Cerca de 500 quilombolas são candidatos a vereadores e prefeitos em todo o país

Alma Preta
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Número de candidatos e candidatas de comunidades remanescentes de quilombos aumentou 40% em relação ao pleito de 2016; a maioria para vereador. Foto: Acervo Pessoal/Darleno Avelino
Número de candidatos e candidatas de comunidades remanescentes de quilombos aumentou 40% em relação ao pleito de 2016; a maioria para vereador. Foto: Acervo Pessoal/Darleno Avelino

Texto: Flávia Ribeiro Edição: Nataly Simões

Nas eleições municipais de 2020, cerca de 500 nomes de quilombolas estão à disposição dos eleitores de todo o Brasil, segundo a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais e Quilombolas (Conaq). O número representa um aumento de 40% em relação ao pleito de 2016.

De acordo com o coordenador executivo da organização, Antônio Crioulo, que tem acompanhado as candidaturas, o aumento expressivo se deve a um processo de resistência e sensibilização das lideranças territoriais.

Apesar de comemorar o crescimento, a entidade contabiliza que só cerca 350 estão, de fato, comprometidas com pautas coletivas. “Boa parte dos candidatos são fruto de uma vontade política municipal, não passa pela discussão comunitária. Infelizmente, o processo político é cruel e muitas pessoas votam em troca de pequenos favores e ações imediatistas. Um exemplo disso é que há quem não consiga visualizar o que foi construído e a dedicação do movimento no fortalecimento de política habitacional, de acesso ao recursos hídricos e fortalecimento do território. Mas também, não temos interesse e nem estrutura política para partir para esse tipo de atuação política”, pontua o coordenador executivo.

Para ele, o aumento nos registros de candidaturas ocorre principalmente em função do contexto de perda de direitos e ataques que as comunidades remanescentes de quilombos vêm sofrendo. “Entendemos que neste momento de tanto ataque, o povo começou a despertar para se colocar à disposição e disputar não só voto, mas o espaço político de controle social, de elaboração de política pública. Entendemos que isso é um grande ganho para as comunidades quilombolas”, considera Crioulo.

“A política é o único meio possível de mudar a vida das pessoas”

Um dos candidatos é o ex-vereador Darleno Avelino que concorre à Prefeitura de Porto Alegre do Tocantins pelo PT. “Descobri que a política é o único meio possível de mudar a vida das pessoas e para isso é preciso estar no poder. Diante de tantas humilhações e dificuldades enfrentadas, foi possível ter a clareza de que deveria lutar para que os meus irmãos tivessem uma vida melhor, com assistência do poder público”, diz o candidato.

“Considerando que somos nós, contribuintes, que fazemos a máquina girar. Para isso, é necessário está nos espaços de decisões. Ganhei a eleição e fui eleito presidente da Câmara, fiz projetos e emendas orçamentárias que mudaram um pouco o peso da legalidade contra os mais fracos”, complementa Avelino.

Natural da comunidade quilombola Lajinha, 280 quilômetros distante da capital Palmas, Darleno foi um dos nove filhos de um trabalhador rural. Cursou até a 4ª série na comunidade, depois seguiu para capital com o objetivo de terminar o ensino fundamental e médio.

Ele lembra que durante anos só teve duas calças para vestir e que apesar de todas as dificuldades o foco sempre foi no estudo. Em 2009, terminou a primeira graduação e atualmente, é estudante de Direito. Neste ano, ele é o primeiro candidato a prefeito quilombola da cidade. “É um grande desafio ser negro e pobre disputando uma eleição contra o poder econômico e se manter no processo eleitoral, uma vez que as pessoas mais pobres sequer têm poder de mobilidade. Mas busquei em Deus fé e sabedoria. Reuni apoiadores e conseguimos fechar a chapa”, analisa.

“Não basta só votar, é preciso participar”

Quilombola de Tapuio, na cidade de Queimada Nova, 522 km distante da capital do Piaui, Maria Rosalina já foi candidata à prefeita e agora lançou o nome pelo Partido dos Trabalhadores para vereadora.

“Em 2004, concorri a prefeita. Não fui eleita. Há uma cultura, principalmente em municípios pequenos de as eleições serem leiloadas, então leva quem tem mais dinheiro. Por essa razão o eleitorado acaba se deixando levar pelo ‘toma lá e da cá’. Mas foi uma experiência muito boa porque pude perceber a importância de se fazer um trabalho de formação política para que em longo prazo o eleitorado comece a descobrir o significado do voto. Comecei a fazer isso com as comunidades do meu município. O resultado disso foi que em 2008, concorri como vereadora e fui eleita” relata a candidata à vereadora.

Foto: Acervo Pessoal/Maria Rosalina
Foto: Acervo Pessoal/Maria Rosalina

Ela destaca que um dos pontos positivos das experiências como candidata pode ser visto agora, com o aumento de candidaturas quilombolas. “As comunidades hoje já têm a visão de que não basta só votar, é preciso participar. Na medida que você participa, você conhece e aí você cobra realmente o comprometimento de cada um que está na câmara dizendo representar a população”, ressalta.

“Outra coisa que me ajudou no mandato de vereadora foi perceber que poderia contribuir não só com o meu município, mas motivar outras lideranças quilombolas a concorrerem para que tenhamos a nossa legitima representação nesses espaços. Que bom que essa iniciativa não ficou só para mim, mas pude multiplicar com outras pessoas de outros quilombos do Brasil”, comemora Rosalina.