Cherry - Inocência Perdida - Crítica do Chippu

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O que você faz depois de conquistar o mundo? Após dominarem a cultura pop por anos com Capitão América: O Soldado Invernal e Guerra Civil, e Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato, este último a maior bilheteria de todos os tempos, os irmãos Joe e Anthony Russo trocaram a marcha para fazer um projeto totalmente diferente, pelo menos em conceito, dos seus trabalhos na Marvel. Isso se deu na forma de Cherry - Inocência Perdida, lançado no Brasil pela Apple TV+.

Baseado no livro de mesmo nome escrito por Nico "Cherry" Walker, Cherry conta a história do seu autor. Do seu romance estudantil com a mulher que virou sua esposa até seus dois anos como médico do exército no Iraque e enfim uma vida de vício em drogas e roubos de banco. O filme atravessa 19 anos da vida do protagonista enquanto passa por gêneros diferentes de cinema e depende bastante da atuação de Tom Holland (Homem-Aranha: De Volta ao Lar) no papel principal.

Mas se nos blockbusters cheios de efeitos especiais e mil personagens os Russo parecem ter encontrado a sua zona de segurança, é nos indies pequenos e focados numa só pessoa que eles enfrentam o seu Thanos. Cherry, apesar de não ser mal dirigido, não consegue comunicar suas emoções ou aprofundar os temas que aborda mais do que Holland consegue se erguer a altura de um papel que demanda muito mais do que ele fez até mesmo em seus trabalhos dramáticos como Z: A Cidade Perdida ou O Diabo de Cada Dia. O resultado não é um desastre, mas há maneiras melhores de gastar 2 horas e 20 minutos.

Esse é um dos pontos principais. Cherry é um livro extenso e há muita história para contar na vida de Walker, mas o tempo logo do longa é quase imperdoável. A única coisa que o impede de se tornar cansativo como uma tarefa de casa é o estio de direção dinâmico e muitas vezes super-heróico dos diretores. Eles utilizam cortes rápidos, montagens com textos na tela, mudança de resolução como ferramentas para chamar a atenção da audiência. Infelizmente, eles são apenas isso. Um chamariz. Algo que captura os seus olhos por alguns segundos e que força os cineastas a buscarem mais truques para manter você lá.

Onde eles não são suficientes, é na hora de salvar o roteiro. Nas entrevistas, o filme é descrito como um estudo sobre a crise de opioides e vício em drogas nos EUA. Isso, entretanto, ocupa apenas um terço do longa e não recebe muita profundidade. O mesmo acontece com os outros temas de Cherry - a guerra no Iraque, o sistema capitalista, a falta de suporte a veteranos com stress pós-traumático. Você não vai ficar entediado enquanto assiste, mas uma análise mais cuidadosa da obra revelará que, talvez, os irmãos precisem de mais treinamento nesse tipo de trama. Tudo está lá, mas a maior declaração do Russo parece vir na forma de piadas com nomes dos bancos (Capital One vira Capitalist One, Bank of America em Bank Fucks America).

É claro que, se a intenção deles era fazer um estudo de personagens, isso poderia ser perdoado. Mas o roteiro de Cherry também não nos dá uma perspectiva privilegiada ao psique do protagonista. Sabemos que ele é perturbado pelo que passou, mas tirando dizer que sua cabeça não está bem, essa versão cinematográfica de Nico Walker nunca é muito explorada. Seus sentimentos e ideias normalmente se comunicam apenas em cenas onde ele quebra a quarta parede, mas a atuação de Holland e esses diálogos são, talvez, o maior fracasso desta produção.

Pior ainda é o tratamento de Emily (Ciara Bravo), esposa de Walker. Ela é escanteada de maneira que passa o filme todo como uma vítima de consequências. Seus traumas são limitados a montagens curtíssimas e suas decisões mais impactantes jamais são exploradas além de uma explosão emocional da atriz. Bravo não é ruim no papel, mas sua escolha dificulta a credibilidade da atuação. É verdade que o casal estava no começo dos seus 20 anos durante a história contada no filme, mas ambos atores parecem ter, perpetuamente, 15 anos de idade. Quando seus personagens avançam, fica difícil levar a sério o que estamos vendo.

Holland, por sua vez, é uma mistura. Ele brilha nos momentos mais leves do filme, como quando está brincando com os amigos que faz no exército, e é capaz de entregar algumas das cenas mais sombrias quando Walker entra de vez no vício em heroína. Mas quando o filme demanda mais drama e tristeza e, especialmente, ceticismo e frieza (características vistas nas já mencionadas cenas de quebra da quarta parede), o nosso atual Peter Parker não está à altura da tarefa. Ele parece o tempo todo precisar aumentar o volume da sua atuação ou manter o rosto de alguém que está tentando segurar a risada. Holland está longe de ser um ator incapaz de papéis mais sérios, mas Cherry precisava de mais nuance do que ele oferece.

Essa parece ser a mensagem real de todo o filme. Ele não é uma perda total, e é bom ver os Russo indo na direção oposta do que fizeram na Marvel, expandindo seu leque e tentando coisas diferentes. Também podemos dizer o mesmo de Holland. Mas nesse quesito, todos eles ainda precisam se firmar. Aqui, não há máscaras para se esconder.