'Casa Gucci', com Lady Gaga, é divertido, mesmo com sotaques ridículos

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FOLHAPRESS - É sempre meio ridículo quando um filme de Hollywood que se passa em um país de língua não inglesa opta por atores americanos ou ingleses nos papéis mais importantes e, em vez de o elenco aprender a língua do lugar ou falar inglês normalmente, adota uma terceira via, o inglês com sotaque.

É isso o que acontece em "Casa Gucci", que tem os americanos Lady Gaga e Adam Driver como protagonistas, além de Al Pacino, Jared Leto, o inglês Jeremy Irons e a mexicana Salma Hayek nos principais papeis secundários.

Para completar, a história se passa em um ambiente de muito luxo e poder, entre os anos 1970 e 1990, na Itália. Não tem como não lembrar dos esquetes do humorístico "Saturday Night Life", especialmente aqueles em que a atriz americana Maya Rudolph interpretava a dublê de diva fashion e designer de moda Donatella Versace, também italiana.

Mas, uma vez que a estranheza do sotaque dos atores --que como todo sotaque muda um pouco a cadência e até o som de cada voz-- deixa de ser novidade, aquele jeito de falar meio surreal acaba contribuindo para a maneira algo burlesca que parece ter sido a opção do diretor Ridley Scott, de "Perdido em Marte", "Gladiador" e "Thelma e Louise", para contar essa história.

A saga da família Gucci é um dramalhão, novelão brabo, e além de tudo a maioria das pessoas sabe como a história vai acabar (calma, não vai ter esse spoiler aqui), mas é impossível não se divertir assistindo. A direção de arte, um ponto quase sempre forte nos filmes de Ridley Scott, é marcante nesse filme. Os cenários são lindos, os figurinos, impecáveis, a trilha sonora, adorável.

Os diálogos é que deixam a desejar --ninguém fala como os personagens desse filme, e olha que não estou mencionando o sotaque italianado de novo. Mas as frases usadas são algo simplórias, não têm sutileza alguma nas conversas, os personagens dizem exatamente o que qualquer pessoa diria se tivesse aquela intenção. Sem elaboração nenhuma.

Outra coisa complicada de usar elenco majoritariamente americano é o tabu de mostrar os seios das mulheres. Quanto mais alto o cachê da atriz, maior o sutiã que ela usará nas cenas de sexo. Em "Casa Gucci" só tem uma cena de sexo, mas é uma cena importante, que existe para provar que o amor do casal central é de verdade, pelo menos no começo. E lá está Lady Gaga, toda vestida.

"Casa Gucci" é o segundo filme que Ridley Scott dirige este ano. No mês passado chegou aos cinemas "O Último Duelo", que também tinha Adam Driver no elenco, além de Matt Damon e Ben Affleck --os dois escreveram o roteiro da trama junto com Nicole Holofcener. Fracasso tanto de público quanto de crítica.

Não deve ser o caso deste longa, que coleciona elogios desde que fez uma première inaugural em Londres, duas semanas atrás, que não deve ser a única. O filme, aliás, vem provocando tremeliques entre os milhões de devotos da cantora Lady Gaga há muito mais tempo.

Primeiro, quando ela foi escolhida para o papel, em 2019. Depois, quando surgiram as primeiras imagens dela de cabelo escuro e esculpido com laquê, vestindo Gucci, no papel de Patrizia Reggiani, ou Patricia Gucci, como a personagem real prefere desde que se casou com o herdeiro da marca, Maurizio Gucci, em 1972, quando ambos tinham 24 anos.

O filme começa antes do casamento, quando Patrizia ainda trabalhava como contadora na empresa do padrasto, que tinha uma frota de caminhões. Ela conhece Maurizio (Adam Driver), um estudante de direito tímido e desajeitado, herdeiro da grife criada por seu avô Guccio, e cuidada na época por seu pai, Rodolfo (Jeremy Irons), um tipo arrogante e solitário, e seu tio, Aldo (Al Pacino), gregário e fanfarrão.

Maurizio não se interessa pelos negócios de sua família, mas Patrizia, sim. E como. Agindo como uma perfeita "starter wife", termo cuja tradução literal é "esposa inicial", mas que significa a primeira mulher de um homem que prospera na vida e que, mais tarde, quase sempre, é trocada por outra, mais nova e menos gananciosa, Patrizia consegue embutir sua ambição no marido.

Por iniciativa dela, o casal se aproxima do tio Aldo, que cuida do dia a dia da empresa e que bota Maurizio em um cargo executivo. Aldo tem uma grande tristeza na vida. Seu único filho, Paolo, interpretado por um irreconhecível Jared Leto, é um bufão que acredita ter um talento não reconhecido como estilista.

Além de modificado por próteses e uma careca postiça, Jared Leto leva às últimas consequências o modo italianado de falar inglês. Ele meio canta meio recita suas falas, é tudo quase operático. O personagem, aliás, é casado com uma cantora de ópera, que faz um pocket show em uma cena tanto hilária quanto constrangedora, em que Paolo apresenta uma coleção de roupas de sua criação para a marca Gucci.

A aproximação com o primo e a produção da coleção criada por ele fazem parte de um plano de Patrizia e Maurizio de tomar para si o controle da empresa da família. Mas, quando perde o controle sobre seu marido, que se transforma em um milionário cheio de idiossincrasias conforme vai ficando mais poderoso, Patrizia perde, também, o que parecia ser o sentido de sua vida. Ou algo assim.

Quando: Estreia nesta quinta (25) nos cinemas

Elenco: Lady Gaga, Adam Driver, Jared Leto, Jeremy Irons, Al Pacino e Salma Hayek

Produção: EUA, Canadá, 2021

Direção: Ridley Scott

Avaliação: Muito Bom

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