Choro, correria e luta pela vida: a rotina na UTI onde o coronavírus mais matou no Brasil

Por Yan Boechat

O choro baixinho mal foi percebido na UTI no sexto andar do Hospital Sancta Maggiore, no bairro do Paraíso, na Zona Sul de São Paulo. Era um choro quase tímido, contido, mas extremamente doído. Foi só quando a enfermeira abriu a porta para deixar a área onde quase 10 pacientes internados em estado grave recebiam cuidados intensivos na tarde da quarta-feira (1) que os soluços chegaram aos médicos e enfermeiros.

Atarefados em tentar salvar a vida dos idosos entubados que lutam há dias contra a Covid-19, nem prestaram atenção quando a mulher desabou em lágrimas na ante-sala da UTI ao saber que não poderia nem mesmo velar sua irmã que acabara de falecer. “Eu sei que é difícil, mas agora essas são as determinações do Ministério da Saúde. O caixão terá de estar lacrado, vocês não poderão fazer um velório”, dizia o funcionário do hospital encarregado de dar a triste notícia a mais uma família que perdia um ente querido no Sancta Maggiore.

Leia também

Desde que o novo coronavírus começou a fazer vítimas no Brasil, essa tem sido uma incômoda rotina nos hospitais da rede hospitalar do plano de saúde Prevent Sênior em São Paulo. Até a terça-feira (31), os números oficiais do Estado de São Paulo indicavam que 136 pessoas haviam morrido em decorrência da Covid-19. Quase 80 delas - 79, nos números oficial - apenas nos hospitais da rede. O alto volume de mortes em relação aos números totais de falecimentos contabilizados oficialmente pelo Estado fez com que o Ministério Público Estadual pedisse uma investigação sobre o estado das coisas nos três hospitais da rede.

Até a terça-feira (31), os números oficiais do Estado de São Paulo indicavam que 136 pessoas haviam morrido em decorrência da Covid-19. Quase 80 delas, apenas nos hospitais da rede Sancta Maggiore (Yan Boechat/Yahoo Notícias)

A prefeitura pediu a interdição das unidades hospitalares. Na tarde de quarta-feira (1), José Henrique Germann, secretário de Saúde de São Paulo, no entanto, descartara transferir pacientes do Sancta Maggiore para outros hospitais da cidade.

Especializado em idosos, a Prevent Sênior conta hoje com uma carteira de 470 mil segurados, sendo que 356 mil deles tem 61 anos ou mais. “As afirmações de que não estamos adotando as medidas corretas, que estamos sendo negligentes são absolutamente injustas, nossa taxa de mortalidade entre os pacientes idosos de Covid-19 está em 12%, abaixo da média segundo a Organização Mundial de Saúde”, diz Fernando Parrillo, presidente da Prevent Sênior.

Queremos mostrar que não há superlotação Fernando Parillo, presidente da Prevent Sênior

Até terça a companhia vinha adotando uma postura quase passiva diante das acusações de que não estava conseguindo tratar de seus pacientes como deveria. Mas depois que o ministro da Saúde, Luís Henrique Mandetta, divulgou o número de óbitos do hospital em sua coletiva diária, também na terça-feira, Parrillo decidiu adotar uma nova estratégia.

Especializado em idosos, a Prevent Sênior conta hoje com uma carteira de 470 mil segurados, sendo que 356 mil deles tem 61 anos ou mais (Yan Boechat/Yahoo Notícias)

Poucas horas depois de Mandetta dizer que havia um ponto fora da curva nos números de mortes no Brasil por conta dos casos registrados nos hospitais da Sancta Maggiore, Parrillo divulgou um vídeo convidando quem quisesse a conhecer seus hospitais. 

“Agora nós queremos mostrar como trabalhamos, queremos mostrar que não há superlotação”, disse ele ontem em uma entrevista exclusiva (leia a íntegra aqui) ao Yahoo Notícias na sede da Prevent Sênior em São Paulo. 

“O que acontece é que muitos casos de mortes ainda não foram contabilizados porque o Instituto Adolfo Lutz está demorando a entregar os testes”, diz ele. 

“No nosso caso nós enviamos a maior parte dos testes para o Albert Einstein, que não precisa fazer a contra-prova no Adolfo Lutz. Nossos números estão atualizados, mostram a situação hoje, não de uma ou duas semanas atrás”.

Hoje duas unidades do Sancta Maggiore estão dedicadas exclusivamente a pacientes confirmados ou suspeitos de estarem com a Covid-19 (Yan Boechat/Yahoo Notícias)

Hoje duas unidades do Sancta Maggiore estão dedicadas exclusivamente a pacientes confirmados ou suspeitos de estarem com a Covid-19. “Estamos trabalhando com 90% da nossa capacidade, não estamos absolutamente lotados, ainda temos leito de UTI com respiradores que estão livres”, diz a diretora de Epidemiologia da rede Sancta Maggiore, a médica Carla Guerra. 

De acordo com ela, hoje cerca de 140 pacientes estão internados nas duas unidades dedicadas a tratar os infectados com o novo coronavírus, 60 deles em UTIs. “Não há confusão, as coisas estão calmas, está absolutamente tudo tranquilo, apesar de toda a tensão que envolve algo novo”.

Tem sido difícil, mas estamos aqui lutando para salvar os pacientes Carolina Mota, médica intensivista

Para familiares de pacientes que perderam a vida no Sancta Maggiore as coisas, no entanto, não são exatamente assim. Júlio Vieira ainda não se conforma com o fato de o hospital ter demorado mais de 12 horas para informar que seu pai morrera em decorrência da Covid-19. “No atestado de óbito ele morreu às três da tarde e só foram nos ligar às quatro da manhã, uma absoluta falta de respeito e consideração”, diz ele. 

Com dificuldades de visitar o pai quando ele estava na UTI, Júlio se fantasiou de médico e conseguiu entrar na Unidade de Terapia Intensiva para mostrar ao pai que eles não o haviam abandonado. “Gritei: ‘Papai, estamos aqui, estamos com você’”, conta ele. “Acho que ele ouviu, não sei, ele estava entubado, acho que ele mexeu as mãos, não sei ao certo, logo me tiraram de lá”.

Na tarde da quarta-feira o clima era tranquilo na unidade do Paraíso do Sancta Maggiore e nas três UTIs instaladas no hospital haviam leitos disponíveis. “Tem sido difícil, estamos aqui lutando para salvar os pacientes, mas essa é uma doença muito agressiva, muito agressiva mesmo”, diz Carolina Mota, uma das médicas intensivistas que atuam na linha de frente contra o Covid no Sancta Maggiore.

“Estamos com os nervos à flor da pele, melhor eu nem falar como isso está nos afetando porque senão começo a chorar”. Perto dela, um outro médico se preparava para instalar um catéter direto no coração de um paciente. Após vários dias entubado, suas veias ficaram frágeis demais para receber os medicamentos que, esperam os médicos e os enfermeiros, podem, quem sabe, salvar sua vida.

Em nota, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) diz que nunca solicitou a interdição das unidades hospitalares do Sancta Maggiore, mas sim uma “intervenção". Leia na íntegra:

A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) solicitou intervenção temporária nas Unidades Paraíso, Pinheiros e Jardim Paulista do Hospital Sancta Maggiore por meio de ofício encaminhado no dia 27/03 à Secretaria Estadual de Saúde (SES). A solicitação levou em conta a subnotificação e outras inconformidades encontradas no serviço. Assim, a SES foi comunicada e inspeções conjuntas estão sendo realizadas, com o intuito de corrigir as situações encontradas. O Processo Administrativo foi instaurado por meio da lavratura de um Auto de Infração, pela Vigilância Epidemiológica de COVISA, e a instituição está sendo monitorada. É importante salientar que o objetivo da solicitação de intervenção é assegurar que os atendimentos nas unidades citadas sejam realizados em conformidade com as normas e protocolos previstos. Portanto, não implica em interrupção dos serviços prestados.