Por que Christopher Nolan é a versão Apple dos cinemas

Thiago Romariz
·4 minuto de leitura
Christopher Nolan no Festival de Cinema de Cannes 2018. (Foto: Vianney Le Caer/Invision/AP)
Christopher Nolan no Festival de Cinema de Cannes 2018. (Foto: Vianney Le Caer/Invision/AP)

O recente frisson com o lança-não-lança de Tenet, novo filme de Christopher Nolan, fez algumas teorias surgirem na internet ligando a produção a A Origem – sucesso do diretor que completa 10 anos em 2020. Ainda que faça bastante sentido e tenha possibilidades consideráveis disso acontecer, os boatos me fizeram revisitar a filmografia do cineasta que definiu muito da estética dos últimos anos em Hollywood.

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Mergulhar no Nolanverso é constatar a concepção de ao menos duas vertentes no cinema de espetáculo da última década: a direção de arte asséptica e a obsessão por finais abertos explicados. Calma, eu (também) explico.

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A não ser por exceções como Amnésia, os filmes de Nolan são compostos por uma película sombria na fotografia, ausência de luz e predomínio de cores fechadas quase sempre. Não é demérito, é identidade, diga-se de passagem.

Assistir à Origem, os Batman, Grande Truque e Interestelar é como estar dentro de uma mesma biblioteca de produções que usam o mesmo filtro e os mesmos figurinos - e muitas vezes têm os mesmos personagens. Por isso, não espanta que Tenet apareça em teorias como uma sequência no universo de A Origem.

Esse visual transporta o espectador para um mundo adornado pelas músicas de Hans Zimmer, que incluem o suspense em um mundo que prefere o artificial ao orgânico. A base musical e técnica perfeita das tramas chega a trocar a sujeira da guerra pela assepsia dos uniformes e ternos e gravatas bicolores, quase nunca afeitos ao sangue ou ao incômodo da guerra - vide Dunkirk.

É quase como se Nolan fosse a Apple do cinema: criador de um produto com didática invejável para o usuário e que vê tudo potencializado por um visual sóbrio, sério, espetaculoso, artificial, limpinho. Ou clean, se preferir.

E tal qual um ótimo produto, assistir a estes roteiros é sentir que aquilo foi feito para você. A Origem, por exemplo, um filme sobre assalto dentro dos sonhos, joga todas as perguntas possíveis na tela e as responde da forma mais literal possível. Quase como uma inteligência artificial, que já sabe o que você quer sem mesmo você perguntar.

E no meio disso tudo, embalado numa caixa impecavelmente construída, vem a satisfação do espectador em "adivinhar" e "discutir" as teorias acerca da trama apresentada. Afinal, o que é sucesso se não fazer alguém sair por aí falando da experiência que teve com um produto?

As histórias de Nolan representam muito do que a massa dos espectadores atual espera de uma história: respostas, mas nem tanto. Mais importante do que a jornada é a satisfação de especular no final, de discutir teorias. O diretor consegue fazer ambos, pois dificilmente se importa com personagens e sempre gasta horas explicando seus mistérios, para no final deixar uma pergunta em aberto. De certa forma, é a receita perfeita de marketing para satisfazer o usuário. Expectativa, visual, experiência e conteúdo.

A história e suas provocações são artifícios para que o público saia da sala pronto para o boca a boca, para o viral. E, no fim, a busca é mais por descobrir a resposta e explicar o mistério do que saber se há algum caldo naquele conto mostrado na tela. E tudo bem, pois na maioria das vezes, não há muito o que se aproveitar mesmo.

*Thiago Romariz é jornalista, professor, criador de conteúdo e atualmente head de conteúdo e PR do EBANX. Omelete, The Enemy, CCXP, RP1 Comunicação, Capitare, RedeTV, ESPN Brasil e Correio Braziliense são algumas das empresas no currículo. Em 2019, foi eleito pelo LinkedIn como um dos profissionais de destaque no Brasil no prêmio Top Voice.

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