Caso Neymar: quando o crime é estupro, as mulheres são julgadas e isso depõe contra nós

Foto: Getty Images/Reprodução/SBT

Por Susana Cristalli

O caso Neymar, acusado de agressão e estupro por uma mulher com quem teve um curto relacionamento, continua em ebulição. E superada a fase dos memes e da zoeira inevitáveis em qualquer situação que se desenrole no Brasil, o vaivém de acusações tomou um viés ainda mais sombrio e parece longe de uma conclusão definitiva.

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O único aspecto definido é o julgamento da sociedade, principalmente nas redes sociais.

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Esse julgamento é o que já condenou a modelo Najila Trindade que acusa Neymar de estupro, por meio de piadas, hashtags, programas televisivos, através do vídeo da agressão compartilhado no WhatsApp, nas conversas no elevador, na academia, nos almoços.

Alguns memes sobre caso Neymar (Foto: Reprodução/Facebook)

No caso mais brando, o texto que acompanha o vídeo diz que “os dois se merecem”, pois ele “caiu num golpe”. Tudo impulsionado por um posicionamento do próprio presidente Jair Bolsonaro, que não apenas fez questão de tirar uma foto com o jogador após a lesão no jogo da última quarta-feira (5), como falou em entrevista sobre o fato ‘da mulher ter ido pra outro continente’, sem terminar a frase mas dando a entender que o fato dela ter ido até lá elimina qualquer possibilidade de ter havido um estupro.

Estupro também acontece em uma relação consensual

Nenhuma novidade. O caso Neymar apenas confirmou mais uma vez que o estupro é o único crime no qual quem precisa provar inocência é a vítima, e seu bem-estar é infinitamente menos importante do que a reputação do acusado. E não estamos julgando aqui as supostas acusações ou defesas — isso será feito judicialmente no futuro —, mas a narrativa masculina e machista em torno do caso.

Tainã Góis, advogada cofundadora da rede feminista de juristas e membro da comissão de direitos humanos da OAB, aponta para um agravante que é o fato de estarmos mexendo com o futebol. “É uma instituição importante, muito masculina e muito misógina, é um vespeiro muito grande”, diz.

De acordo com ela, existe na sociedade uma dificuldade enorme de entender o que é estupro, pois é arraigada demais essa visão de que o único estuprador possível é um desconhecido numa rua escura, enquanto na maioria das vezes o crime acontece dentro de uma relação que começou consensual.

O fato de uma mulher ter demonstrado interesse ou até iniciado o contato físico não inválida o estupro juridicamente, pois o consentimento deve ser dado no ato. Sim, na hora H. Isso deve soar quase absurdo para muito homens e até muitas mulheres mas, não, nada do que aconteceu anteriormente conta como atenuante em caso de estupro. “[Essa concepção] é por conta dessa visão antiga, de que a mulher deve ser recatada e não tem direito à sexualidade. Não importa se uma mulher tirou a roupa, não importa nem se sentou em cima do homem – até porque num contexto de paquera os dois provocam, é assim que as pessoas relacionam. Mas se em algum momento ela falou ‘não quero assim’ e ele a forçou, isso é estupro”, diz a advogada.

“Por qual motivo a sociedade foca em proteger a reputação do homem e não em fazer Justiça para a vítima?”

É também muito comum a opinião pública acreditar que as mulheres que denunciam estupros teriam algo a ganhar com isso, especialmente no caso de homens famosos. Na prática, é extremamente improvável que a modelo que acusa o jogador extraia algum tipo de vantagem disso tudo, e Tainã também lembra que a maioria dos casos de estupro nem sequer são julgados porque a mulher tem medo da devassa que vai acontecer em sua vida. Mas por qual motivo a sociedade foca em proteger a reputação do homem e não em fazer Justiça para a vítima? Para Tainã a resposta é simples: “porque a vida de um homem é mais importante na sociedade do que a vida de uma mulher”.

No tribunal das redes, nem todas as opiniões têm o mesmo peso. E o Neymar recebeu uma avalanche de validação vinda de quem mais conta, ou seja pessoas famosas. É só olhar para a sequência de risquinhos azuis indicando os perfis verificados que mandaram mensagens de apoio ao jogador.

Foto: Reprodução/Instagram

Danos do posicionamento instantâneo

A juíza e escritora Andréa Maciel Pachá, cujo trabalho inspirou a série “Segredos de Justiça”, do Fantástico, tem uma visão semelhante à de Tainã sobre a repercussão de casos de estupro em geral.

“Este caso concreto [o do Neymar] ainda vai ser apurado, mas em todos é sempre a mulher quem é vista como quem está mentindo, as pessoas julgam o comportamento e não a situação. A sociedade transforma qualquer conflito num grande espetáculo”, afirma Pachá.

Ela acredita que a comunicação nesta era dominada pelas redes sociais é muito precária, e acaba criando um ambiente onde as pessoas precisam julgar e se posicionar rapidamente demais. Vale lembrar que logo após o caso ser divulgado na imprensa, o jogador de futebol divulgou imagens de Najila Trindade em sua rede social, com mais de 126 milhões de seguidores, o que é crime.

“A opinião pública não tem compromisso com contraditório e defesa e reflete os valores e preconceitos da sociedade. O machismo nos estrutura e isso acaba se refletindo nos muitos comentários e olhares, especialmente nas redes sociais”, ela diz, e acredita que essa linguagem típica das redes é prejudicial.

“Não consigo julgar tão rapidamente como as redes sociais fazem. Isso prejudica a convivência, é ruim para nossa perspectiva civilizatória”. Por telefone, a juíza finalizou: “Em qualquer circunstância a tendência é duvidar da mulher, e isso revela muito do que a gente [sociedade] é”.