Áudio do Zap diz que cebola na geladeira mata e cura gripe? Será mesmo?

Foto: Getty Images

Voltou a circular no WhatsApp uma mensagem expondo os supostos perigos no uso da cebola.

Muitas vezes quando temos problemas de estômago não sabemos a quem culpar. Talvez a cebola que comemos antes seja a culpada. Cebola absorve bactéria e essa é a razão pela qual são tão boas em nos impedir pegar gripes e resfriados e, por essa razão, não devemos comer uma cebola que esteja descascada por um tempo depois de cortada, diz um trecho do falso áudio

Além de relacionar a planta à cura da gripe, o áudio de 5 minutos e 22 segundos a descreve como ‘veneno’ por ser um ‘imã de bactérias’ e diz ser proibido guardá-la cortada e reutilizá-la depois. Mas será que isso é verdade mesmo?

NÃO. Segundo os especialistas consultados pelo Yahoo, essa é apenas mais uma das milhares de ‘fake news’ que ganham força nas redes sociais. Para começar a mensagem é atribuída à Dra. Marinella Della Negra, infectologista do Instituto Emílio Ribas, que diz jamais ter gravado o áudio.

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“O erro já aparece na grafia do meu sobrenome, que na mensagem aparece como Della Negro. Mas, de qualquer forma, estão usando o meu prestígio profissional para propagar uma informação totalmente falsa, sem qualquer embasamento científico”, relatou Marinella, que diz ser especialista em infectologia, não em cebola. “E não há nenhuma relação entre ambas.”

Cebola não cura nada!

As gripes, segundo ela, são causadas pelo vírus influenza transmitido de pessoa para pessoa, mas não por bactérias alocadas em alimentos, com aponta o áudio. “Assim como também não há qualquer indício científico de que a cebola tem o poder de curar resfriados, gripes ou pneumonias.”

Agora, a pergunta que fica é: após cortada, a cebola pode ou não ser reutilizada?

Diferente do áudio, que aponta os restos de cebolas como venenosos, Uelinton Pinto, pesquisador do Centro de Pesquisa em Alimentos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP (Universidade de São Paulo), afirma que não há qualquer contraindicação ao uso da planta depois de descascada.

“É claro que, assim como todo o alimento, a cebola vai se deteriorando com o tempo. E quanto mais tempo guardada, menor é o seu frescor assim como sua crocância”, afirma Pinto, que diz ser nulo o risco de ‘contaminação’ da comida produzida com uma cebola cortada em dias anteriores.

“Principalmente, se for passar pelo fogo. Mas nada impede de usá-la também para comer crua em uma salada, por exemplo. A única ressalva é que a planta vai perder um pouco na questão sensorial.”

A própria Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) diz não existir qualquer relação de risco no fato de usar cebola cortada em dias anteriores, assim como não há nenhuma orientação específica para o uso da planta, tampouco para seu período de armazenagem e consumo.

“Como qualquer outro alimento vegetal valem as orientações básicas de higiene como lavar o produto adequadamente antes do consumo, guardar em local adequado longe de fontes de contaminação e produtos químicos e não consumi-los em estado de decomposição”, alertou a agência.

Como guardá-la? E por quanto tempo?

Como aponta Edison Triboli, professor do curso de Engenharia de Alimentos do Instituto Mauá de Tecnologia, o ideal é que a cebola cortada seja guardada dentro da geladeira. “Fora, ela corre o risco de azedar mais rápido”, enfatiza ele, que, por causa do odor da planta, sugere que seja enrolada em um plástico filme e armazenada dentro de um pote com tampa. “Assim evita que o seu cheiro contamine a geladeira, assim como aqueles alimentos que costumam projetar os odores do ambiente –como é o caso dos queijos, que facilmente incorpora o gosto de outras coisas.”

Medida que Triboli diz ser também essencial para evitar o ressecamento da celoba. “A geladeira reproduz um ambiente seco e com baixíssima umidade do ar. Portanto, guardar a cebola em um pote vedado, ajuda na preservação da sua umidade natural”, explica ele, que diz não existir problema em a planta ser guardada em rodelas ou picada, com ou sem casca.

E não há um tempo pré-determinado para a reutilização desse item tão essencial na cozinha mundial. A sugestão, de acordo com Pinto, é o bom senso. “Antes de usá-lo, analise as condições da cebola. Basta certifique-se que não esteja azeda, nem muito amarelada ou seca”, orienta o pesquisador.
“Em resumo, a cebola é do bem”, enfatiza Triboli, que caracteriza o áudio que circula na web como um “terrorismo alimentar” que só serve para “difundir o medo”.