Casal negro é acusado sem provas de roubar carteira em shopping no Rio de Janeiro

Caso foi registrado pela Polícia Civil como calúnia; Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Alerj encaminhou as vítimas para assistência jurídica e psicológica. Foto: Divulgação

Texto: Nataly Simões | Edição: Pedro Borges

Um casal negro foi acusado, sem nenhuma prova, de roubar uma carteira dentro do Shopping Rio Sul, um dos mais famosos centros de comércio e entretenimento do Rio de Janeiro. No dia 18 de janeiro, Paulo César e Luana Santos estavam na fila do cinema quando foram abordados por um homem que estava acompanhado de duas crianças e procurava uma carteira perdida. 

Segundo Paulo César, o homem perguntou se o casal havia achado alguma carteira no local e após a resposta negativa pediu para ver a bolsa de Luana. Em seguida, uma funcionária do shopping disse que a carteira havia sido encontrada perto de uma escada rolante.

O casal relatou falta de amparo e habilidade do shopping e da polícia na condução do caso. Após a acusação de roubo, Paulo César e Luana foram levados para o 10º Distrito Policial (DP) da Polícia Civil, no bairro Flamengo. O acusador do roubo aguardou a chegada da polícia na área de atendimento ao consumidor do Shopping Rio Sul e foi liberado pelos policiais.

“Na 10ª DP, o caso foi enquadrado como calúnia, mas sabemos o que estava por trás daquela acusação: o racismo. Éramos os únicos negros naquele lugar. Queremos justiça. Não quero que o meu filho e  qualquer outra criança negra passe pelo que meu marido e eu passamos”, afirmou Luana.

O casal está traumatizado com a violência racial e os reflexos geraram desconforto para a família. “Meu marido não anda mais com a cabeça erguida. Tem medo de encarar as pessoas olho no olho. Perdeu completamente a auto estima. Isso machuca muito”, desabafou Luana. 

Assistência jurídica e psicológica

A Comissão de Direitos Humanos e Cidadania encaminhou no dia 21 de janeiro o casal para atendimento jurídico com a Defensoria Pública e para atendimento psicológico com profissionais especializados em racismo.

Para a deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ) e presidente da Comissão, é necessário encarar casos como esse para que o racismo seja combatido no país. “Atuamos hoje para que, com o devido acompanhamento jurídico, possamos chegar à reparação do casal e à elucidação do caso, a fim de que sejam verificadas as possibilidades de responsabilização do acusador e daqueles que conduziram de forma inábil a situação, apontando a real motivação da acusação”, salientou.

Esse é o segundo caso de racismo denunciado à Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Alerj em menos de 15 dias. Segundo o órgão, na última semana, quatro jovens procuraram o núcleo para relatar agressões sofridas em um bar na Zona Portuária do Rio de Janeiro. As vítimas também receberam assistência.

Versão da polícia e do shopping

Em nota enviada ao Alma Preta, a assessoria de imprensa da Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCE-RJ) disse que “o caso foi registrado como calúnia, visto que foi imputado à vítima fato definido como crime, o que nada tem a ver com o crime de racismo”.

O Shopping Rio Sul*, por sua vez, também informou em nota que “a segurança foi acionada para interromper as agressões de ambos os lados e, seguindo o protocolo, indicou que, caso os clientes quisessem, poderiam ser acompanhados até a cabine da polícia localizada nos arredores do shopping. O shopping reforça que prestou o auxílio necessário dada a situação e que está à disposição para cooperar com possíveis investigações”.

* Informação atualizada às 19h58 de 27 de janeiro de 2020.