressos para uma apresentação no prestigiadíssimo Carnegie Hall, em Nova York.

Emocionado, mandou trazer seus pais de Minnesota para assistirem ao show. Então, uma repórter da revista Newsweek entrevistou os velhos Zimmermans e a verdade apareceu.

Exposto como mentiroso e, pior, como um simples garoto judeu de classe média, ele desmoronou. Considerou sua carreira acabada, mesmo porque transitava na área da folk music, em que a verdade era tão cara.

Mas nada aconteceu apos a revelação. Suas músicas provaram ser maiores que sua biografa inventada.