Chitãozinho & Xororó abrem o jogo e contam tudo sobre sertanejo, política e eleições

***FOTO DE ARQUIVO*** CAMPINAS, SP, 23.08.2022 - Retrato da dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó, que completa 50 anos de carreira. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** CAMPINAS, SP, 23.08.2022 - Retrato da dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó, que completa 50 anos de carreira. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

CAMPINAS, SP (FOLHAPRESS) - Em algum momento da primeira metade dos anos 1980, Xororó estava em Nashville, a meca da música country americana, quando comprou um banjo de segunda mão. "Nunca tinha visto um banjo na minha vida, mas lá era comum", diz o cantor, que, ao lado do irmão, Chitãozinho, completa 50 anos de carreira. "Percebemos que a música country tinha muito a ver com a sertaneja."

O banjo apareceu pela primeira vez mesclado à sonoridade caipira em "Ela Chora Chora", de 1985, mas não foi apenas o instrumento que Chitãozinho & Xororó trouxeram na bagagem. "Ficamos muito interessados na maneira deles se vestirem -as roupas franjadas, as calças rasgadas e apertadas, uma mistura de rock com country", diz Xororó. "Ele trouxe o banjo e eu trouxe o chapéu", acrescenta o irmão.

As influências americanas marcaram a carreira da dupla, que, mesmo sem abandonar as letras sobre o campo, àquela altura era protagonista na popularização do sertanejo. Se antes era limitada aos interiores de Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Mato Grosso e Goiás, a música do campo passava então a acompanhar a urbanização das grandes cidades do país enquanto também se transformava.

Este mês, Chitãozinho & Xororó retornaram aos Estados Unidos para gravar um projeto audiovisual ao vivo, acompanhados por orquestras e com participação de Sandy, Junior e Luan Santana. Eles reuniram 14 mil pessoas em quatro apresentações, incluindo o Radio City Music Hall, em Nova York, que celebram as cinco décadas de uma trajetória sem igual não só no sertanejo, mas em toda a música brasileira.

Muito antes dos americanos, era a América Latina que inspirava os irmãos José Lima Sobrinho e Durval de Lima no interior do Paraná. "A gente conhecia o trio Pedro Bento, Zé da Estrada e Celinho, que até se vestia de mariachi", diz Chitãozinho, citando a influência dos sons do México. "Eles eram os mais próximos, mas Belmonte e Amaraí cantavam assim, e depois Milionário & José Rico também tinham essa veia, da rancheira, fincada lá."

Na virada dos anos 1960 para os 1970, a chamada música caipira tinha como inspiração as rancheiras, os boleros, as serestas e as guarânias. Não à toa, o primeiro sucesso de Chitãozinho & Xororó, "Galopeira", de 1970, foi importado diretamente do Paraguai.

Os irmãos começaram a carreira ainda adolescentes, perseguindo o sonho frustrado do pai de ser músico, mas já queriam transcender a música caipira. "Quando morávamos no Paraná, crescemos com o timbre do Roberto Carlos no ouvido. Ouvíamos muito Beatles, Wanderley Cardoso, Jerry Adriani, todo aquele movimento da Jovem Guarda", diz Chitãozinho.

Mais do que a voz e os cabelos longos do rei, eles queriam somar às violas aqueles baixos, guitarras e baterias do rock. "Quando a gente ia gravar um disco, o produtor falava que 'não, tem que ser viola, violão'. Às vezes não queria botar nem o contrabaixo. Tinha que ser acordeom. A gente dizia que 'não, não é isso que a gente quer, porque isso todo mundo já faz'."

Até o fim da década de 1970 -isto é, a primeira fase da dupla-, os irmãos tocavam em circos e contavam o dinheiro escasso que recebiam da gravadora. Vender 5.000 cópias de um álbum era o ápice. Artisticamente, dizem, eram muito contrariados. Tudo mudou quando conheceram o produtor Homero Bettio, que viraria amigo e empresário.

A essa altura, Chitãozinho & Xororó já tinham pedido demissão da Copacabana, selo que lançava suas músicas, e fazer um álbum com Bettio era como uma última dança. "Disseram 'se não der certo, a gente dispensa vocês no ano que vem', aí nós aceitamos", diz Chitãozinho. "Quando Homero mostrou o que ele estava fazendo, ficamos de boca aberta. Era um sonho. Exatamente o que a gente queria."

Ainda não era a estética arrojada que a dupla adotou a partir da década seguinte, mas o novo tratamento das gravações impulsionaram músicas como "60 Dias Apaixonado", de 1979, e "Amada Amante", de 1981, que colocou a carreira dos irmãos em ascensão.

Esse processo foi coroado com "Fio de Cabelo", música que vendeu mais de 1 milhão de cópias do álbum "Somos Apaixonados", lançado há exatos 40 anos. É um patamar alcançado apenas por gente como Roberto Carlos e Nelson Gonçalves, impensável para a música sertaneja àquela altura.

"Sertanejo no rádio só tocava em AM, de madrugada e no fim de tarde, e só no interior", diz Chitãozinho. "Começamos a perceber que as rádios começaram a tocar durante o dia. Começaram a pedir e a tocar em FM. Essa música mais do que triplicou o nosso público. Tinha gente que não ouvia e passou a ouvir música sertaneja."

"Fio de Cabelo" pôs a música sertaneja no cardápio dos ritmos mais consumidos do Brasil, onde hoje é o prato mais pedido da maioria dos brasileiros. Mais até do que isso, ela trouxe uma nova poética para o estilo, que ficou mais próximo da música romântica ou brega.

Conforme escreveu o pesquisador Gustavo Alonso em coluna publicada neste jornal, o próprio Marciano, dupla de João Mineiro e compositor da música ao lado de Darci Rossi, não quis gravá-la porque a achava melodramática e melancólica demais até para os padrões sertanejos.

Se hoje a sofrência domina o sertanejo, ela certamente tem raízes em "Fio de Cabelo". "Eu diria que foi a primeira canção que abriu essa porteira para a música se tornar mais romântica e mais bem elaborada de poesia, de harmonia e de tudo", diz Xororó.

Mas as mudanças não vieram sem resistência. "Lembro que Inezita Barroso, que sempre foi a rainha do caipira, chamava isso de 'sertanojo'", diz Chitãozinho. "Sofremos muito preconceito. Quando estourou, o cara rico, que vinha do interior, tinha vergonha de entrar na loja e pedir uma fita de sertanejo. Ele mandava o motorista ir comprar, mas tocava no carro. Depois, o caipira virou moda."

Dali em diante, Chitãozinho & Xororó não pararam. Vieram as idas aos Estados Unidos, os banjos e gaitas, as mudanças de figurino, a popularização dos rodeios, o acréscimo de banda com baixo, guitarra e bateria e o Rock in Rio de 1985. Eles viram no festival o show do Yes, banda de rock progressivo britânica, e pegaram a ideia de fazer um palco elaborado, com fumaça e pirotecnia.

Na segunda metade dos anos 1980, diz Chitãozinho, quem movimentava as massas eram eles, Sidney Magal e RPM. Foi então que a dupla passou a exigir equipamentos de som e estrutura melhores, investir para viajar com banda, algo que influenciou a popularização de todo o sertanejo Brasil afora.

O movimento adiantou o sucesso de Leandro & Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano, já na virada da década seguinte, marcando a exposição crescente do gênero na TV, a expansão para plateias do Nordeste e chegando até o especial "Amigos", na Globo, em 1995.

"Nossa imagem ficou conhecida. O cabelo e o figurino viraram moda", diz Xororó. Em certa altura, acrescenta o irmão, eles tinham que viajar com dois jatinhos para dar conta da estrutura de banda e palco. "Fizemos 285 shows em um ano, mas ficamos doentes."

Hoje, eles celebram o pioneirismo com uma agenda bem mais confortável, de não mais do que "uns seis shows por mês", e dizem que nunca tiveram cachês astronômicos, ao contrário do que acontece com astros do sertanejo como Gusttavo Lima e Zé Neto & Cristiano, que dominaram o noticiário por receberem cachês que beiram ou ultrapassam R$ 1 milhão vindo dos cofres públicos para tocar em cidades com poucos milhares de habitantes.

"As coisas têm que ser às claras. É ridículo um artista cobrar um cachê milionário numa cidade pequenininha de tantos mil habitantes e aquele dinheiro ser tirado do próprio povo", diz Xororó. "Não tem lógica. Não tem cabimento nem o prefeito fazer isso nem o artista receber, mas cada um é cada um. A gente se preocupa muito com isso. Estamos aqui há mais de 50 anos e não é à toa."

A dupla, que no auge de seu sucesso apoiou Fernando Collor contra Lula em 1989 e figurou na campanha de Aécio Neves contra Dilma Rousseff em 2014, agora não toma lado nas eleições. "Acho que a gente tem que respeitar o voto de cada cidadão. Independente de quem vai ganhar essa eleição, a gente segue sendo brasileiro e trabalhando, produzindo no nosso país", diz Chitãozinho.

Ele vê certa semelhança no apoio que a classe sertaneja deu a Collor e, atualmente, ao presidente Jair Bolsonaro. "Foram duas surpresas, dois candidatos que estavam lá, mas ninguém sabia de nada. Eles apareceram do nada e chegaram lá. Tomara que isso seja um exemplo para muitos políticos, de saber que às vezes a pessoa que está no poder não tem a voz. A voz é do povo."

Já Xororó resume seu pensamento lembrando da música "A Nossa Voz", que a dupla gravou na eleição de 2018. A letra prega a união e reúne figuras de diversos ritmos e correntes políticas --de Caetano Veloso e Gilberto Gil a Elba Ramalho, passando por Karol Conka, Michel Teló e Ivete Sangalo, entre outros. "Esse é o país que eu quero construir/ Com nosso povo andando de mãos dadas vamos conseguir", diz o refrão.

"O voto está aí, com a democracia", diz Xororó. "Vamos continuar assim porque a gente sabe que do outro jeito não foi legal. Pegamos o finalzinho, a gente era criança ainda, mas eu me lembro muito bem que era bem mais difícil. A gente tem que se juntar. A democracia é isso."