Catar terá “bolha de refrigeração” para cada pessoa no estádio, diz engenheiro

Education City Stadium é um dos estádios que receberá partidas da Copa do Mundo de 2022 (Marcio Machado/Eurasia Sport Images/Getty Images)

Baixo, calvo e com óculos de armação grossa, ele não tem nenhum jeito de cientista maluco, desses que podem ser vistos em filmes ou histórias em quadrinhos. Mas suas teorias soam estranhas a princípio.

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Isso até que ele as explica tantas vezes que começam a fazer sentido. Pelo menos foi assim que ele convenceu o governo do Catar a apostar nelas nos estádios que serão sede da Copa do Mundo de 2022.

Nascido no Sudão, Saud Adbul Ghani é engenheiro mecânico e professor da Universidade do Catar. Nas construções de sete dos oito estádios que serão usados no próximo Mundial, ele é responsável pelo projeto de refrigeração que será capaz, jura, de fazer os torcedores nos estádios sentirem temperatura de 20º ou 25º C mesmo que nas ruas estejam 45º C.

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Não por acaso, seu apelido passou a ser Dr. Cool (frio, em inglês, mas que também pode significar “legal” ou “bacana”).

Ghani também é responsável pelo sistema de refrigeração do único estádio que já existia e foi totalmente reformado: o Khalifa International Stadium, palco da final do último Mundial de Clubes, entre Flamengo e Liverpool (ING), em dezembro.

Durante o torneio que contou com a equipe brasileira, ele fez exibições para jornalistas sobre como pretende impedir que o calor que no verão pode superar os 50º C chegue aos jogadores em campo e ao público nas arquibancadas.

“A ideia é fazer com que cada torcedor tenha uma bolha de refrigeração” afirma o engenheiro.

Se funcionar (ele garante que a eficiência já foi comprovada em testes), poderá ser usada pelo Catar também em algumas ruas de Lusail, a cidade construída a partir do zero para sediar a abertura e a final da Copa do Mundo. É onde também está sendo erguido o estádio nacional de Lusail.

“Os estádios vão gerar a energia necessária de acordo com cada setor. Porque a temperatura não é a mesma em todos os lados. Vamos bombear o ar gelado apenas na quantidade exata. Nem mais, nem menos. E tudo será reciclado porque a refrigeração vai sair por baixo e será novamente usada por meio de um sistema de tubulação. Toda a água é reutilizável”, completa. 

Dr. Cool gosta de fazer barulhos como “bum” ou “pow” para explicar como o sistema (que ele às vezes chama de “mágica”) funciona. A demonstração é feita no Education City Stadium, em Doha, que deveria receber a final do Mundial, mas não ficou pronto a tempo. Ele aponta algumas vezes para tubulações embaixo de cada cadeira. É por ali que o ar gelado, na temperatura necessária, será liberado. Jamais indo direto para o espectador, ele garante, mas o contornando.

Por isso ele fala em bolhas individuais de refrigeração.

Para simplificar o que projeta, Ghani diz que se trata de um jogo de equilíbrio entre o ar quente do ambiente e o ar frio liberado pela tubulação do estádio. O ar quente sobe. O ar gelado desce. E assim é regulada a temperatura.

“Simples, não é?”, ele pergunta.

O primeiro teste de porte para o sistema foi no Mundial de Atletismo em Doha, em setembro do ano passado. Pouco se falou no assunto porque a polêmica ficou pela baixa presença de público no Khalifa International Stadium.

“Nós podemos reduzir a temperatura no estádio para até 7º C. Não vamos chegar a isso, mas serve para ter ideia. Queremos oferecer um ambiente térmico para as pessoas e para os jogadores. Vamos coletar a água das chuvas, torná-la gelada durante a noite e armazená-la em um tanque. O ar vai passar por essa água para se tornar frio”, finaliza.

Seu projeto foi usado na campanha do Catar para sediar a Copa do Mundo para provar de que o país poderia sediar o torneio disputado em julho, no meio do verão. O consenso depois foi que o melhor era mudar o mês e em 2022 pela primeira vez a competição acontecerá em dezembro, quando as temperaturas estarão entre 21º e 26º C. Não uma situação em que a invenção de Dr. Cool será primordial.

Mas o engenheiro afirma que o importante é olhar além. Os equipamentos construídos para o torneio da Fifa depois serão usados o ano todo pela população do Catar:

“Acho errado ver o sistema como ferramenta para eventos como a Copa do Mundo ou o Mundial de Atletismo. É preciso ver a utilidade que terá no dia a dia. Porque os estádios serão usados no desenvolvimento do esporte no Catar e será de extrema importância para estudantes, mulheres e crianças.”

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