Christian Petzold dirige com mais calor 'Undine', versão de mito alemão

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    Atriz alemã

FOLHAPRESS - É com um rompimento e uma ameaça que se inicia "Undine", último longa-metragem do cineasta alemão Christian Petzold. Undine Wibeau, papel de Paula Beer, é uma historiadora do governo alemão que é abandonada por seu namorado Johannes, interpretado por Jacob Matschenz. Ele se apaixonou por outra mulher, mas Undine avisa que "se você me abandonar, eu mato você".

Na mitologia germânica, Undine -Ondina, em português-, segundo a formulação de Paracelso no "Livro das Ninfas" e toda uma tradição literária que veio depois, é a ninfa do amor que vive nas águas. Ela adquire forma humana quando se relaciona com outro humano. O filme é inspirado no livro homônimo de 1811 do escritor romântico alemão Friedrich de la Motte Fouqué. Undine deve cumprir a promessa e abraçar seu destino, matar aquele que a traiu e voltar para as águas.

O mito de Ondina é só um ponto de partida, e não é necessário conhecer a história para admirar o belo filme de Petzold. Antes de levar a cabo sua promessa, Undine se apaixona novamente, numa bela cena com um aquário quebrado.

Quem aparece para permitir que ela continue com forma humana é Christoph, vivido por Franz Rogowski, um mergulhador profissional. Ele tem uma aparição meio atabalhoada, mas funciona e dá leveza ao filme. Está refeito, de todo modo, o par romântico do longa anterior de Petzold, "Em Trânsito", lançado em 2018, em que Paula Beer substituía Nina Hoss como sua protagonista ideal.

Petzold pertenceu à escola de Berlim, grupo com jovens cineastas que iniciaram suas carreiras após a queda do muro em 1989 e começaram a despontar entre o final da década de 1990 e o início dos anos 2000. Fazem um cinema estilizado, rigoroso nos enquadramentos, e salvaram o cinema alemão de um hiato criativo iniciado nos anos 1980. Os outros representantes mais celebrados de tal escola são Angela Schanelec, do ótimo "Eu Estava em Casa, Mas...", e Thomas Arslan.

Talvez a cinefilia de hoje valorize mais a escola de Berlim que o novo cinema alemão. Isso se deve, provavelmente, à irregularidade das carreiras de Werner Herzog e Wim Wenders dos anos 1980 em diante, mas também a uma certa internacionalização de suas obras, tendo os dois se tornado diretores do mundo, como Rainer Werner Fassbinder queria ser antes de morrer em 1982. O certo é que Christian Petzold, maior nome da escola de Berlim, parece mais amado nos últimos dez ou 15 anos, com cada novo filme despertando mais entusiasmo que os de Wenders e Herzog.

Isso explica por que "Undine", como anteriormente havia acontecido com "Fênix", de 2014, tenha chegado com tanto alarde no ano passado. A frieza estética dos filmes de Petzold, que envolve cuidado nas composições visuais e movimentos muito estudados da câmera, oferecem ao cinéfilo de hoje uma alternativa interessante às buscas pelo real e às câmeras mais soltas, por vezes soltas demais, de boa parte do cinema contemporâneo.

Mais do que a troca de Nina Hoss por Paula Beer, o que aconteceu após "Fênix" foi a série televisiva "Polizeiruf 110", para a qual Petzold dirigiu três episódios entre 2015 e 2018, experimentando uma narrativa mais fechada e envolvente, permitindo esse recomeço num caminho estético semelhante, mas com algumas mudanças importantes. É possível sentir que Petzold está mais emotivo, menos frio que em seus filmes anteriores. Ele parece também se arriscar mais, como não o fazia desde "Yella", de 2007, ainda sua obra máxima.

"Undine" herda deste último, e do mito anteriormente mencionado, vale lembrar, a forte ligação com a água. Vemos a protagonista por trás do aquário, encontrando uma torneira aberta sem ninguém por perto --a água a chama após o abandono de Johannes, mas é também a água que a une a Christoph, graças ao aquário rompido espetacularmente. Na água, Undine se transforma, na linda citação ao "Intendente Sansho" de Mizoguchi.

Há também, em comum com "Yella", algo mais importante --a coragem de saltar no abismo do amor sem redes de segurança. É assim que Petzold recupera a sua melhor forma.

UNDINE

Quando Estreia no dia 23 nos cinemas

Elenco Paula Beer, Franz Rogowski, Jacob Matschenz

Produção Alemanha, França, 2021

Direção Christian Petzold

Avaliação Muito bom

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